sexta-feira, abril 04, 2008


Publicar ou não este texto, foi durante algum tempo uma questão para mim, mas como da indecisão não reza a história…
Eu sei que sou uma pessoa de opiniões marginais, que muitas vezes não agradam a quem me escuta. Paciência.
Há dias vi um programa na TV sobre a guerra “colonial”, que procurava perceber a causa da actual proliferação de tanta literatura sobre o assunto.
A guerra “colonial” com todas as outras guerras maiores ou menores, mundiais ou regionais, não passam do único processo que o homem tem de resolver os seus diferendos. Selvagem, aquém a evolução ainda não consegui sublimar os instintos predatórios primários, o homem encara e sempre encarou, a guerra como uma das suas principais atribuições, no seu mundo dito “civilizado”. Tal acontece, por desprezar a existência do seu semelhante, que elimina, sem pestanejar, sempre que acha necessário. Este acto de eliminação não é incriminado por nenhum código penal, pois o fazer a guerra, é ter autorização para matar impunemente e, não me venham com essa treta das regras da guerra, nela vale tudo de acordo com as necessidades. Protegida pelo “código de honra da guerra”, a barbárie indiscriminada é de todas as bandeiras e, a perversidade aceite como táctica. Numa guerra nunca há um lado bom ou um lado mau, só há um lado sem qualquer qualificação, onde sem nó nem piedade se soltam os cavaleiros do Apocalipse. Maldita condição humana; A GUERRA.
De tudo o que ouvi, das causas da presente literatura dedicada ao conflito africano, chamemos as coisas pelo seu nome, nada de alcunhas de circunstância, não me ficaram mais do que subjectivas interpretações, produto da factualidade da vivência, por isso limitada, destes novos salvadores da honra nacional. A literatura não abundou anteriormente, por que nós por cá, interpretámos a guerra africana, não como um conflito para onde as forças das circunstâncias nos tinham atirado, mas de como, algumas “mentes brilhantes”, complexadas e comprometidas, defendiam, um acto criminoso, efectuado por criminosos, a mando de criminosos.
Como é que uma pessoa, cuja acção é considerada criminosa, pode falar dela? Como é que uma pessoa, por contar uma história de sangue, suor e lágrimas, a sua própria história, é considerada criminosa?
Hoje, com o declínio dos opiner maker da desgraça, que só viam na guerra africana, nada mais do que um chorrilho de massacres praticados pelos intervenientes portugueses, as pessoas começam a contar as suas vivências e com elas formar a história dessa guerra, não abjecta como muitos nos querem fazer crer, mas de uma inevitabilidade factual, que levou milhares e milhares de jovens, abnegadamente, a defender a Pátria. Relembrar os que voltaram e nunca esquecer os que lá ficaram, é mais que uma obrigação, é um dever.
Falar mal da nossa gesta africana é pôr toda a nossa história em causa. O D. Afonso Henriques, que recusou ser vassalo e foi matador de mouros, os nossos grandes navegadores, desde o Bojador até à Índia dos marajás, Calecut e a malta do Malabar, os que desembarcaram na Taprobana, os intrépidos da China dos mandarins e do Japão dos samurais, os almirantes do Índico, os mercadores das especiarias, os que nos apresentaram ao Mundo, os que se afogaram, os que foram mortos pela espada, os que apodreceram com escorbuto, os que mirraram nas prisões, os que ninguém conheceu e não fala deles, os que naqueles tempos, defenderam os de hoje, quem sabe até, se na fúria doentia de tudo querer deitar borda fora, queiram considerar o Condestável um general criminoso, por ter feito o castelhano cair na armadilha e depois foi um matar que fartou. Eu, só choro Alcácer Quibir e agradeço a Camões, por mim e pela Pátria.
Nós não passamos daquilo que somos, uns mesquinhos que, para ganhar notoriedade, passamos a vida a dizer mal de nós próprios.


11 Comments:

Blogger perplexo said...

Felizmente que já se fala desse acontecimento doloroso. É preciso para a nossa saúde mental social.

Destaco, do teu texto sobre a guerra em geral, esta pepita de concisão e vastidão de implicações: «a perversidade aceite como táctica».

Abraço

11:28 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

"Nós não passamos daquilo que somos, uns mesquinhos que, para ganhar notoriedade, passamos a vida a dizer mal de nós próprios."

.


Tu és muito mais.


mesmo quando "passas" descalço...

:) e deixas pégadas de lâ.

beijo.


_______________

2:48 da tarde  
Blogger Leonor said...

ola augusto
de tudo o que li nao consegui ver onde a tua ideia ou opiniao é marginal. penso que é o que pensamos todos de perfeito juizo, modestia áparte.
beijinhos

8:43 da tarde  
Blogger Diogo said...

Caro Augusto, discordo.

Nos últimos 300 anos, pelo menos, as guerras são ditadas por pessoal que quer ganhar dinheiro e que nunca lá meteriam o cu.

Nas nossas guerras coloniais, vale perguntar quem treinou e armou a UPA e o FNLA? E o MPLA e a UNITA? As metralhadoras, os morteiros e as granadas não nascem em embondeiros. São cedidas por criminosos que ganharam a guerra. Quem sofreu? Africanos e portugueses.

10:24 da tarde  
Blogger Ashera said...

Pois...
Com que moral podemos condenar os EUA e outros?...

Agora a guerra é outra:
TGV , pontes, aeroportos e FOME muita fome... isto sim Isto é perverso!

Parabéns pelo texto (sabe bem ler-te)!
Beijos e mais beijos

3:07 da tarde  
Blogger adam brown said...

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7:50 da tarde  
Blogger Carlos Barros said...

Augusto... estou sempre a aprender...adoro passar por aqui.
deixo-te uma pequena formalidade...


A Editora Contra Margem e o autor convidam-no a estar presente no lançamento do livro
- Como matei o Ministro – do jornalista Carlos J. Barros. A obra vai ser apresentada por Paulino Coelho, no dia 12 de Abril (sábado) pelas 17 horas, na Lisbon AD School,Rua Dr. Nicolau de Bettencourt nº 45A, 1050 - 078 Lisboa. ( Frente ao centro de Arte Moderna – CAM – Gulbenkian)

Abraço

12:23 da manhã  
Blogger **Je Vois la Vie en Vert ** said...

É verdade que o povo português gosta muito de se criticar ou de se queixar de tudo e mais alguma coisa mas mesmo assim sou muito orgulhosa por ter adoptado a nacionalidade portuguesa porque AMO Portugal e os portugueses !

Não me levas a mal se deixo este aviso ? É para uma venda de caridade :
Se for de Lisboa, vá visitar ( e comprar se puder - preços simbólicos de +/- €10) a exposição de pintura da Manuela Seixas que faleceu deixando 2 filhos que precisam de ajuda. No Teatro Lanterna Mágica em Monsanto dias 12 e 13 de Abril das 15h às 20h. Contacto : 962862554

Beijinhos verdinhos

5:57 da tarde  
Blogger AJB - martelo said...

o que de melhor me ficou foi o apontamento sobre os "esquecidos" os tais que na maior dos casos são o complemento da envolvência...são normalmente humildes , fracos na natureza, mas os melhores de uma sociedade; a guerra nunca terá justificação ética nem sequer autorização inteligente...e quem já participou por obrigação reconhece melhor .

10:14 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Mais uma vez inteiramente de acordo com a tua visão e à medida que ia lendo o post pensei ainda vai aparecer alguém a intitular o Augusto de defensor do colonialismo.
Mas não. Apareceu o Diogo com a sua visão também correcta relativamente ao apoio que foi dado aos movimentos de libertação de Angola. Foram as potenciais que agora lá estão instaladas a explorar os recursos naturais duma forma a que nunca se assistiu, dando apoio os senhores instalados no poder que estão a enriquecer a olhos vistos e o povo a viver miseravelmente. Mas o Mundo pouco se incomoda com isso o importante foi que se livraram do jugo colonial português embora desde a sua ascensão à independência, viva a maioria da sua população francamente pior que quando estavam a ser colonizados.
Um abraço
Raul

11:01 da tarde  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Augusto,
O homem quer ser racional, mas no fundo ao fomentar a guerra é tão irracional como qualquer outro ser que habita o planeta. Se pensarmos bem não há na história da humanidade um único dia em que em qualquer parte deste globo não estivesse a haver guerra. E como quem vai à guerra dá e leva, acabamos por sofrer todos de uma forma ou de outra.
Abraço.

10:45 da tarde  

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