segunda-feira, abril 14, 2008

Jogo democrático


Criticar a governação é um direito que assiste a todos os cidadãos num estado democrático.

Pedir a queda de um governo eleito democraticamente, porque não nos satisfaz, mesmo fundamentando esse pedido no desajustamento entre o programa eleitoral e o que é a prática governativa, é um direito que não nos assiste à sombra da Democracia.

O candidato comprometer-se com uma coisa e após eleito fazer outra, a experiência verifica que é a pratica corrente de todos os candidatos, como tal, uma coisa que se conhecia de ante mão, não pode servir de justificação para o pedido de demissão.

Um governo que é mandatado pela maioria dos cidadãos, o contrato democrático obriga que seja aceite pelos outros que não o elegeram. Em caso algum, poderá ser demitido por dissidência de opinião, oposição das ideias, ou qualquer outro pretexto de mera desconcórdia, abriria um precedente que seria o fim da Democracia.

O resultado do acto eleitoral nunca pode ser posto em causa, alegando a incompetência do eleitorado ou pelo menos, parte dele, porque a Democracia visa o homem independentemente do seu saber.

Se em democracia um governo existe porque a maior parte de um eleitorado assim o decidiu, as grosserias governativas desse governo serão o reflexo das grosserias do eleitorado que o elegeu.

Desta forma, não aceitar o governo que foi eleito por uma maioria, é não aceitar o jogo democrático, por conseguinte um acto antidemocrático.

Pela boca de Sócrates, Platão opunha-se à democracia que era praticada em Atenas durante a sua época, chegando a dizer, que ela não era mais legítima que um tirano.

Platão não tinha razão, pois a sua recusa baseava-se no resultado obtido e não no acto em si, esse sim o causador de tais resultados.

Tal como então, hoje, a boa prática democrática depende essencialmente de quem a pratica e não de quaisquer forças que lhe sejam estranhas e opositoras.

Uma democracia, cujo eleitorado não é instruído e esclarecido, é uma democracia viciada à partida, onde a campanha eleitoral dos candidatos não passa de um mero acto de sedução.

Instaurar uma democracia sem ter um eleitorado minimamente competente, pode, e já acontece, eleger-se não o melhor, mas até, o pior para os interesses do povo.

Já em 1924, a Maçonaria tinha a consciência da necessidade urgente de educar e esclarecer o povo, afim de não ser manipulado pelas forças que se opunham à sua liberdade conforme o transcrito por António Lopes no seu livro A Maçonaria Portuguesa e os Açores 1792 – 1935:

“posta, porém, de parte a ditadura política, temos de nos precaver contra a ditadura económica e a ditadura financeira, que não são menos prejudiciais nem menos funestas de egoísmo brutal. O homem é para o homem um lobo. (…) Atropelam-se os indivíduos, devorados pela ambição e pelo dinheiro. É indispensável que a nova sociedade se torne pacífica, fraterna e humana, transformando a luta de classes em união de classes e convertendo a desconfiança, que gera a suspeição e a calúnia, em confiança e concórdia (…). E a propósito do papel da Maçonaria portuguesa nessa época, ele deveria ser (…) contribuir para o ressurgimento moral da nossa sociedade, por todos os meios ao seu alcance – pela conferência, pelo livro, pelo jornal; procurar evitar a infiltração reaccionária, qualquer que seja o aspecto de que se revista; concorrer para a reforma dos costumes e proclamar, como Michelet, que há três partes na política de um povo: a 1ª educar; a 2ª educar; e a 3ª educar (…)

Só a educação pode imbuir um povo das condições necessárias para julgar os candidatos; a capacidade de distinguir entre a campanha e a sedução, o discernimento para ajuizar da oferta.

Contudo, nem a falta de educação do eleitorado, nem qualquer outra que seja, poderá ser o justificativo de não aceitar o resultado democrático. Embora no meu ponto de vista, a Democracia termine na consumação do acto eleitoral, esse acto é que faz a diferença entre a consciência da liberdade soberana e a liberdade anarquia.

A educação deverá ser a primeira prioridade de qualquer governo, especialmente onde os níveis de analfabetismo são mais elevados. Enquanto o eleitorado não for evoluído, a Democracia não passará de uma esperança para uns e o modo de legalizar aquilo que mais funesto é para o povo, para outros.

9 Comments:

Blogger Diogo said...

O problema, caro Augusto, é que quem fornece a «educação» e a «informação» são os mesmos que controlam os políticos. Ainda é a «caixa mágica» que controla a maior parte das opiniões. Ora essa caixa tem dono. Donde, a «democracia» tem dono.

10:02 da tarde  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Augusto,
Concordo inteiramente que a educação é que pode fazer com que as democracias possam ser melhores e mais válidas, por terem pessoas mais cultas a decidi-las. No entanto penso que não é com a política de educação deste governo que estamos a caminhar nesse sentido. Mas para além desta questão, há outra não menos importante, é que nas nossas democracias, nós só praticamente lhe conhecemos o rosto principal, ignorando completamente no acto de votar todas as outras individualidades que estão por trás desse mesmo rosto.
Abraço.

11:12 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Mais uma excelente abordagem com a qual sou obrigado a concordar. Julgo que a abstenção que aumenta a olhos vistos ou pura e simplesmente o desinteresse de grande parte do eleitorado (mais de 40%) se escusar a participar nos actos eleitorais é o sintoma de que o país só pode ser governado pelas duas principais forças políticas o que me parece um grave erro. O eleitorado abstencionista se votasse proporcionaria o aumento da representatividade dos chamados pequenos partidos e tal obrigaria a coligações governamentais e nunca, porque não convém, existirem maiorias absolutas que são autênticas ditaduras parlamentares. A desculpa dos abstencionistas de que não é com o seu voto que proporcionam governos não colhe porquanto têm de aceitar democraticamente a escolha que é feita por aqueles que jamais abdicam do cumprimento desse dever cívico. E mais. Há quem afirme de que o nosso quadro político não lhes merece qualquer crédito. Pois muito bem venham novas forças políticas ou organizações cívicas para disputar o poder, em vez de resolverem não votarem, pois a solução não passa por aí, até porque ás actuais forças políticas convém-lhes continuar a eleger os seus candidatos constantes da suas listas independentemente da percentagem de votos ser alta ou baixa.
Um abraço
Raul

7:35 da tarde  
Blogger atp said...

Excelente abordagem,concordo inteiramente.
Muito forte! O esquecimento não devia de fazer parte de nós.
Gosto tanto de ler as suas palavras. Inteligente e brilhante. Faculdade mental acima da média.
Gostaria imenso que lesse o meu último texto e desse a sua opinião.
A sua opinião é fundamental para mim.
Por quê?
Tenho-o como um homem inteligente e capaz de dar a sua opinião imparcial.
Abraço

2:01 da tarde  
Blogger **Je Vois la Vie en Vert ** said...

Agradeço o teu comentário sobre o meu post mas discordo contigo. Deixei a minha opinião em baixo do teu comentário sobre o voluntariado.
Quem é voluntario com convicção nem lhe passa pela cabeça se descartar da sua responsabilidade.
Beijinhos verdinhos

2:49 da tarde  
Blogger **Je Vois la Vie en Vert ** said...

Augusto,
Já percebi o que querias dizer....
A responsabilidade do Estado, já é outro assunto....
Mas vou continuar a ver a vida em verde porque é assim que consigo enfrentar as dificulades que a vida deixa no meu caminho, como nestes últimos dias, por exemplo.
Beijinhos verdinhos

8:33 da manhã  
Blogger Peter said...

Parabéns meu Caro Augusto pelo escelente artigo que escreveste sobre Democracia e do qual destaco o último período.

Abraço

10:24 da tarde  
Blogger Carlos Barros said...

Ler um comentário como o que me fizeste... deixa-me como imaginas "babado" ainda para mais vindo de quem vem. fico contente por teres gostado. ... em breve vamo-nos encontrar por certo.

Abraço

9:37 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

o re.prazer do re.encontro tb foi meu.


por razões muitas.


_________________.


e da "educação" muito e tanto por fazer...

________________abraço.

4:40 da tarde  

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