terça-feira, setembro 20, 2005

Este homem esteve em Chaimite

Manuel Dias de seu nome, nasceu em 1872 em Vila de Rei na Beira Alta. Ao contrário dos seus conterrâneos trocou como destino de migração o Brasil por Lisboa.
Assentou praça no regimento de cavalaria Lanceiros 2 e acompanhou em África, durante a rebelião dos Vátuas, Mouzinho de Albuquerque, Paiva Couceiro entre outros. Tomou parte nas batalhas de Coolelo e Macontene, tendo feito parte do pequeno grupo, chefiado por Mouzinho de Albuquerque que tomou de assalto Chaimite, o reduto sagrado dos Vátuas, aprisionando o rei africano Gungunhana. Pelo seu comportamento em combate, muito cedo foi promovido a sargento. Este homem é o meu avô paterno.

Teria eu cerca de 12 anos de idade, quando foi exibido nos cinemas de Lisboa o filme de Jorge Bruno do Canto, Chaimite. O meu avô, na esperança de matar saudades e reviver algum do seu passado, foi logo ver o filme convidando-me para ir com ele ao Paris Cinema.
Achei o filme fantástico, as cenas de guerra muito bem feitas para a época, com cargas de cavalaria e tudo, mais a heroicidade dos protagonistas, fez as minhas delicias. O entusiasmo foi tal, que queria ir ver o filme outra vez, mas o meu avô, com cara de zangado, atalhou, comigo não, ver esta chusma de mentiras até faz dó. É uma aldrabice pegada. Não foi isto que se passou.
Então não é verdade? O avô esteve lá. Por isso mesmo, sei bem como tudo se passou, ainda não estou esquecido. O Joaquim que eu conheci, não foi o herói que querem aqui demonstrar (o Joaquim era o primeiro nome de Mouzinho de Albuquerque), bebia que nem um cacho. O grande homem da guerra, continuava ele, foi o Paiva Couceiro, esse sim é que sabia comandar.
O avô também andou com ele? Se andei com ele? Combati ao lado dele numa das piores batalhas que tivemos, quando íamos a caminho de Mandlakasi vindos de Lourenço Marques.
Antes de continuar, o meu avô procurou um sítio para nos sentarmos, pois a solenidade que emprestava aos assuntos de África, não permitia que estivéssemos de pé. O local encontrado foi um banco no Jardim da Estrela, onde começou a sua narrativa.
A nossa coluna que tinha cerca de 300 soldados foi atacada por cerca de 13.000 guerreiros do Gundunhana.
Foi uma grande aflição, nunca tínhamos visto tantos pretos juntos, com pinturas de guerra, emplumados, saltando e gritando insultos na língua deles. Uma parte vinha armada de lanças e zagaias, outra com armas de fogo inglesas, fornecidas pelo pirata do Cecil Rhodes da África do Sul, que estava nos bastidores de toda a rebelião, e tinha como objectivo, apossar-se do porto de Lourenço Marques, para utilizar como porta de saída para o mar.
Toda a tropa estava aterrorizada, ninguém sabia o que fazer, alguns soldados começaram a entrar em pânico. Não fosse a pronta intervenção do Paiva Couceiro, dando ordens para uma rápida formação do quadrado, correcta colocação das metralhadoras e canhões, e pessoalmente colocar-se ao lado dos soldados para estes não vacilarem, não sei se terias hoje avô.
Os pretos lançavam ataques sucessivos, sobretudo em direcção das metralhadora, pois sabiam que estas, quando submetidas a um fogo intenso, encravavam com facilidade, e sem elas estávamos perdidos.
Foi por pouco que não furaram o quadrado o que seria o nosso fim, numa luta corpo a corpo seríamos chacinados. O Couceiro corria de lado para o outro todo o quadrado gritando, aguentem rapazes, aguentem se não estamos perdidos, fogo neles, ninguém se deita no chão. Isso é que era um oficial. Não fosse a coragem dele não sei o que teria sucedido. Por fim os pretos desistiram de continuar os assaltos e retiraram-se. Tivemos muitas baixas entre mortos e feridos, mas matamos mais de 400 guerreiros negros. Foi uma vitória tal que o Gungunhana fugiu para Chaimite.
Então foram atrás dele até Chaimite e prenderam-no, interrompia eu a narração, abanando a cabeça prosseguiu, não o perseguimos, não tínhamos muitas condições de voltar a enfrentar um outro ataque, e haviam alguns régulos na zona com muitos guerreiros.
Eu estava delirante a ouvir o meu avô, era a primeira vez que o ouvia falar de África, com tanto detalhe, normalmente quando falava da guerra era sempre só com uma ou outra fase lacónica.
Depois fui colocado no aquartelamento de Gaza, sob o comando do Mouzinho de Albuquerque, continuou ele.
Ainda me lembro como se fosse hoje, era noite de natal, estávamos todos cheios de saudade da família e com uns copitos. Os oficiais estavam também a celebrar a consoada, quando o Mouzinho de Albuquerque, com uma grande bebedeira, o que era habitual, começou a gritar, vamos a Chaimite apanhar o Gungunhana, quem quer vir comigo? Era uma loucura, o Gungunhana contava com muitos guerreiros, e para mais estava no seu terreno. Como aos bêbados só os bêbados respondem, dois tenentes e cerca de 50 soldados ofereceram-se como voluntários. Eu nem queria acreditar no que se estava a passar, era uma loucura completa. Pegaram nas armas e munições e puseram-se em marcha em direcção a Chaimite. Ao meu lado estava o médico que nos acompanhava. Olhei para ele e disse, doutor é melhor irmos também, é preciso alguém que esteja sóbrio para olhar por este bando de bêbados. Estava convencido que após alguns quilómetros de marcha com a bebedeira curada, voltávamos para trás.
Foi nessa noite que prenderam o Gungunhana? Nem pensar, respondeu o meu avô, Chaimite ficava a três dias de caminho de onde nós estávamos. Foi uma caminhada desastrosa, faltava comida e água, e nem os comprimidos de quinino tínhamos levado.
O Mouzinho quando lhe passou a bebedeira, orgulhoso como era, não quis dar o braço a torcer, e lá continuamos com muito sacrifício direitos a Chaimite. Era um suicídio, se aparecessem os guerreiros do Gungunhana nenhum de nós ficaria para contar a história.
No dia 28 de Dezembro, à noitinha, avistamos as paliçadas da povoação, e ainda me lembro do que o Mouzinho disse, ou atacamos de surpresa ou estamos perdidos. Dentro da aldeia deveriam estar mais de 500 guerreiros, não percebi de que nos valia a surpresa, quando numericamente era de um para dez, que poderíamos fazer. O médico ainda tentou dissuadi-lo, mas a vergonha de voltar para trás falou mais alto. Desembainhou a espada olhou para nós e disse ao ataque. Todos corremos atrás dele, em direcção à paliçada. Estava convencido que ia morrer ali, mas como era sargento também tinha de dar o exemplo.
Os santinhos estiveram connosco, sem saber como, o Joaquim encontrou um estreita entrada na paliçada, e depois de penetrarmos na povoação, a primeira palhota que encontramos foi a Gungunhana, que rapidamente aprisionámos. A surpresa fora total.
Em pouco tempo ficamos rodeados por uma multidão de guerreiros que ficaram estupefactos ao verem o seu rei preso. O Mouzinho com receio de que algum dos régulos presentes, com pretensões ao reino do Gungunhana tomasse a iniciativa de ordenar um ataque, mandou que os fuzilassem rapidamente.
A seguir sobe a ameaça da espada de Mouzinho, o Gungunhana ordenou aos seus guerreiros que depusessem as armas. O dia estava ganho por milagre, um louco se transformou em herói. A última cena que ficou para a história é a resposta do Gungunhana quando o Mouzinho o mandou sentar no chão, e ele respondeu que não se sentava porque estava sujo. Mas acabou por se sentar à força. O leão de Gaza estava acabado definitivamente.
Fui encarregado de o trazer prisioneiro para Lourenço Marques, para embarcar para o Continente. No final tive pena dele, tinha sido um rei poderoso e reconhecido pelo rei de Portugal aquém pagava vassalagem, agora não passava de um prisioneiro vexado. A ambição perdeu-o.
Levantámo-nos e continuámos o regresso a casa calados, que ficava na Calçada da Estrela. Eu com o pensamento nas imagens do filme, o meu avô possivelmente, em alguma lembrança mais íntima, que não tinha sido oportuna entrar na narração.

22 Comments:

Blogger Biranta said...

O conteúdo desta história é muito mais interessante pelo que permite deduzir do que pelo relato, em si, (que também é excelente).
Para mim o mais interessante e significativo, da história, é mesmo o embuste do registo cinematográfico...
Todos os que têm conhecimento directo de qualquer acontecimento, retratado em registos deste tipo, conhecem o amargo sabor dessa experiência (de ver os factos deturpados e adulterados até à vigarice total).
Acho que, se as pessoas extrapolassem, destas suas experiências, para os restantes factos de que têm conhecimento, por esta via, obteriam um conhecimento muito mais fiel, da realidade e do Mundo... que é, sempre, elemento de primordial importância para se actuar de forma adequada.

12:21 da tarde  
Blogger sal said...

Simplesmente adorável!
Tambem tive um avô que me fez ver que a história é feita por homens e que nem sempre o que vem nos registos corresponde com a Verdade.
Existem homens incógnitos que fizeram doutros célebres icones da história, nunca confiei muito...
Obrigado por este pedaço íntimo que tambem é História!

2:32 da tarde  
Blogger Paula Raposo said...

As histórias maravilhosas que nos fascinam, e nos são contadas pelos nossos avós, ou pais! E nos transportam ao terreno. Beijinhos

2:35 da tarde  
Blogger Adryka said...

É fantástico recordar, então recordadar feitos históricos é sensacional, parabéns pelo post e pela dedicação feita na escrita.
Beijinhos amigo

3:46 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Prezado Amigo,

Tive o privilégio de ouvir-te esta narrativa quando nos encontrámos há umas semanas aqui, em Carnaxide, recordas-te?

Quanto a um comentário acerca do seu conteúdo, já sabes o que eu penso sobre as atrocidades que os europeus cometeram em Africa.

Um Abraço,

5:19 da tarde  
Blogger rajodoas said...

Biranta referiu uma grande verdade. Nem sempre os relatos que surjem sobre a história correspondem à verdadeira realidade. Efectivamente os europeus comenterem em África autênticas barbaridades como aqui é também referido por um comentador. Todavia as maiores barbaridades estão e continuam a estar a ser cometidas nos paises africanos libertados do jugo colonial.
Com um abraço do Raul

10:25 da tarde  
Blogger Um Olhar Sobre... said...

Olá,
Muito obrigada pela sua visita e pelas palavras deixadas no meu cantinho.
Beijinhos

3:03 da manhã  
Blogger susana said...

Por estas e por outras é que acho que é essencial as pessoas falarem abertamente dos acontecimentos da nossa história. Como alguém disse, a História é sempre escrita pelos vencedores, mas mesmo essa que é escrita, nunca o é sem parcialidade ou sem interesse.

2:53 da tarde  
Blogger Elvira Bill said...

O teu avô era um bom contador de histórias, tal qual a minha tia. As horas que passámos a ouvi-la, não foi? Horas a fio, que pena não termos um gravador.

Estas e outras histórias enriquecem a nossa memória, são a recordação e a verdade dos factos que nem sempre coresponde às histórias que a nossa História conta.

Desconhecia que o Mouzinho eara um bêbado...isso não está no filme, pelo menos o Jacinto Ramos não damonstrava...

10:36 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Belíssimo relato, Augusto.
Beijinho e, como ando ausente, deixo já os votos de bom fim de semana.

11:20 da tarde  
Blogger hfm said...

Para que possas perceber o que este post me tocou digo-te só que o meu pai nasceu no Xai-Xai.

5:28 da tarde  
Blogger lazuli said...

A história quase contada na primeira pessoa, Augusto. Um gosto de ler. Hei-de levar-te um livrinho..se o encontrar no meio da livralhada, dum autor cujo nome não me lembro, acho que se chama "O leão ruge", ou parecido. Penso que havias de gostar.

5:45 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

augusto
Klepsidra prendeu-me no primeiro dia que o visitei.
e nunca me decepcionou.

gostei muito do teu comentario la no meu sitio. com ele so ajudas a qualificar o meu trabalho.

abraço da leonor

10:03 da tarde  
Blogger martelo said...

o que é vivido fica gravado e se por circunstância sabemos contar...então, é como visionar um filme real.

12:08 da manhã  
Blogger Peter said...

augustom, extraordinária narrativa! É a desmistificação, já que Mouzinho é idolatrado pela Arma de Cavalaria.
O teu avô ainda é vivo? Certamente que não. Pergunta estúpida.
Como é que essa história seria recebida na CECA (Centro de Estudos das Campanhas Africanas)?
Se fosse a ti enviava-a, bem como a fotografia.
Seria interessante ver a reacção.
A CECA fica no antigo Convento dos Inglesinhos, em Martin Moniz.
Ainda me lembro, dos meus tempos de rapaz, do velho cinema Paris, ali na Estrela, mas, na altura, já não funcionava.
Vou fazer um download do texto para o meu arquivo pessoal.

Abraço

4:12 da tarde  
Blogger Rosario Andrade said...

Muito bom o relato...

Abracicos!

5:23 da tarde  
Blogger Carlos Barros said...

Paiva Coceiro é meu Bisavô...(hihih)

9:20 da tarde  
Blogger bluegift said...

Augusto, que história fascinante. Sempre pensei que o Gungunhana tinha sido morto de forma atroz, cortado aos pedaços, enfim. História relatada num livro do tempo da ditadura e que sempre me intrigou. Como é que o regime teve coragem para descrever algo do género.
A história deve ser reposta, essa é que é a verdade. São relatos como este que devem ser cruzados com outros e construir a nova história da nossa colonização.

10:11 da tarde  
Blogger AMAFAS said...

Obrigado!

3:02 da tarde  
Blogger Peter said...

bluegift, julgo que o Gungunhana acabou os seus dias na Ilha da Madeira, onde viveu com duas das sua mulheres. O Salazar veio muito depois ...

10:03 da tarde  
Blogger Binoc said...

Conheço bem Vila de Rei, fica no centro geodésico de Portugal. Lá, as pessoas são de têmpera rija, endurecida pelas condições difíceis em que se vive. Normalmente falam pouco, mas costumam ser rectos e leais, uma gente extraordinária.
Apenas uma dúvida, suponho que Vila de Rei fica na Beira Baixa e não na Beira Alta.
De resto, um post muito interessante e que me fez lembrar o meu avô, também ele beirão, dum concelho pegado ao de Vila de Rei.
Felicidades.

1:28 da tarde  
Blogger 日月神教-向左使 said...

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12:06 da tarde  

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