domingo, outubro 21, 2007

Flashes americanos (II)

Os ícons

A primeira grande febre económica que os Estados Unidos conheceram foi a dos caminhos-de-ferro. O negócio era de tal maneira lucrativo, que levou as companhias a trabalharem nos mesmos percursos, instalando vias ao lado de outras. Com o comboio começou a grande colonização do Oeste, empurrando a Fronteira de Turner até ao Pacífico. Foi a época dos grandes rancheiros, dos grandes agricultores e dos prospectores de riquezas naturais, mas também foi a época do grande genocídio dos Índios, que em pouco tempo se viram desapossados dos seus territórios e, os que sobreviveram, enjaulados em paupérrimos e diminutos territórios demarcados, com um estatuto parecido aos de prisioneiros de guerra, isto é, sem quais direitos. A estes, os verdadeiros americanos, nunca chegou qualquer tipo de Constituição.
É nesta época que também rebenta o primeiro grande caso de fraude à americana.
A “O Union Pacific” acabava de unir os Estados Unidos de costa a costa, quando a companhia deu sinais de penúria, prelúdio de uma próxima bancarrota. Em contrapartida, uma outra sociedade, recentemente criada para construir a via-férrea em questão, o Crédito Mobiliário, tinha lucros fabulosos pagando dividendos aos accionistas de 248%. Segundo Jean Canu, “adivinha-se a associação fraudulenta que os promotores comuns das duas empresas haviam organizado entre si, de maneira a açambarcarem os lucros e fazerem o público suportar os encargos. Para cobrir com a sua autoridade este gigantesco ardil, ministros, senadores, representantes e até o vice-presidente Colfax, receberam a sua quota-parte de acções e benefícios.”
Apesar de todas as vicissitudes, o comboio foi o motor do desenvolvimento da economia americana, permitindo o escoamento dos produtos do interior.
Um dia em Agosto de 1859, em Titusville, o petróleo apareceu pela primeira vez à luz do dia e, pouco tempo foi preciso para passar do simples uso na iluminação, para o produto mais procurado. Com o petróleo nasce um dos ícones da América, John D. Rockefeller.
De origem muito modesta, filho de um vendedor ambulante de mesinhas milagrosas, aos vinte e seis anos de idade, depois de passar por diversos negócios menores, toma conhecimento do ouro negro e das suas potencialidades. Ambicioso, voraz, sem escrúpulos, tem um objectivo, controlar todo o negócio petrolífero e, assim evitar as superproduções para poder manter o preço. “Meticulosamente”, começa a construir uma empresa que sujeitava todos os industriais do petróleo, quer extractores quer refinadores, ao seu poder e, em 1870 Rockefeller lança as bases do seu império ao fundar a Standard Oil Company que passará a controlar a maior parte das refinarias norte americanas. Para os seus negócios se expandirem de estado em estado, teve de conseguir ultrapassar a lei que proibia os homens de negócios de exercerem a sua actividade fora do estado onde residiam. Assim nasceu o famigerado trust. A sua fortuna, pouco antes da Primeira Guerra Mundial cifrava-se em 900 milhões de dólares.
Falar de aço, é falar de Andrew Carnegie. Filho de um pobre emigrante escocês, aos 12 anos já trabalhava numa fábrica com o salário de 1,20 dólares por semana. Em seguida foi distribuidor de telegramas, chegando a telegrafista, entrou depois numa companhia ferroviária. Em 1859, com 24 anos, era nomeado chefe de secção na Pensylvania Rail. Depois, como acontecia na América, conseguiu fundar a sua própria companhia a Carnegie Steel Cy, que em poucos anos conseguiu o predomínio sobre as outras companhias do ramo. Carnegie tinha tanto de gentleman na vida privada, como dureza nos negócios. Os caricaturistas gostavam de o representar como uma aranha no meio da sua teia imensa. Em questões de dinheiro, os escrúpulos nunca o embaraçaram. 1900 marcou o princípio de uma verdadeira guerra, “a guerra do aço”. Algumas firmas, apesar de antigos clientes, deixaram de súbito de lhe comprara o aço e, numa tentativa de fugirem ao seu monopólio, fabricarem elas próprias o seu aço. A resposta de Carnegie foi rápida e brutal. Construção de fábricas destinadas a concorrer com os dissidentes até estes falirem. Ou lhe vendiam os negócios, ou ele os inviabilizava pela via da concorrência desleal.
Contar dólares sem falar de John Pierpont Morgan, não faz sentido. Não gostava de Carnegie nem de Rockefeller. Não podia gostar de homens tão ou mais poderosos do que ele. Queria ser um príncipe do Renascimento, o Lourenço-o-Magnífico, do século XX. Morgan prodigalizava os dólares de tal maneira, que ninguém duvidava de que ele governava os Estados Unidos. Com um nariz vermelho e inchado por afecção dermatológica incurável, olhar intenso e frio, era astucioso, desconfiado, hábil, impaciente e muito rápido nas decisões que nem sempre contemplavam os escrúpulos. A guerra ofereceu-lhe a oportunidade de ensaiar alguns negócios não muito escrupulosos, mas muito lucrativos; em seguida, começou a vender na Europa obrigações de Estado americanas. Os seus rendimentos cedo adquiriram um montante espantoso. Entra no negócio do aço e dos caminhos-de-ferro. Tornou-se senhor de um poderoso império ferroviário e inimigo terrível da livre concorrência, um especialista em monopólios. A sua influência em Wall Street era enorme, Wall Street tremia diante dele.
Em 1895, Morgan teve a oportunidade de reforçar a sua ingerência no Governo dos Estados Unidos, quando este se encontrava a braços com graves dificuldades financeiras: saneou as finanças da União venceu a crise e elegeu-se rei. Mais tarde, em 1907, nova crise fez Wall Street tremer. De um dia para o outro, os grandes bancos encontrava-se à beira da falência e, milhões de clientes viam as suas economias ameaçadas. Chamou os banqueiros e impôs-lhes uma mobilização de capitais para apoiar as firmas em perigo, salvou a bolsa do pânico dando o exemplo comprando uma grande empresa em situação muito delicada. Trabalhando de dia e de noite, convencendo, ameaçando ou chantageando, saiu vitorioso e a América suspirou de alívio. O seu estatuto de nobreza estava assegurado. Vivia num fausto de meter inveja aos príncipes. De livro de cheques na mão percorria a Europa e, os Rubens, Rembrandts, Velásquez e todas as outras preciosidades da arte europeia, começaram atravessar o Atlântico.
Quando morreu em 1913, ao abrirem o testamento podia-se ler. “Deponho a minha alma nas mãos do Senhor, na plena convicção de que, após a ter purificado no Seu precioso sangue, Ele a apresentará isenta de qualquer mácula ao Pai Celeste. E dou por missão aos meus filhos, ainda que isso lhes possa custar alguns sacrifícios, a perpetuação e a defesa da santa doutrina do perdão das faltas pelo sangue de Jesus Cristo”.
Na mesma prateleira podem ser colocados muitos outros personagens americanos, que inspiraram as gerações futuras, quando estas passaram a trocar o doméstico sonho americano, pelo sonho de senhores do Mundo.
Para efectuar este trabalho, recorri aos meus apontamentos sobre a História dos Estados Unidos, compilados quando do estudo da mesma, extraídos de diversos compêndios de História.

13 Comments:

Blogger Kalinka said...

Amigo Augusto

Lindamente continuas com os teus flashes americanos.

Enviei-te um e-mail, aguardo uma resposta, quando for possível.

Bom início de semana.
Para mim a última antes do início de longas férias...bem que preciso delas, de descansar...
Beijitos.

8:10 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Parabéns por esta excelente pesquisa que serve sobretudo para elucidar os pró-americanos que são efectivamente um povo cheio de "virtudes". Exterminaram os índios para se apoderarem da suas terras. Entraram na sua exploração desenfreada. À medida que se foram apercebendo que as jazidas de petróleo que exploravam no seu território se esgotaram passaram a provocar nos países produtores de petróleo a sua desestabilização e instalarem as suas companhias prospectando e explorando o seu petróleo, tendo para isso no caso das ex-colónias portuguesas apoiado
os movimentos de libertação. Por todas essas virtudes eu sou o mais pró-americano possível. Com um abraço do Raul

1:15 da tarde  
Blogger Diogo said...

ROTHSCHILD FORTUNE BUILT ROCKEFELLERS, MORGANS, ETC

We'll allow the quotes of others to better illustrate how the Rothschild fortune helped other elite families rise to power…

"Someone was needed as a cover (for the Rothschild family). Who better than J. Pierpont Morgan, a solid, Protestant exemplar of capitalism able to trace his family back to pre-Revolutionary times?" - George Wheeler

"Working through the Wall Street firms of Kuhn, Loeb & Co., and J. P. Morgan Co., the Rothschilds financed John D. Rockefeller so that he could create the Standard Oil empire. They also financed the activities of Edward Harriman [railroads] and Andrew Carnegie [steel]." - William T. Still

"Even though they had a registered agent in the United States ... it was extremely advantageous to them to have an American representative who was not known as a Rothschild agent. (The Rothschilds) preferred to operate anonymously in the United States behind the facade of J. P. Morgan and Company." - Eustace Mullins

9:22 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Belo trabalho, sem sombra de duvidas, querido amigo Augusto... como sempre tratas com primor os mais diversos temas os quais discorres com uma fluencia invejavel...
Sabes? "americanos" nao, pois americanos somos todos nos, os que aqui estao deveriam ser chamados estadunidenses, ja que trata-los de igual para igual aos demais "americanos" seria uma ofensa, acredite! Afinal, como dizes sobre Rockfeller, "Ambicioso, voraz, sem escrúpulos" eh uma norma geral por estes mundos de ca, onde o que vale eh que ganha na competicao de querer ser melhor (melhor?) que os outros...
Bueno, mas nao vou aqui estar jogando muitas pedras, afinal seria "cuspir no prato em que comi" nos ultimos anos, mas que desejo igualar-me, ah! isso nao! :o)
Beijos, flores e muitos sorrisos para uma semana bem feliz para ti, querido amigo!

7:23 da manhã  
Blogger Peter said...

Tudo "boa gente". E em muito menor escala, se formos ver os "portuga" ...

4:52 da tarde  
Blogger Sophiamar said...

Passarei para ler e comentar . Agora deixo-te só um abraço e um beijinho.

6:45 da tarde  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Augusto,
Casos de fraude à americana começaram bem cedo na história, e ao que parece ganharam-lhe o gosto, e por isso mesmo ainda hoje continuam na ordem do dia.
Abraço.

10:38 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

um abraço. "ícone" de uma blogomulticultural...:) onde sábia e pacientemente vais esculpindo informação.

___________________________.
obrigada.


sempre.

5:29 da tarde  
Blogger Passaro Azul said...

Meu Amigo,
está aborrecido comigo? Eu só não fui ao lançamento do seu livro,porque não pude mesmo.
Desde essa altura, nunca mais visitou o meu cantinho. Acredito que seja só por falta de tempo.
Eu, noutros comentários, já expliquei o que me aconteceu nessa altura.
Fico aguardando e sobretudo respeitando a sua vontade.
O meu abraço com a amizade de sempre que muito prezo.

8:04 da tarde  
Blogger perplexo said...

«Tudo bons rapazes»!

10:16 da tarde  
Blogger Cusco said...

Olá! Um texto no qual me parece ouvir os tiros e os gritos dos “ có-bois”, os cavalos, os saloons etç, etç!
Um abraço!

12:10 da tarde  
Blogger Ashera said...

Excelente trabalho, parabéns
O que me angustia profundamente foi o que se passou com os indios e os bufalos :-(
Depois, não existem Americanos, o povo é Europeu Asiatico Africano etc.
Bem, fico por aqui, porque muito teria para dizer e por certo poucos gostariam de saber o que penso a respeito dessa gente, que ultimamente escurraça os Portugues, em especial os dos Açores!
Bom fim de semana
Beijos e mais beijos

8:44 da tarde  
Blogger martelo said...

se há coisa que muito admiro é a grande capacidade que alguns humanos têm deconseguir fortunas, ainda que há custa da aldrabice...é pena que tudo cá fique transformando a azáfama laboriosa em vão...
um abraço

7:35 da tarde  

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