terça-feira, novembro 01, 2005

Capital vs Trabalho

Capital e Trabalho, a dicotomia fundamental da economia moderna, oponentes, contudo, a sua existência de pende da interacção. O Capital propicia o trabalho, o Trabalho, por seu lado, é a base da sustentabilidade do Capital.
Desta interacção nasce a produção que tem como alvo consumidor, o Trabalho.
Como sem consumo a produção perde a sua razão de existir, e o consumidor é o Trabalho, conclui-se que o Trabalho tem de comprar a produção para que o Capital lhe dê trabalho, constatação esta que leva ainda concluir que o Trabalho produz para ele mesmo, ficando o valor acrescentado à produção para o Capital, como mais valia do seu investimento.
Valendo-se da sua influência e chantagem económica, o Capital é quem dita as regras da interacção.
Sujeito a elas, o Trabalho vê-se confrontado com a cupidez do Capital, que para aumentar os seus lucros utiliza simultaneamente dois princípios. O pagamento do salário mais baixo possível ao Trabalho e a imposição do preço ao consumidor que mais lucro lhe ofereça, que tem como resultado óbvio o empobrecimento do Trabalho directamente proporcional ao enriquecimento do Capital.
A ambicionada autonomia do Trabalho em relação ao Capital só é possível socializando, substituindo este por organizações participadas pelo Trabalho, do que resultaria a supressão do lucro do Capital, mantendo-se contudo, a causa/efeito, comprar para trabalhar.
Este modelo ambicionado nos fins do século XIX, e posto em prática nos princípios do século XX, não demonstrou a eficácia desejada, tendo degenerado para numa economia de subsistência, ou na substituição do Capital por uma ditadura económica de resultados catastróficos.
Só a socialização de todas as economias poderia conseguir êxito com este sistema económico, caso contrário o Capital remanescente conseguirá desmoroná-lo pela competitividade, o que efectivamente aconteceu.
O Capital, apesar do fracasso socializador, temeu o fenómeno, e acedeu a algumas reivindicações do Trabalho, melhorando-lhe as condições de trabalho, tendo como consequência o aumento da produção e consequente lucro, pois o Trabalho passou a comprar mais. Ironicamente o Capital não compreendeu o fenómeno, pagar mais para lucrar mais.
Mas a insaciável e imoral cupidez do Capital acaba por o levar a competir entre si, qual matilha disputando a presa.
A competição empurra o Capital para outros paradigmas da economia, diferentes do mercantilismo, onde o custo em vez do lucro é quem passa a ditar as leis do mercado.
Para conseguir o custo competitivo subverte as regras da interacção com o Trabalho, retirando-lhe o conquistado pelas suas reivindicações. O Trabalho, se por um lado beneficia do resultado desta concorrência entre o Capital, por outro lado vê cada vez mais reduzido o seu poder de compra. A interacção começa a ficar comprometida com a dificuldade da compra.
Acossado pelos seus pares, o Capital cai na armadilha da automatização, rescindindo a interacção, passa a desempregar para produzir mais barato.
Cego e desumano, o Capital, quando se apercebe que a sua produção, fonte de riqueza, não tem comprador, porque o Trabalho já não compra por não ter onde trabalhar, sucumbe no meio das suas máquinas que produzem mas não compram.
Talvez seja este o fim do actual conceito económico do Capital, se entretanto os paradigmas económicos não forem alterados.

O Trabalho sem trabalho, mas livre do Capital, com a esperança na fraternidade, renasce deixando de o ser para dar lugar a uma interacção entre homens, livres trabalhadores.

Publicado simultaneamente no Editorial

20 Comments:

Blogger Paula Raposo said...

Capital sem Trabalho não sobrevive, só jogando muito baixo...uma realidade! Beijos

7:52 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Excelente texto, como sempre, Augusto.
Venho agradecer-te as visitas tão simpáticas que me deram alento na ausência. Vou espaçar os posts por questões profissionais e ter, assim, mais tempo para retribuir as visitas.
Um beijinho muito carinhoso, meu amigo.

9:12 da tarde  
Blogger rajodoas said...

Tal como comentei no editorial a dicotomia Capital Trabalho tende a desaparecer neste País. Em consequência disso a socialização não passou dum processo de intenções que teve nos primeiros anos após o 25 de Abril alguma expressão mas que depressa os grupos economicos mais poderosos resolveram coartar esse direito aos trabalhadores com a conivência dos diversos governos disputados entre os dois principais partidos PS e PSD. O poder de compra
baixou drasticamente tal como o endividamento das famílias, a Banca regista lucros estrondosos, assistindo-se ao aumento significativo da pobreza e à destruição de grande parte do tecido social produtivo. Voltamos por isso
à estaca zero com consequências absolutamente imprevisiveis. Um texto como já nos habituaste a revelar a nossa triste realidade.
Com um abraço do Raul

10:08 da tarde  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,
Gostei de ler esta tua reflexão, e as conclusões obvias que consegues tirar, e com as quais eu concordo inteiramente. No fundo do que se trata é de um ciclo vicioso do qual é dificil sair.
Continuação de boa semana.
Abraço.

10:37 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

grande comentario no meu Ex acerca das maquinas. grande liçao de economia que fazes aqui augusto. ha blogs que valem a pena. o teu e um deles.

abraço da leonoreta

12:10 da manhã  
Blogger Menina_marota said...

Eu vinha à procura do Robert Wagner da Stillforty, eu leio um verdadeiro Tratado...
Parabéns por este artigo!

Um abraço ;)

10:57 da manhã  
Blogger sal said...

Bom tema!
È por isso que em Portugal ninguem procura Trabalho, procura-se emprego. Empregar o tempo. Até parece que existe um "complot" com a palavra Trabalho que faz lembrar, "passar trabalho" ou esforçar-se em demasia.
Marxista de formação, embora...pronto! Gostei muito do texto.
Quem está a "passar trabalho" nem sempre procura emprego, é mais fácil deitar as culpas ao Capital ou jogar no Bingo...

Abraço

2:36 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Excelente raciocínio. É pura e simplesmente a constatação de uma realidade amarga. Do nosso Sonho de uma sociedade sem classes, surge o pesadelo de uma sociedade "sem classe".

A Luta Continua!

Um Abraço,

6:23 da tarde  
Blogger Sofocleto said...

Cego e desumano, o Capital, quando se apercebe que a sua produção, fonte de riqueza, não tem comprador, porque o Trabalho já não compra por não ter onde trabalhar, sucumbe no meio das suas máquinas que produzem mas não compram.

Talvez seja este o fim do actual conceito económico do Capital, se entretanto os paradigmas económicos não forem alterados.

Concordo absolutamente contigo. Os Belmiros e os Rothchilds, com os despedimentos em massa, encarniçam-se a serrar o ramo onde estão sentados. Mas temos, imperiosamente, de tornar esta mudança de paradigma mais humana para os menos endinheirados.

Um abraço

8:46 da tarde  
Blogger Noel Santa Rosa said...

Querido amigo Augusto:
O "Patrão" só o é enquanto tem trabalhadores... :-)
Mesmo as máquinas (robots) necessitam de trabalhadores, ainda que poucos para produzirem algo e para serem produzidos.

Quando se corta em recursos humanos, esquece-se que a máquina por si só, não se dedica nem consome o que produz, consome energia e no dia em que se avaria...

Tenho uma pequena história interessante para contar a propósito:

Um empresário comprou um belo computador a preço económico.
Dispensou a secretária e tentou ele mesmo aprendendo aos poucos fazer o trabalho que ela fazia na antiga máquina de escrever.
um dia o computador avariou e ele teve de chamar um técnico.

O técnico chegou, abriu o computador, verificou tudo, voltou a fechar e apertou um parafuso na traseira onde se ligava o monitor.

Apresentou a conta: 400 euros

O cliente reclamou do valor dando como argumento o facto do técnico ter apenas apertado o parafuso.

O técnico, pediu a factura de volta e alterou o valor e descrição da factura.

Rezava assim: deslocação e feramentas - 50 cêntimos!
Saber qual o parafuso a apertar - 399.50 euros

O cliente pagou e nunca mais reclamou dos valores cobrados pelo técnico.

Moral: nem sempre é o trabalho que se faz, mas o conhecimento e o investimento na aquisição desse conhecimento que é a mais valia dos trabalhadores.

Grande e fraterno abraço

2:24 da manhã  
Blogger HarryHaller said...

Uma excelente meditação sobre a forte possibilidade de autofagismo do próprio sistema económico. Contudo, do meu ponto de vista, o melhoramento material da condição humana, passa menos por sistemas económicos ou ideologias politicas, e mais pela evolução mental do ser humano. Pois, independentemente das ideologias politicas ou económicas que venham a aparecer no futuro, se a mentalidade humana não mudar no sentido, de abdicar q.b do egoísmo que lhe é próprio, em favor do amor à humanidade, nunca mais veremos um paraíso da terra, a que desde sempre todo o ser humano tem direito.

Um abraço e parabéns pelo seu excelente texto.

Lobo das Estepes

1:33 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Amigo,
Estive sem conseguir entrar nos comentários nos últimos dias, por problemas do meu próprio pc, mas já está tudo funcionando novamente e cá estou para deixar-te muitos beijos e sorrisos!
Obrigada pelas tuas sempre tao bonitas palavras deixadas aqui para todos nós e também lá em casa...
Mais beijos!

5:23 da tarde  
Blogger Adryka said...

Olá meu escritor favorito, sabes que adoro ler os teus posts são pedaços de realidades, és realmente fantástico amigo.
Beijinhos

2:59 da tarde  
Blogger susana said...

Augusto desculpe-me mas não consigo ler o seu post. As cores não são as melhores para ler um texto e faz-me muita impressão à vista.

4:24 da tarde  
Blogger sal said...

Já li este fantástico texto várias vezes e sempre dá vontade de dizer mais alguma coisa.
Já passei pela experiência de trabalhar numa fábrica; e meus amigos, posso confessar que o trabalho fabril faz com que tudo o que existe contido no ser humano seja posto em evidência: a ignorância, a ambição, invejas, a luta suicida e de reto contra nós própios... O Capital sabe disso e manipula as fraquezas humanas no enrriquecimento piramidal, não dos bens de consumo ou banalidades e sim...È um circulo vicioso no "micro-cosmos" no "macro"...em fim.
Na experiência que tive enquanto operário fabril (imaginem eu sou músico e depois?, queria lá saber!!) vi e viví situações que marcaram minha vida.
Neste mundo deita-se ao lixo diariamente toneladas de alimentos enquanto milhões passam fome, EU VI ISSO!!! para que os índices de produção e o mercado não "encrave" com o excedente.
È bom analisar as "realidades". Viver-las têm um "sabor" diferente...

PS: Augusto..."A LUTA CONTINUA!!!"

3:25 da tarde  
Blogger Zecatelhado said...

Desculpa lá a falta de assiduidade nas visitas habituais a esta casa mas, uma gripe de todo o tamanho tem estado a morar nestes 120 kilos bem pesados. De manhã até fui ao espelho ver se já me tinham nascido penas atrás das orelhas, eh,eh,eh! que isto com a gripe das aves nunca se sabe.
Uma boa semana para ti.
Aquele @bração do
Zecatelhado

6:55 da tarde  
Blogger Albatroz2 said...

Lamento ser do contra, mas não concordo.
O texto está muito interessante disso não há duvidas.
Mas esqueceste-te da concorrencia entre empresas, entre países, da formação, impostos, etc.
Aliás, a taxa de desemprego aumenta em Portugal e não é por isso que o consumo diminui.
Mas esta critica, não diminui o valor do texto, gostei mto de o ler.

9:42 da manhã  
Blogger stillforty said...

Bom raciocínio. É a realidade que temos de admitir.

8:04 da tarde  
Blogger lazuli said...

Augusto, gostei muito..
É pouco, eu sei..
Um beijo, querido amigo*

8:59 da tarde  
Blogger Geosapiens said...

...a realidade é outra o caminho pode ser esse...mas enfim...as resistências são mais que muitas...é uma pedra importante no debate...veremos se serve de sustentação á parede...um abraço fraternal...

5:14 da tarde  

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