sábado, setembro 01, 2007

Bandeiras de oração

Naquele dia, Frederico chegou atrasado ao refeitório e, na mesa onde usualmente almoçava com outros colegas de curso, seus amigos, o lugar que ocupava por direito da habituação, estava ocupado por outro estudante. Desapontado com a perca da companhia, não teve outra solução se não procurar outro local para comer.
A contrariedade de não poder conversar com os colegas, deixou-o irritado, acusando de incompetente a funcionária da secretaria, por não ter sido mais diligente no atendimento. Se havia coisas de que gostava, conversar no refeitório durante o almoço era uma delas, havia sempre um assunto qualquer em discussão e, argumentar, mesmo utilizando falsas premissas, era para ele quase um desporto, onde exercitava toda a sua capacidade de argumentação. Quando todos diziam que ferro era ferro e ele contrapunha que era madeira.
Não tinha outra alternativa, ou comia de pé, ou teria de partilhar outra mesa com desconhecidos. De bandeja na mão, deambulou por entra as mesas, mas a hora por ser de ponta, não estava fácil encontrar um lugar, outros retardatários também se candidatavam às vagas que iam ocorrendo. Após alguns insucessos, por ser menos rápido, ou estar em posição mais desvantajosa, em relação ao acontecer de alguma vaga, um lugar vagou mesmo ao pé de si.
Sentou-se sem que os restantes ocupantes dessem por ele, a discussão que estava instalada não permitia desatenções, pois as argumentações, pelo empolgamento, saltavam na mesa, como se de uma bola de ping pong se tratasse.
A curiosidade fê-lo apurar o ouvido e, como o tema em debate lhe era particularmente afecto, mentalmente entrou também na conversa, ajuizando as argumentações, concordando ou discordando com elas. Na sua opinião muita asneira estava a ser dita, percebia-se que falavam de um assunto onde não eram muito entendidos e que as afirmações eram mais provenientes do empírico do momento do que fundamentadas no conhecimento. Só um deles parecia ter alguns conhecimentos, mas como não era o mais habilidoso na dialéctica, a sua argumentação, mesmo quando certa, perdia-se nas imprecisões dos outros.
A vontade de interferir na conversa era muita, mas o receio de não ser bem aceite, inibia-o de fazer qualquer comentário, quanto mais tomar algum partido.
Já tinha acabado de comer o tradicional empadão de carne, depois de ter experimentar a sopa, que rejeitara e, protelava o descascar do pêro para prolongar a estadia na mesa, movido pela vontade de ouvir até que ponto, as “barbaridades” que eram ditas, podiam chegar, quando as posições dos três conversadores, se radicaram num impasse, cada um com a sua. Três hipóteses para a localidade do nascimento de Buda. Um defendia a Índia, o que deveria argumentar baseado em postais ilustrados, outro, partidário do Tibete, pareceu-lhe que via muitos programas televisivos e o terceiro, o que demonstrava ter mais conhecimentos consistentes, sem grande convicção, defendia o Nepal. Como o consenso não surgia e para que a dúvida não subsistisse, inconscientemente, em voz alta, manifestou a sua opinião:
- Nepal!
Não dando tempo a contraditório, ou qualquer protesto à sua intervenção, justificou a sua opinião, não perdendo a oportunidade de contestar muitas das afirmações que ouvira.
Estupefactos pela intervenção do estranho, dois deles limitaram-se a ouvir o que ele dizia, até que, achando que a lição já chegava, levantaram-se e fora-se embora. O terceiro de nome Salvador, também nada dizia, não pelo desagrado da intervenção, mas pelo fascínio do que ela dizia. Timidamente começou a arriscar algumas questões, que prontamente eram elucidadas pelo Frederico e, o monólogo inicial, acabou numa interessante conversa, que esqueceu o tempo, só lembrado quando uma empregada os convidou a sair porque queria fechar o refeitório.
A saída do refeitório, foi a entrada para uma amizade, que a empatia se encarregou de fortalecer. De gostos e interesses semelhantes, a espiritualidade e o prazer das viagens, era o que os mais uniam. Todos os anos, durante as férias, passaram a fazer grandes viagens juntos
Muito interessados no budismo, passavam longas horas falando sobre a doutrina de Sidarta e de como deveria ser o comportamento humano, face a tão importantes ensinamentos. A veneração pelo grande mestre era tão grande, que a ideia de visitar a sua terra natal, tornou-se num desejo incontornável, mas o Frederico todos os anos, quando chegava a altura de escolher o itinerário, arranjava sempre argumentação para a opção ser outra, ficando o desejo de Salvador adiado, que insistia:
- Temos de ser um pouco como os muçulmanos pá, que pelo menos uma vez na vida vão a Meca. É a sua convicção religiosa que os leva lá. Também deve ser nosso dever, pelo menos uma vez irmos ao Nepal, visitar o lugar onde nasceu Sidarta. Gostava muito de contactar com as pessoas, saber como vivem com a doutrina dele, tentar perceber tudo aquilo que a nós ocidentais nos escapa. Não acredito que as imagens de miséria que nos chegam reflictam toda a vida deles, tem de haver algo mais, que só lá pode ser descoberto. Tem de ser para o ano, concordas?
A um ano de distância, concordar era irrelevante e, Frederico alimentava a pretensão sempre com um sim.
Após tantas esperanças goradas, um dia, o sim colocou-os no avião que fazia a ligação entre Dili e Kathmandu. Jeans, camisa tipo safari, chapéu à moda de Indiana Jones, blusão tipo aviador, um lenço ao pescoço e botas cardadas, era a indumentária escolhida como a mais apropriada para a grande aventura. A bagagem era uma mochila cheia de mudas de roupa e artigos de higiene. A máquina fotográfica era o único adereço. Frederico nunca lhe disse nada, mas achava um pouco ridículo o lenço que Salvador usava. Grande e exuberante nas cores, era a imagem da sua maneira de ser, divertido, empenhado, generoso e um grande coração.
A estadia no Nepal foi aproveitada ao segundo e o território explorado palmo a palmo. Uma ânsia de conhecer, guiava-lhes os passos e, tudo o que os olhos viam, era digerido com apetite voraz, seguido do êxtase dos sentidos. O etéreo trespassou-lhes o espírito e, uma sensação de pertencerem aquele lugar, impregnava-os de uma religiosidade, onde o sentido da existência se encontrava circunscrito ao convívio com aquele povo para quem a maior riqueza, era o sorriso e a cordialidade. Atraídos pelo íman da felicidade, chegaram a até equacionar não regressar, se tal não aconteceu foi mais pelo discernimento do Frederico, porque a vontade do Salvador estava rendida.
Travaram conhecimento com um estudante, que a troco das refeições, servia de guia e intérprete. Uma das coisas que mais acharam pitorescas eram as inúmeras bandeiras, de diversas cores, que existiam por toda a parte, que presas em extensas cordas, rodopiavam freneticamente, apanhadas pelo vento forte que as montanhas sopravam.
- São bandeiras de oração. – Explicou o guia. – São postas para homenagear alguém que morreu e pedirem a sua ajuda nesta vida. Também nelas é costume escreverem-se sutras.
- E aqueles montes de pedra que também encontramos por todo o lado? – perguntou Salvador.
- Também como as bandeiras, são orações aos mortos, uma forma de comunicarem com eles. – Elucidou o guia.
No dia do regresso, choram a despedida com a firme promessa de voltarem. Deram tudo o que tinham, o dinheiro, as mochilas e as roupas, que dividiram pelas pessoas, inclusive os blusões de que tanto gostavam e tão caros tinham sido. Só as máquinas fotográficas tiveram direito ao regresso. De mãos nas algibeiras e, Salvador com o seu inseparável lenço ao pescoço, traziam só com eles a felicidade e a convicção de que a partilha das emoções só tinha estreitado ainda mais os laços afectivos entre eles.
Alguns meses mais tarde, Frederico, inesperadamente, recebe a notícia de que o amigo tinha morrido. Mais trágico, tinha-se suicidado. O choque foi tremendo, inconformado, procurava a razão, que justificasse o que a dor não compreendia. Ainda na véspera tinham estado juntos, como foi possível ter-lhe voltado as costas, sem contar o que lhe ia na alma, teria feito tudo por ele. Como é possível os amigos procederem assim? Parte para sempre sem ao menos se ter despedido ou deixado pelo menos uma carta, ele não merecia isso, não merecia tal procedimento, não merecia ter ficado órfão dessa tão grande amizade, era o que sentia, uma grande orfandade da afectividade do amigo. Que se teria passado com ele de tão grande motivação, que não pudesse partilhar com ele? Eram amigos não eram? Não compreendia porque essa amizade tinha sido tão brutalmente interrompida. Fosse o que fosse que se tivesse passado, a sua amizade era tão forte, que teria ultrapassado tudo. Chorava o amigo, a incompreensão e a impotência da ajuda.
Quando chegaram as férias, pegou na mochila, enfiou o chapéu na cabeça e partiu sozinho para o Nepal.
Calcorreou todos os caminhos que tinha percorrido com o amigo, visitou todos os lugares onde tinham estado, voltou a viver as sensações que tinham partilhado, mas a magia do etéreo teimava em o não preencher. Em tudo havia um vazio, em tudo a saudade se manifestava e a incompreensão um tormento.
Já perto do dia do regresso, ao passar junto das ruínas de um templo budista, a sua atenção foi motivada por uma fiada de bandeiras de oração. Ao princípio não percebeu a diferença, mas quando se aproximou, verificou que no meio das bandeiras coloridas, o inconfundível lenço do Salvador, esvoaçava ao vento.
Confuso, procurou na memória e, esta lembrou-lhe o regresso, onde o lenço de Salvador tinha sido alvo da curiosidade das hospedeiras. Transpirava com a lembrança e com a mão a tremer agarrou uma ponta do lenço para se certificar que era mesmo o do Salvador. Com o lenço seguro, a certeza paralisou-o, não conseguia pensar, só tremia. Então verificou que o lenço tinha uma inscrição. Com a outra mão segurou a outra ponta para poder ler o que estava escrito.

Desculpa não me ter despedido de ti, eu sabia que voltarias. Agora que me encontraste, nunca mais me separarei de ti…

As lágrimas escorriam-lhe em tal abundância pela face que não conseguiu voltar a ler. Abriu as mãos, soltou o lenço ao vento, respirou fundo e, a dor da saudade desvaneceu-se, para dar lugar a uma alegria, que só ele compreendia.
Procurou pedras e fez um monte perto das bandeiras. Na última pedra, depois de limpa, escreveu:

Onde quer que estejas, estarei sempre contigo, a minha amizade por ti, amigo, ultrapassa o temporal. Agora que te encontrei, posso regressar em paz.

19 Comments:

Blogger Dad said...

Belíssimo texto Augusto.

Um abraço,

9:00 da tarde  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Augusto,
Venho hoje aqui entregar-te o "Certificado Blog" por estares entre aqueles que comigo têm partilhado os melhores momentos virtuais. Depois se quiseres passa pelo ATORDOADAS para o receberes.
Abraço.

9:56 da tarde  
Blogger Sophiamar said...

Sê bem vindo, Augusto! Espero que as férias tenham sido excelentes. Quanto ao texto, belíssimo como sempre,prende o leitor, da primeira à última palavra.
Beijinhos

7:46 da manhã  
Blogger mcorreia said...

belíssimo testemunho de VIDA!

9:21 da manhã  
Blogger Dulce said...

Verdadeiro ou não, um texto belíssimo.
Abraços

12:12 da tarde  
Blogger Peter said...

Muito,muito interessante. É verídico, ou apenas um conto?
A minha pergunta não tem razão de ser, pois estive a ler os comentários.

Resta saber o porquê do suicídio.

A questão do "lenço" é dos inexplicáveis que eu aceito pela sua afinidade com a minha tentativa da compreensão quântica da realidade/irrealidade.

8:08 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Concordo inteiramente com o comentário da Dulce. Mas que outra coisa se podia esperar de quem tão bem se sabe expressar. Fico satisfeito por saber que as tuas férias correram bem. Um abraço do Raul

9:25 da tarde  
Blogger impressaodigital said...

Este comentário foi removido pelo autor.

10:08 da tarde  
Blogger blackangel said...

olá Augusto
um texto formidável. bonita a ideia das bandeiras.
concordo plenamente com o comentário anterior. coisas de blogaranhas...

10:14 da tarde  
Blogger blackangel said...

poucos comentários para o costumeiro desfile de comentadores.
será que se assustaram com o tema, ou com a extensão do mesmo.
textos longos são uma "chatice" para aqueles que dia a dia calcorreiam quilómetros de blogues para receberem um comentário em troca. isso é que é importante...
lindo texto. beijos
lindo poema do Eugénio. obrigado pela partilha e assim. o mais certo é não lerem, isso porque ainda faltam uns cincoenta "quilómetros" a percorrer.
há que poupar as palavras. epá porreiro tenho trinta comentários. epá! porreiro mesmo ;)
ou...ou...talvez quando vêm o meu nick se assustam, não se atrevendo a responder após.
ahahahahah!!!
fecho da thread...

1:42 da tarde  
Blogger blackangel said...

actualmente visito um blogue de duas em duas semanas. nem tenho tempo para mais...
e já vai em doze comentários, Augusto :)
o seu blogue é um blogaranhão.
sópara quem lê...

1:47 da tarde  
Blogger André said...

Um post intenso, poderoso, escrita irrepreensível.
Não posso deixar passar em branco o comentário do blackangel.
Ele/ela/eles tem razão, de facto os comentários medem-se a metro.
Concordo com ele quando pensa que alguns não respondem nem no blog dele/dela/deles porque receiam ficarem mal vistoa perante os seus "pares"
Chamam-se de blogaranhas cobardolas, assim recorrem ou ao anonimato ou à provocação.
Desculpe se sou um anónimo aqui, hoje, mas, de facto, não quero ser identificado.
Amei o texto, metáfora, por certo!

2:09 da tarde  
Blogger blackangel said...

desculpe queria dizer vêem ;)
quando me refiri a visitar um blogue de duas em duas semanas queria dizer: comentar.
comento normalmente num blogue de duas em duas semanas praí.
geralmente todas as noites dou uma volta pelos cinco ou seis meus favoritos.

abraço

3:43 da tarde  
Blogger Leonor said...

ola augusto.
a habituação do lugar, o receio de nao ser aceite...
conversar com as minhas colegas durante o almoço é das melhores coisas que eu tenho na vida.
acaso ou destino?
isto é,
ele perdeu o lugar para que? para encontrar uma amizade lindissima noutro lugar que existia mas que ela nao procurava.
beijinhos

7:51 da tarde  
Blogger impressaodigital said...

Este comentário foi removido pelo autor.

9:54 da tarde  
Blogger impressaodigital said...

Este comentário foi removido pelo autor.

12:52 da manhã  
Blogger Diogo said...

Bonita história Augusto.

Eu (ateu até à ponta dos cabelos) costumo dizer que todos sabemos perfeitamente o que é a morte. A morte foi aquele período de tempo anterior ao momento em que fomos concebidos. Durante a II Guerra Mundial eu estive morto. Durante todo o feudalismo eu estive morto. Desde o princípio dos tempos (no qual eu não acredito) até ao momento em que fui concebido, eu estive morto. A morte é (talvez) a única experiência que qualquer ser vivente já partilhou.

Um abraço

5:11 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

Onde quer que estejas, estarei sempre contigo, a minha amizade por ti, amigo, ultrapassa o temporal....
_______________


subscrevo-Te.


e apanho "boleia" de um comentador "Angel" que diz e diz mt bem muito do que sobre a net há para dizer.

abraço Augusto.


até um dia...por aí.

5:58 da tarde  
Blogger A Sonhadora said...

Olá Augusto...apareci, mas não andei a calcorrear kilómetros...rsrsrsrs...
Li, gostei e aqui estou, para deixar um olá, porque ás vezes isso é mais importante do que muita conversa...
Um abraço da sonhadora

6:49 da tarde  

Enviar um comentário

<< Home