quinta-feira, junho 16, 2005

Só, na estrada

Sentado na berma da estrada da vida, o viajante olhava o percurso andado, feito de belas rectas e sinuosas curvas também, podia ter sido uma estrada melhor, mas é a sua, e não interferira na escolha
Umas vezes só, outras acompanhado, foi um longo caminho, para o qual não havia mapa, só marcos quilométricos que durante o percurso foram aumentando de tamanho, e hoje vão ficando cada vez mais perto uns dos outros.
Caminhar só torna o percurso mais penoso, fatigante e angustiado, parecendo que a estrada não leva a lado nenhum.
Mas nem sempre foi assim. No princípio da caminhada teve muitos companheiros de viagem, os amigos, alguns mesmo grandes amigos, mas foram ficando pelo caminho, pelos lugares onde passava, outras preferências, outras amizades, não sabe, talvez outros encontros no seu desencontro. Eram tantos à partida, como foi possível perdê-los todos?
Sentado na berma, olha para a estrada ainda com a ilusão de ver se vem algum atrasado, mas é vão, só a poeira do tempo penumbra o horizonte.
Angustiado, interroga-se, que terá acontecido, onde falhei para os ter perdido? Será que eram mesmo amigos ou algo parecido para eu me ter enganado? Terei eu sabido manter as amizades? Onde terei errado? Se calhar fui demasiado exigente, exigi deles o mesmo que sentia por eles.
Fez um gesto para se levantar, mas logo desistiu, o peso das dúvidas e das incertezas que persistiam obrigaram-no a sentar-se de novo.
Mas se tantos deixaram a minha estrada, tenho de admitir que possivelmente o mal foi meu. Seria que o meu conceito de amizade era tão exigente, que nunca entendi, ou não quis entender o deles? Talvez na amizade não devesse ser tão exigente, mas é me difícil admiti-la sem exigência.
Entusiasmado por começar a sentir-se isentado de culpas prosseguiu.
Posso admitir que seja uma deformação conceptual, a minha da amizade, se eu invisto tudo nela, espero também receber tudo dela.
Mas após uma pausa, a convicção esmoreceu dando lugar a um sentimento amargo de nostalgia.
O não abdicar das minhas convicções terá levado a eles desviarem-se do meu caminho, mas hoje sinto tanto a sua falta, que estou arrependido, sentado só nesta berma da estrada.
Um sorriso aflorou então, de quem tem a solução para o problema. Se voltar a ter amigos, já não vou ser assim, falava alto como se tivesse interlocutor, olhando os seus sapatos já velhos e rotos por tanto caminhar, até vou aceitar o seu conceito de amizade, mais vale algum do que não ter nenhum.
Mas um vento passou por ele e esfriou-lhe o pensamento.
E se amizade não for verdadeira? Que podemos esperar dela? Para haver amigos têm de haver dois, caso contrário um não passa de conhecido.
Conhecidos tenho eu muitos, mas é diferente, nunca lhes ousaria fazer uma confidência e para mim a confidência é fundamental.
Levantou-se, sacudiu o pó das calças e continuou a andar, dizendo convicto para consigo próprio, ainda vou voltar a encontrar pelo menos mais amigo, quem sabe, depois daquela curva além.

A questão continuada publicou a segunda parte do post sobre Sesimbra

15 Comments:

Blogger Alexandre Narciso said...

Gostei muito deste teu "conto". É uma faceta que devias explorar mais.
Abraço

2:30 da tarde  
Blogger Ana Teresa Bonilha said...

Seu post lembrou-me muito uma música, que transcrevo para ti.
Chama-se "a Lista" de Oswaldo Montenegro, conheces?

"Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais

Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar

Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora

Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos ninguém quer saber

Quantas mentiras você condenava
Quantas você teve que cometer
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você

Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver

Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você"

4:44 da tarde  
Blogger Ana Teresa Bonilha said...

obs: "só marcos quilométricos que durante o percurso foram aumentando de tamanho, e hoje vão ficando cada vez mais perto uns dos outros." disse com palavras bonitas e claras o que venho tentando dizer a posts e posts no meu blog (risos) obrigada!

4:47 da tarde  
Blogger lazuli said...

Comento melhor e mais tarde o que escreveste..Há alguém nesse "conto", tu..e os outros. Quem não se sentiu assim nessa estrada? Andando, sózinho? Mas existe caminho para andar. Pode-se até voltar atrás para admirar uma paisagem que nos ficou, ou tocar numa planta que se admirou, ou simplesmente continuar em frente. Se a vida é um caminho a percorrer, haverá sempre nela todas as possibilidades..e em cada curva uma nova paisagem ..e um raio de sol que subitamente nos bate na cara, e nos envolve no seu esplendor.
UM beijo
Fernanda G

8:05 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Belíssima análise da amizade. Fez-me pensar na minha estrada. Gostei muito, Augusto. Beijinho grande.

12:40 da manhã  
Blogger Fernando B. said...

Caro Augusto,

Tens aqui um magnífico exercício de reflexão.

Muito poucas pessoas, se poderão contar como nossas Amigas sinceras.

A Amizade não se mendiga, acontece naturalmente, o que infelizmente é muito raro.

Eu tenho a Felicidade, de te ter, embora recente, entre os meus poucos Amigos.

Um Abração,

12:57 da manhã  
Blogger Bárbara Vale-Frias said...

O que vale é que na estrada da vida de cada um, há muitos cruzamentos que intersectam outras vidas.

A minha vida é sempre um todo-o-terreno que segue ao encontro do seu destino, umas vezes pela estrada asfaltada, outras por atalhos mais rudes. E é neste jipe que se vão encontrando e conhecendo os meus passageiros de ocasião ou de sempre. Uns entram, outros saem, alguns voltam sempre ao seu lugar marcado. Acabam por se conhecer e dar, mais tarde, boleias uns aos outros também. A porta do jipe nunca está fechada.

Raramente, o jipe não pega. Nestas alturas, há que empurrar. E os que lá estão dentro nessa altura fazem-no sempre com todas as suas forças até que o motor arranque de novo e o trilho seja recuperado.

Mas também já tenho feito algumas viagens sozinha, em noites escuras de nevoeiro cerrado...

12:43 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Amigo Augusto
Hoje tem festa lá em casa e estás convidado.
Ficaria imensamente feliz com tua presença amiga!
Deixo-te muitos beijinhos cheios de saudades.

7:33 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

Nesta partilha de ideias em que eu escrevo, tu escreves e ele escreve, gosto de saber que as minhas dúvidas e as minhas incertezas também são as dos outros.
abraço da leonor

11:33 da manhã  
Blogger LetrasaoAcaso said...

Parece-me um pouco sem fé.
A estrada da vida reserva-nos surpresas nem sempre agradaveis. Amigos que ficam, amigos que partem. E todavia, outras possibilidades se abrem. Muitas vezes sinto-me assim.
Abraço

5:49 da tarde  
Blogger Margarida Atheling said...

Se estivermos muito acompanhados podemos não reparar em alguém que entre nesse caminho que seguimos. E, às vezes, até pode ser alguém que nos faça falta!

Nem sempre estar sózinho é mau. Pelo menos dá para pensar e aprender o valor real de cada coisa.

E depois... não há caminhos que estejam sempre vazios!

7:31 da tarde  
Blogger Biranta said...

Agora em: http://wwweditorial.blogspot.com/, todos podem participar e pede-se a todos que publiquem, uma vez por semana, os respectivos artigos, com os vossos próprios comentários.

8:57 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Um beijo do fundo do coração.
Muito obrigada por estares desse lado. BShell

11:16 da tarde  
Blogger Ana Teresa Bonilha said...

Oi Augusto!
Disse ao Daniel, certamente a festa Junina teve origem com os colonizadores portugueses! Portanto, nossas festas são primas! Desejo muito um dia conhecer as festas de portugal hoje! Quando a amizade, acredito ser o sentimento mais belo humano. Tenho certa dificuldade com o mesmo. Uma facilidade para fazer amigos, mas tenho dificuldade em doar-me a estes por muito tempo. Estou sempre mudando de grupos e guardo-os no coração, mas não mantenho a dedicação, o que os magoa. Dificuldade que não tenho quando namoro. Já faz alguns anos que estou trabalhando para mudar isso. Mas não achei a raíz do problema...

1:57 da manhã  
Blogger trintapermanente said...

pq é q temos sempre a impressão de nunca nos amarem como nós amamos?
Talvez pq não somos capazes de dar sem exigencias. então somos nós que não somos os verdadeiros amigos.

2:19 da manhã  

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