sábado, outubro 07, 2006

Filogenia dos ancestrais humanos

Cro Magnon (II)

Ignora-se a motivação que levou os nossos antepassados a pintar, contudo, a pintura foi o mais importante passo na evolução cultural do homem.
A escolha dos lugares, a dezena de metros abaixo das áreas onde decorria a vida, para as pinturas das cavernas na Europa Ocidental, demonstra que a cave da arte foi usada para uma variedade de propósitos quer de ritual quer social.
Com a pintura aparece a gravação quer em pedra ou osso e na sequência desta a escultura.
Não se pode deduzir destes restos humanos quando a linguagem/discurso apareceu, mas é difícil imaginar esta espécie de artefactos sem ela.
O Homo sapiens sapiens tinha nesta altura começado a ser um eficiente fazedor de ferramentas, mas talvez mais precisamente, um fazedor de símbolos e seu utilizador.
A sua evolução intelectual leva-o a substituir a religião do caçador (o medo dos animais) pelo medo dos fenómenos da Natureza. O trovão, o relâmpago e grandes chuvas, passaram a ser os elementos temidos pela sua incompreensão.
O aparecimento de figuras de mulheres, quer gravadas quer em estatuetas, com gordos e exagerados traços sexuais, sugerem que elas simbolizavam a fertilidade.
Com o aparecimento dos agricultores neolíticos, mudou completamente o panorama religioso da Pré-História.
O mais importante para eles passou a ser a terra, o Sol e a chuva. Pelos vestígios encontrados parece que aqueles primitivos homens adoravam o céu na figura de uma divindade a quem se associa a continuação do culto dos antepassados.
O culto da deusa da fecundidade, começou para assegurar a fertilidade dos campos, a fecundidade do gado e a prosperidade da casa,
São as estatuetas mais antigas que se conhece e foram encontradas por toda a Europa, Ásia. África, Austrália e América.
Ela representava a criação e a regeneração da vida.
Eram elas que traziam a vida ao mundo, alimentavam e cuidavam até poder valer-se a si própria. A sobrevivência do grupo dependia delas.
Não se reconhecia o acto sexual como acto de dar vida, e a mulher reprodutora, aparecia como uma força da Natureza, criadora toda-poderosa, que dominava sobre o homem, sobre o animal, sobre a vida e sobre a morte.
Como Grande Mãe, encerrava o desejo humano da fertilidade, assim como a esperança de superar a morte, que o homem da Idade da Pedra, poucas vezes ultrapassava os 25/35 anos.
A ideia fundamental da idealização da Deusa Mãe, foi conceber um conceito universal capaz de integrar o macrocosmo e o microcosmo.
Ela não só tinha capacidade reprodutora e nutriente, como a causa que sustinha o Universo, que oferecia um corpo cósmico, qual útero, em cujo interior se gestavam todos os estados do ser como um contínuo.
A morte e a vida se sucediam como a noite e o dia, eram complementares e inevitáveis, dando lugar a uma existência sem fim.
Nenhum formulário religiosos posterior terá sido tão holístico, inteligente e tranquilizador como a Ditosa.
Pepe Rodriguez

Com este texto termina a Filogenia dos nosso ancestrais que vim apresentando ao longo de diversos posts. Espero que tenham gostado. Para recordar, fica a fotografia de família.

22 Comments:

Blogger Simbelmune said...

Em relação ao “quote” do Sr. Rodríguez:

Ou atribuímos aos ancestros - que (repentinamente) se precatam do feminino e começam a criar estatuetas - um sentido filosófico, místico, biológico (questões de geração que – como tu mesmo realçaste – não pareciam ser reconhecidas na altura) e de estratificação social deveras superior aos primitivos e básicos rudimentos que associamos à idade da pedra (assim necessitando condenar esta onda de “romantismo” que projecta ideias actuais e conceitos modernos em épocas passadas – como os filmes que atribuem um estatuto de emancipada autonomia ao feminino na idade média Europeia) ou enterramos estas visões romanceadas e começamos a ver que há discrepâncias major na forma como interpretamos os papéis e estereótipos de homens e mulheres baixo um filtro actual que pretende interpretar o passado num plano contextual baseado num esquema cronológico bizarro.

Relativamente à foto de família “símia”, acho interessante as linhas “clássicas” do Darwinismo (fortemente contestadas e sujeitas a mudanças radicais com cada novo “ossário” “fortuitamente” encontrado) mas não me parece que forneçam sequer algum tipo de background coerente com a nossa existência, tal e como nos manifestamos no mundo que nos acolhe – esse modelo parece-me mais uma tentativa demasiado esticada para suportar a ideia da cronologia que (teimosamente) se procura vender como suporte para todo um outro corolário de correlações visando deslocar a humanidade de uma causa para a sua existência – entregando ao acaso, às mutações fortuitas e afins - um campo que poderia trazer respostas bem mais verosímeis e reais à nossa presença nesta gruta que chamamos “Terra” e ao nosso deambular aparentemente sem sentido através das eras e das civilizações não fosse o processo organizado de dessensibilização e letargia.

Um ser sem conhecimento da sua origem facilmente se deixa levar para aqui ou além…

Relativamente ao mito da “Deusa”, tão em voga entre feminismos, românticos, e afins:

Deusa Serpente de Creta – uma sociedade gerida por mulheres até à sua invasão. Os homens tinham um papel serviçal. O rei era morto de sete em sete anos em sacrifício ritual.

Índia:

Kali – antes dos Arianos invadirem o vale do Indo, a sociedade que Kali geria era algo despiadada e “caóticamente natural”. Esta deusa é parte de uma tríade e é vista com a cabeça de Shiva nas mãos ou ainda copulando com o seu corpo morto. O mais curioso é que – até serem substituídos os sacrifícios em 1835 – ela recebia no templo de Tanjore, uma criança do sexo masculino, que era morta por decapitação todas as Sextas-feiras sagradas.

Assam
Durga Puja – era oferecido um homem em sacrifício, sendo os pulmões consumidos por yogis enquanto a família real consumia arroz cozinhado no sangue sacrificial.

Os Khonds ofereciam à Deusa da Terra – Tara – um sacrifício para as colheitas… e seguimos para bingo (não descrevo os sistemas nem a crueldade de alguns sacrifícios – mas entendam que muitos eram feitos em postes, as vitimas - sendo sagradas - não podiam ser amarradas porque tinham de se entregar, mas eram-lhes quebrados os ossos dos braços e pernas para facilitar que não fugissem quando executavam a tarefa de lhes arrancar cabelos e afins para dar mais sorte. Nalguns locais – as lágrimas da vitima – dependendo no seu número – facultariam melhores resultados).

América Central:

Coatlicue, “Saia Serpente”; Cihuacoatl, “Mulher Serpente”; Itzpapalotl, “Mariposa Faca de Obsidiana”
Os amigos Maias adoravam o sacrifício.
Os Aztecas não lhes ficaram atrás.
Talvez haja um meio termo (para além da propaganda atual) na forma como os Espanhóis ajudaram a terminar os sacrifícios impondo o culto Cristão.

América do Sul:

Icamiabas – (paralelo das Amazonas que ajudaram Tróia na sua Guerra contra a coalizão Grega) matam os filhos do sexo masculino. As mulheres guerreiras seleccionavam os seus “reprodutores” entre os melhores conquistados dos povos em redor - o destino dos pobres infelizes depois de servirem à cópula sagrada para emprenhar as amigas era semelhante ao do rei Veado (tão angelicalmente apresentado nas “Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley).

Suméria e sucedâneos:

Inanna, (que podemos identificar com Ishtar, Ashtoreth, Aphrodite, Astarte, e relacionada com Asherah, Oestre, Ostara, assim como a deusa marítima Mari, or Miriam) aparece na Suméria.
Inventa-se o sacrifício ritual dos reis (a história de Inanna é deveras curiosa – no fim poupa os irmãos e filhos e, óbvio, mata o marido como preço pelo seu regresso do inframundo… só visto).

Canan: (com possível invasor Acádio na pele do “traste” do consorte de Anath – o deus Ba’al):

Anath – hecatombes (100 homens) como sacrifício à deusa consorte de Ba’al – os pénis eram depois atados è imagem, sendo a imagem recoberta de vermelho com o sangue das vitimas.
Esta “linda” faz o mesmo que a deusa egípcia de cabeça de leão Sekhmet ;

Babilónia:
Ishtar – que o espertalhaço Gilgamesh rejeita em casamento (por não querer ser despachado pelo próximo pretendente a marido da menina, iniciando assim o ciclo de Reis que rejeitam o sacrifício ritual e começando a guerra contra a Deusa);
Esta Astarte estava espalhada como doença – os reis de Tebas, e Canaan governavam por sete anos, depois…tau!

No Zimbabwe os reis eram estrangulados pelas suas esposas até 1810. Os reis sacrificiais estenderam-se na Grécia incluindo África e Roma primitiva (antes da república e posterior Império).

Ásia Menor (Turquia):

Cibele (Magna Mater em Roma) e o amigo Attis faziam uma festa e pêras. Os sacerdotes entravam em êxtase e cortavam um pouco de tudo (até os respectivos) que depois mandavam para a estátua da Deusa. Artémis em Éfeso e Astarte na Síria tinham as mesmas manias.

Bacantes:
Não vou dar uma descrição em pormenores da violência que as meninas traziam de vila em vila, nem como não havia homem que ousasse interromper as gandas farras (sob risco de morte - as senhoras entravam num transe e numa onda “radical” que as tornava como “feras”).
É clássica a história do rei que – disfarçado de mulher as espia – é apanhado e morto pela própria mãe, que de tão pedrada que estava nem topa que é o filho, até exibir orgulhosa a cabeça na cidade natal… bem haja as mulheres pacíficas!!
Durante uma semana, no cume do monte mais perto – lá se celebrava mais um deus homem desmembrado. E seguimos para bingo!...

Estes são alguns exemplos que posso evocar de memória – seria interessante fazer uma pesquisa mais alargada.

Peço desculpa pela linguagem relaxada – mas resulta bizarro ver como os romances e toda a propaganda envolvendo o culto Mariano introduzida desde cedo com a poesia trovadoresca – criam uma imagem idílica que ameaça com destruir a hipótese que temos neste passar de era de usar o melhor de ambas as visões (masculina e feminina) na edificação de uma estrutura social mais harmoniosa.

Os mitos do passado era suposto encerrarem uma mensagem de transcendência que levava o neófito à descoberta do seu reflexo por caminhos de trabalho, reflexão e introspecção.
Os mitos actuais – desenvolvidos por uma estrutura policéfala estendendo-se por entre os média e afins – tendem a apagar o juízo crítico, a memória dos tempos e as tradições anteriores – com vista à criação de uma sociedade Utópica (paralela à obra homónima) que, me parece, ser a absoluta tirania pelo subtil.

4:39 da tarde  
Blogger Ulysses said...

Eu adorei, estes relatos sobre os nossos antepassados. É curioso verificar, como o misticismo, sempre acompanhou a nossa tomada de consciência, da natureza, da qual fazemos parte.
A sermos únicos no cosmos, somos certamente, um milagre de coincidências, inacreditável.
1 Abraço.

6:46 da tarde  
Blogger Albatroz2 said...

Eu gostei mto.
É sempre interessante visitar o teu blog.
Obrigado.

8:57 da manhã  
Blogger Kalinka said...

Engraçado, não me imaginava hoje...andar junto dos nossos antepassados, mas, nunca se sabe para onde a Vida nos transporta...

Mas...há quem se dedique ao tema de forma mais explicativa!!!
Simbelmune relatou tudo
numa pesquisa mais alargada. Parece-me que gosta a sério do assunto.
Bom domingo.
Abraços.

4:28 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

por acaso nao me lembrei do parlamento. nao tinha o numero de telefone mas podia ter ligado o 118. contudo o 118 faz-me perder a paciencia.

foi de facto o neolitico a grande mudança na humanidade quando o homem deixa de ser recolector para ser sedentario e com isso a criaçao de classes sociais.

mas é tudo muito interessante.

abraço da leonoreta

8:58 da tarde  
Blogger Amigo de Alex said...

E termina muito bem, como sempre descrito em linguagem simples e bem explícita. Então e para quando esse livro a reunir todos estes escritos dispersos e a conclusão final sobre as maleitas do mundo e a responsabilidade da humanidade?
Um abraço.

12:41 da manhã  
Blogger Em busca da Paz de Espírito said...

A par da pintura temos a música e a escrita como resultados de uma imensa vontade de criar e comunicar complexidades que note-se satisfazem necessidades humanas.
Tal como nós, quantos ancestrais humanos não valorizavam tanto o "Uahuu, consegui!".
A busca da simplicidade das complexidades. Sem dúvida, fazedores de símbolos e seus utilizadores.
Gostei. Abraço.

8:53 da manhã  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Sim, amigo... Tenho somente a agradecer, pois eh tambem gracas a ti, o Eu Sei Que Vou Te Amar competa mais um ano de vida... O teu carinho, a cumplicidade, a amizade e a partilha destes 2 anos de existencia, fazem com que me sinta com vontade de permanecer por aqui por muitos anos mais...
Beijos muitos!

5:33 da tarde  
Blogger Mendes Ferreira said...

querido Augusto...passo a correr...(adoeci)para deixar um abraço ancestral :) e dizer que é um prazer ler re.ler tres.er ver re.ver - Te.

assim atento e sabedor....
dentro do filme em que nos perdemos..:)


até breve.

dá por mim um beijo especial àquela Rapariga...:)))))

7:03 da tarde  
Blogger A Rapariga said...

E que família!

Comentário só para encher...

Beijinhos

8:34 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Termina assim mais um dos teus trabalhos no qual te empenhas-te para
nos ajudar a entender a filogenia dos nossos ancestrais, com um excelente retrato de família que ficou para a posterioridade. Um abraço do Raul

9:22 da tarde  
Blogger lazuli said...

Nada somos e no entanto somos tudo. Como diria Sagan, fomos um rapaz e uma rapariga, um réptil e uma borboleta, e um exactamente, mas entendes a analogia.

Um abraço

1:12 da manhã  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Veja se concorda...
http://cronicasdapeste.blogspot.com/2006/05/king-vegan.html

12:57 da manhã  
Blogger pintoribeiro said...

Bom dia, boa semana. Abraço Augusto,

1:44 da tarde  
Blogger Dad said...

Como sempre muito interessante!

Beijinho,

3:23 da tarde  
Blogger martelo said...

como sempre uma boa profundidade na descrição e uma boa forma de instrução... no fundo o ser humano busca desde os inícios a explicação misteriosa da vida e do desconhecido...

4:23 da tarde  
Blogger hfm said...

Felizmente voltei a ter computador e a poder vir aqui ler-te e aprender. Um abraço

6:15 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Visitar o teu blog é, antes de mais nada, abrir as páginas de uma enciclopédia fabulosa... Aprende-se muitíssimo vindo aqui e eis o motivo pelo qual volto sempre, e, claro, unindo isto a uma amizade sincera, faz com que realmente valha a pena... :o)

Muitos beijos, querido amigo e um bom fim de semana que já se aproxima... :o)

6:42 da tarde  
Blogger Kalinka said...

OLÁ

No ultimo post coloquei um comment, como explicação do meu problema de saúde, caso queiras ler, vai até lá.

HOUVE COMENTÁRIOS DE ALGUNS AMIGOS/AS QUE, PENSAM QUE TENHO PROBLEMA DE ADAPTAÇÃO À VIDA PROFISSIONAL, MAS NÃO SABEM O QUE SE PASSA COMIGO.

Abraços.

10:46 da tarde  
Blogger Peter said...

Olá Augusto! E agora? Proponho-te um tema interessante: a VIDA.
Surgiu do mar?

7:53 da tarde  
Blogger legivel said...

Nada (ou muito pouco) é garantido. A demanda da nossa identidade prossegue em próximos capítulos.
Certo, certo é que a história mais recente do homem, nos diz que somos um ser em busca constante de aperfeiçoamento... que este corpo e esta mente ainda não nos satisfazem.
Da alma, alguns mais iluminados, nos querem tratar da saude?! não cuidando que por aí é que nunca mais lá chegamos...

abraço.

8:46 da tarde  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,
A escrita nasceu da necessidade do homem comunicar com ele mesmo mais tarde, e também com os outros homens. De transmitir ideias sem ser pessoalmente ou verbalmente. Seja na mensagem gravada na pedra com martelo e escopro, seja no papiro, na carta enviada por e-mail, no romance, no blog, no relatório, no programa de acção, ou na lista da mercearia.
A escrita constitui, quanto a mim, uma das mais extraordinárias invenções do homem: converter fonemas em símbolos gráficos que as pessoas treinadas transformam rapidamente em fonemas ao ler. Coisa de milhares de anos, para a desenvolver como existe hoje.
Abraço.

11:28 da tarde  

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