sexta-feira, abril 22, 2005

Lutero



A ostentação propositada da liturgia da Igreja Católica, que nos foi dada a observar nos últimos dias, fez-me lembrar um homem que ousou não só criticá-la como afrontá-la.

O movimento contestatário conhecido por Reforma, que criticava o procedimento da Igreja, não reconhecia a autoridade papal e preconizava o regresso ao cristianismo primitivo e deu origem ao Protestantismo, teve como principal figura, Martinho Lutero.
Martinho Lutero nasceu em 1483, em Eisleben, na Saxónia, numa família de camponeses. Em 1501, após ter passado no lar paterno por uma educação muito dura, da qual constavam severas sovas de fazer sangrar, e pela escola onde a educação recebida não passou de algum latim e insuportáveis sermões, Lutero inscreveu-se na Universidade de Erfurt, onde tomou contacto com os humanistas.
Em 1505, recebeu o grau de mestre na Faculdade de Filosofia, que lhe permitia iniciar o estudo da jurisprudência, mas, inesperadamente, abandonou os estudos e um futuro promissor e ingressou no Convento dos Agostinhos.
Apesar de toda a sua rigorosa condição monacal, Lutero debatia-se com a dúvida de ser capaz de se manter firme, à face da severidade de um Deus justo, dúvida que o acompanhou quando se tornou professor da recém-formada Universidade de Vitemberga.
Mas a dúvida de Lutero dissipou-se, no momento em que, após o estudo dos escritos de S. Paulo, descobriu que o homem só podia ser justificado mercê da graça. Para ele passou só a ser válida a unidade com Deus, renegando completamente a interferência da Igreja. A sua formação religiosa, influenciada pela Escolástica, estava povoada de demónios e punições que iriam influenciar a sua futura pregação da perdição do homem que não observasse rigorosamente as leis de Deus. O seu ponto de vista, regressar ao cristianismo primitivo, a vida pautada pela austeridade de costumes, abolia completamente qualquer ritual religioso. Só homem e Deus, sem intermediários.
A decadência da Igreja nessa altura era muito grande. A riqueza, o luxo, a devassidão e a luxúria tinham invadido todos os estratos da Igreja. Os papas tentavam a conquista do poder temporal, com a criação de um Estado Papal, suficiente grande e forte para se impor aos restantes soberanos europeus. Para alcançar estes fins era preciso muito dinheiro, sobretudo para armar exércitos. O caminho mais cómodo que a Igreja utilizou para angariar fundos para os seus projectos temporais, foi a venda de indulgências para os pecadores.
Inicialmente as indulgências eram para os pecados dos mortos, e poucos resistiam perante a oportunidade de redimir o tormento dos seus defuntos. “Logo que o dinheiro retina no cofre, a alma saltará do Purgatório”, tal era o slogan utilizado na venda das indulgências. Ninguém suspeitava que as indulgências eram parte de uma operação financeira da Cúria Romana.
Lutero encolerizou-se por motivos teológicos, mas o seu soberano príncipe eleitor Frederico-o-Sábio da Saxónia, também se indignava, mas por levarem o dinheiro dos seu súbditos para fora do país.
Em Outubro de 1517, Lutero iniciou o seu combate contra as indulgências com as suas 95 teses, acontecimento que marca o início da Reforma.
Tese 21: «Por conseguinte, erram os pregadores de indulgências que afirmam poder o homem tornar-se bem-aventurado e livrar-se de todo o castigo mediante a indulgência papal.»
Tese 32: «Quem, mercê de bulas de indulgência, julgue assegurada a sua salvação, deve ser eternamente condenado juntamente com o seu instigador.»
Tese 43: «Deve-se ensinar aos cristãos que quem dá aos pobres ou empresta aos necessitados age melhor do que se adquirir indulgências.»
Tese 66: «Os tesouros das indulgências são as redes com as quais se pesca o dinheiro da gente.»
Com a condenação das indulgências, a denúncia dos excessos da Igreja e posta em causa a infalibilidade papal, abriu-se um confronto entre Lutero e a Igreja.
Lutero combatia mais o poder de Roma do que a sua doutrina, mas uma coisa implicava a outra, visto que o poder da Igreja assentava na sua doutrina, na crença de que só a igreja católica podia trazer a salvação e estava fundada na lei de Cristo.
Lutero ao romper com os dogmas da Igreja salvadora e da origem divina do poder papal, quebrava a unidade da Igreja, criando um novo grande cisma.
Como o monge Tatzel, o traficante das indulgências, era dominicano, e Lutero atacava em particular as suas actividades, toda a Ordem se considerou ofendida, exortando o papa a tomar medidas contra Lutero e acusaram-no de heresia, ficando a esperar de o ver na fogueira. Ter-se-ia passa o que os dominicanos queriam, se o príncipe eleitor Frederico-o-Sábio não houvesse tomado Lutero sob a sua protecção.
Lutero começou então a escrever, com o fim de expor os seus pontos de vista ao povo alemão. Em 1520, aparecem as suas duas obras mais famosas: Sobre o Cativeiro da Igreja na Babilónia e Liberdade do Cristão.
Na primeira, Lutero afirma que, ao acreditar no poder mágico da missa e dos sacramentos, a Igreja se encerra num verdadeiro exílio da Babilónia. A comunidade dos crentes fica manietada de pés e mãos com estas cerimónias e fórmulas mágicas. Lutero vê aí o erro essencial que nos faz esquecer que toda a vida do homem deve ser posta ao serviço de Deus.
Na Liberdade do Cristão encontra-se a verdadeira essência da doutrina luterana da justificação: «Os actos pios não tornam o homem piedoso, mas o homem piedoso realiza actos pios.»
Não o podendo executar na fogueira, em 1521, o papa excomungou Lutero e os seus adeptos.
A excomunhão implicava ser banido do império, mas Lutero tinha conseguido tantos discípulos que ninguém se atrevia a prendê-lo. A opinião pública exigia que a sua causa fosse instruída pela dieta do império, que deveria reunir-se em Worms no decorrer do ano de 1521.
Na dieta , por não se querer retratar, acabou com a condenação de Lutero e o Imperador baniu-o do império, assim como aos seus adeptos. Era a partir de então um fora da lei, que podia ser morto por qualquer um. Mas mais um vez o príncipe eleitor Frederico salvou-o da morte certa mandando-o “raptar” e enviando-o para Wartburg, onde passou dez anos sob o nome de disfarce de um cavaleiro, um tal Junker George.
Foi durante este exílio que traduziu para alemão o Novo Testamento, tradução feita a partir do grego. A obra apareceu em 1552. Livro de preço muito elevado para a época, depressa se esgotou.
Em Fevereiro de 1537, Lutero partiu para Smalkald, uma viagem de tal modo fatigante, que uma semana depois da sua chegada adoeceu tão gravemente que teve de regressar a Vitemberga, para morrer em casa. Conseguiu restabelecer-se, mas a sua vida, daí em diante, não passou de um longo combate contra a doença, vindo a falecer com uma apoplexia em 1546.

15 Comments:

Blogger Alexandre Narciso said...

Perfect timing para falar de Lutero. Gostei de ler como sempre.
Abraço e bom fds

11:37 da manhã  
Blogger BlueShell said...

Olha...gostei de saber...até porque eu não sou Católica1 Bom, algumas coisas eu já sabia, outras não. Gosto de vir aqui.

Não ligues às minhas palavras , lá no meu canto...deve ser do tempo ou o raio mas...ando deprimida!
Deixo um beijo, BShell

5:29 da tarde  
Blogger paopbocca said...

já li e estudei muito sobre Lutero, como sempre gostei de ler. Lutero não é personagem das minhas simpatias.

em resposta ao teu comentário no post anterior, só estou incomunicável por opção. os porquês são muitos, vou mandar-te o meu e-mail, ok?

6:09 da tarde  
Blogger NeuroGlider said...

Excelente posta sobre o fundador da ética capitalista. Obrigado

5:31 da tarde  
Blogger Estrela do mar said...

...tenho estado adoentada...passei para te desejar a continuação de um bom fim de semana...

Um beijinho*.

9:38 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Então não é que estou de novo com uma amigdalite???
Arre bolas! Tenho de recolher ao leito...
BShell

11:01 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Mas...tem algum jeito passar o 25 de Abril de cama com o diabo de uma amigdalite???

4:48 da tarde  
Blogger Fernando B. said...


A Igreja Católica Apostólica Romana tem as mãos manchadas de rios de sangue, assim como muitos que vieram depois e a contestaram.

Já sabes o que eu penso acerca de toda e qualquer Religião.

Um Abraço,

8:21 da tarde  
Blogger Gustavo Almeida said...

Para que não se esqueça... a relatividade das coisas... mesmo quando o tema é a Religião.

Bom momento de cultura.

Obrigado.

11:49 da tarde  
Blogger Águas de Março said...

Pois foi. E em 1536 foi a vez de aqui em cima se aderir à sua doutrina com o que se ficou a conhecer pela Reformação.
Um abraço para ti, Augusto!
Olha lá, nunca chegáste a receber o mail que te enviei?
Ana Maria

12:39 da manhã  
Blogger Claudio Costa said...

Muito a propósito seu comentário. Também gostei do que você deixou lá no Blog do Conhecimento. Quanto às religiões e outras instituições, quanto mais antigas e "firmes", mais vão criando rituais... é próprio do ser humano: simbolizar, simbolizar, simbolizar. Se não fosse isso, doidos ou bichos seríamos.

2:47 da manhã  
Blogger BlueShell said...

(Só agora estou um pouco melhor da minha amigdalite.) Jinho, BShell

2:11 da tarde  
Blogger Biranta said...

É mais funcional (e proveitoso) vir aqui e ler estes posts do que consultar uma enciclopédia. Gostei!

2:46 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Gostei de ler-te... Confesso nao conhecia esta parte da história da Igreja e é sempre bom conhecer de tudo um pouco, para poder considerar e fazer sempre as melhores escolhas para nossas vidas!
Deixo-te hoje um beijinho de boa semana!

7:37 da tarde  
Blogger jorge said...

aplaudo e agradeço mais um texto/discurso a enriquecer a malta!
abraço.

4:22 da tarde  

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