domingo, setembro 16, 2007

O banho

O local escolhido para o picnic, nessa manhã de quinta-feira, foi a praia do Guincho. O grupo que ia confraternizar, constituído por três famílias amigas, pais e respectivos filhos, escolheram um lugar abrigado pelas dunas, onde aquele vento obstinado em encher a comida de areia, fosse o mais possível frustrado no seu intento.
A praia, devido ao cedo da chegada, estava deserta, hora completamente surrealista para os profissionais do escaldão.
O mar, apesar da maré baixa, tinha forte rebentação, o que aconselhava cuidados redobrados, não sendo aconselhável, qualquer tipo de banho com a água acima dos joelhos.
Valente era o nome do filho de um dos casais. Rapaz de dezassete anos, estatura média, de constituição física rasando a obesidade, em tudo que fazia, procurava evidenciar o porte físico, como de musculatura se tratasse, as banhas que lhe tremelicavam no corpo.
As corridas, o jogo da bola e a companhia do Sol, cada vez mais quente, acabaram por concorrer para um desejo irreprimível de refrescar o corpo.
Todo o grupo se dirigiu à borda de água. Uns molhando os pés na vigia das crianças mais novas, outros com as cautelas necessárias, com a água pelo meio das canelas, onde o fluxo das águas, projectadas pela rebentação das ondas, fazia sentir a sua força, bem como a do refluxo, que não queria passar despercebido. Cada um refrescava-se como podia, fazendo uma concha com as mãos, ia-se regando. A gritaria, provocada pelo arrepio causado pelo frio da água, completava o quadro daqueles banhistas felizes.
O Valente com sua peculiar exuberância, dava saltos a trás de saltos, com o intuito de salpicar tudo à sua volta, numa vontade sádica de ver todos molhados. Repreendido pelos pais, mais do que uma vez, após ligeiro intervalo, logo recomeçava a irritante brincadeira, para mal grado de alguns, que só não patenteavam ostensivamente o seu desagrado, por deferência aos pais.
A sua euforia era tal, que não reparou numa onda, que rebentando do lado de cá da rebentação, provocou um fluxo de água maior do que era habitual, cujo ímpeto, derrubou o Valente, obrigando-o a rebolar na areia alguns metros, o que teria sido, para os que tinha estado a molhar, um castigo merecido, caso o refluxo, também mais forte, não o tivesse puxado para dentro do mar e, desaparecido no turbilhão provocado pelo encontro do fluxo e refluxo das águas.
O primeiro grito foi o mãe, seguido pelo impulso irreflectido do Miguel, outro dos jovens do grupo, com mais um ano do que o Valente, em se atirar ao mar, na tentativa de socorre o amigo, mas que o pai ao aperceber-se das suas intenções agarrou-o.
O mar aos olhos de todos, sem saber, cresceu e as ondas tornaram-se aterradoras. Na praia o desespero tomou conta de todos. À aflição da mãe juntaram-se as outras, enquanto os homens sem saberem o que fazer ao certo, procuravam o socorro que não existia.
O pai do Valente que era militar, procurava manter a calma, mas acabou vencido, sentando-se no chão a chorar. Por mais que olhassem, do Valente nem sombra, só a espuma que cavalgava a cristas das ondas era visível e, o barulho da rebentação, desiludia qualquer esperança.
De repente alguém do grupo gritou:
- Está ali! Está ali! Olhem!
Do lado de fora da rebentação, o Valente, de braço no ar, acenava e a cabeça fora de água gritava. O vento soprou a esperança; estava vivo! O alívio trouxe o discernimento, e este mostrou que era impossível ultrapassar a rebentação para o ir buscar.

Então, um dos pais teve a ideia de ir a Cascais pedir ajuda a um barco, que por mar, o fosse resgatar e, partiu correndo para o automóvel, enquanto o os pais do Valente gritando, lhe tentavam dar ânimo infrutiferamente, pois o som da rebentação, que entrepunha entre eles, não permitia que as recomendações chegassem a ele.
Todo o grupo não tirava os olhos dele, na esperança de o não perder de vista, ele, possivelmente, consciente de que estava a ser visto, deixou de acenar, mantendo-se quieto átona de água, tirando partido da sua gordura, flutuava.
O pai com os braços tentava dar-lhe indicações para se afastar da zona de rebentação, nadando para fora. A esperança, a pouco e pouco tornou-se na certeza de que o salvamento era uma questão de tempo e, a preocupação de fixar o olhar nele, não os deixou aperceber de que não estavam parados mas a andar na praia para o poderem seguir.
A maré de vazia, estava tornar-se cheia e, uma corrente traiçoeira arrastava-o ao longo da costa, na direcção das rochas onde a praia findava. Conscientes de que a velocidade da corrente o ia atirar contra as rochas, antes da chegada de qualquer socorro por mar, o desespero voltou a tomar conta deles, e mãe desesperada, voltava a gritava por ele.
O grupo, impotente, assistia à tragédia que se avizinhava, quando sem darem por isso, alguém passou por eles correndo, só sendo notado, quando o viram mergulhar e nadar em direcção à rebentação. Entreolharam-se mas estavam todos presentes, o estranho não era nenhum deles.
Também ele desapareceu na rebentação, mas pouco depois voltou a aparecer, já do lado de fora, nadando ao encontro do Valente.
- Não se agarre a mim! – Gritou quando chegou ao pé dele. – Está bem?
- Estar bem, estou, só não sei é como conseguir vencer a rebentação para voltar, a corrente está muito forte.
- Pois está e, as rochas já estão perto. Tentos de tentar furá-la, ou vamos bater com os ossos nas pedras.
- Só não vejo como, com este mar.
- Vamos nadar até à rebentação, esperamos por uma onda grande e tentamos surfar nela. Se a apanharmos na altura certa ela empurra-nos para terra.
Nadaram para a rebentação e aguardaram a onda maior. Quando chegou a sétima, o desconhecido deu-lhe a mão e, com a outra tentaram nadar para acompanhar o correr da onda, o que conseguiram por uns segundos, para depois serem envolvidos no seu rebentar e, no turbilhão da espuma desaparecerem os dois.
A aflição não na praia reapareceu, mas por pouco tempo, pois fluxo da onda em direcção à praia, trazia os dois, rolando violentamente na areia do fundo, acabando por darem à costa.
O Valente que se encontrava de bruços na areia, não se mexia, atordoado pelo rodopio da água. Foi prontamente socorrido por todos. Levantaram-no, mas logo dobrou os joelhos e, começou a vomitar a água que bebera no rafting forçado. Combalido e meio tonto, fazia um esforço por se manter direito, o que foi conseguido, com duas estaladas que o pai lhe deu. Homem de mão pesada, o efeito foi não se fez esperar e o Valente já se queixava mais do tratamento do pai do que do mar.
A euforia do reencontro era grande, enquanto a mãe, olhando à sua volta, procurava o desconhecido para lhe agradecer. Mais ninguém além deles estava presente. Procuraram no areal, foram até às dunas, mas nada, a praia encontrava-se vazia como quando eles tinham chegado.

19 Comments:

Blogger Sophiamar said...

Um texto muito bem escrito à semelhança de todos os outros.Quem o começa a ler, devora-o num trago tal o interesse que nos consegues incutir na leitura. Senti a aflição dos pais e amigos, o desespero de todos durante aqueles minutos que pareceram horas e até nos esquecemos de saber que terá sido o nadador salvador tal o nosso desejo de ver o Valente são e salvo.
Beijinhos

10:32 da tarde  
Blogger Dad said...

Olá Augusto, bom dia!

Muito obrigada pelas tuas passagens pelos meus "sitios". Eu tenho andado desmotivada com os blogs. Quase me esqueço deles.

Gostei imenso deste texto de leituras várias, desde a mística à racional.

O Guincho é lindo mas não é de fiar.
A mim aconteceu-me já uma coisa parecida e não fora um amigo meu, tinha lá ficado...

Como sempre, gostei do teu estilo de contador de histórias.

Um beijinho,

11:19 da manhã  
Blogger Vladimir said...

História maravilhosa, transmitindo-mos uma ideia fulcral que nos deve acompanhar ao longo da vida: "temos sempre que acreditar que vamos conseguir".

2:04 da tarde  
Blogger Ant said...

Mas qual poeira qual carapuça... Há dias numa conferência do Maraji falava ele em anjos sem asas a propósito de algo assim do género...
Abraço

3:19 da tarde  
Blogger já deve existir said...

Uma história verdadeira, ou fixão? Está muito bem contada.

Gostei de andar aqui pelo seu blogue. Já tinha vindo antes, mas não comentei.
PARABÉNS!

4:32 da tarde  
Blogger Paulo Sempre said...

Um texto que nos obriga a chegar ao fim em "excesso de velocidade". A personagem «mistério» é uma daquelas que faz o "bem sem olhar a quem". Há no nosso imaginário muitas personagens assim; grandes pela sua coragem e ainda maiores pelo seu sentido de humanidade. O "imortal" Valente foi salvo por alguém com uma visão douta das manhas do mar e ao mesmo tempo desinteressado por "louros". O grande mérito é o facto do salvador dispensar as honrarias e o estatuto de héroi. Caso raro nos tempos que correm.
Na memória dos presentes ficara, por certo, uma "desassossego" eterno e uma pergunta por responder: Quem seria...?
Aos visitantes deste seu excelente blogue ficará, presumo, sempre uma reflexão que contribuirá para uma visão mais humanizada do próximo no quotidiano que nos alberga.
Abraço
Paulo

5:26 da tarde  
Blogger Cat People said...

Um texto muito bem escrito .
O Guincho é lindo mas não é de fiar, conheço muito bem aquele mar. Sou surfista.
A história é maravilhosa e está muito bem contada.
É um autêntico contador de histórias.
Vou passar a ser assíduo.
Vim aqui por "recomendação" de um amigo meu.
Boa noite!

9:15 da tarde  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Augusto,
Verdadeiramente cativante este teu conto, por ser tão real.
O que nos retratas aqui tem várias interpretações. A primeira é o retrato fiel de qualquer família bem portuguesa, e a sua forma de se divertirem em pleno durante um fim-de-semana. A segunda é a irritante mania dos gordos se exibirem, e mostrarem as "gorduras" como se de um monumento se tratasse. A terceira, é que na vida há sempre uma segunda oportunidade que nos pode ser dada por uma qualquer mão divina surgida sabe-se lá de onde...
Abraço.

11:10 da tarde  
Blogger perplexo said...

A leitura metafísica é a mais apetecível.
Abraço

2:12 da manhã  
Blogger mcorreia said...

milagres, Augusto...eles vão existindo, sim!

8:48 da tarde  
Blogger Diogo said...

Bom texto Augusto.

Quanto ao tema que estou a abordar – o Holocausto judeu durante a II Guerra – não fiques melindrado. Eu, como ser humano, quero e tenho o direito de saber a verdade. Não sou anti-semita. Nada tenho nada contra os judeus. Muitos foram utilizados como mão-de-obra escrava sob o império nazi e morreram por causa disso. Mas exijo a verdade. Não se subtraem dois milhões e meio de mortos assim, de uma penada, sem qualquer explicação. Existem demasiadas mentiras neste Holocausto. Vamos à verdade.

10:15 da tarde  
Blogger martelo said...

e foi assim que o Valente aprendeu a ter maneiras...
abç

10:57 da tarde  
Blogger Peter said...

Augusto

A propósito do teu texto, apraz-me citar uma frase dum livro que tem vindo a fazer sucesso desde há alguns anos, embora só muito recentemente tenha surgido a sua tradução portuguesa: "A profecia celestina".

"à medida que reflectimos sobre a dimensão espiritual da nossa existência, abrindo os nossos espíritos, começamos a experimentar fenómenos que não podem ser ignorados nem postos de parte."

Abraço

9:21 da manhã  
Blogger blackangel said...

encantado...
abraço

7:10 da tarde  
Blogger já deve existir said...

Vim corrigir a palavra ficção que por lapso escrevi com x.
Reli o seu magnífico texto novamente.
Gostei de reler.
Bom fim de semana

12:39 da tarde  
Blogger Klatuu o embuçado said...

Você até escreve bem - mas a literatura alimenta-se, fundamentalmente, de experiências incomuns.

3:04 da tarde  
Blogger Je Vois la Vie en Vert said...

O Guincho e o seu mar, esta linda mas perigosa maravilha da natureza portuguesa !
Se quiser ver um mar mais calmo, visite o meu blog porque là deixei algum comentário das minhas férias em Porto Santo.
Um beijinho verdinho

3:13 da tarde  
Blogger Peter said...

Power of Schmooze Award
Este prémio é uma tentativa de reunir os blogues que são adeptos dos relacionamentos “inter-blogues”, fazendo um esforço para ser parte de uma conversação e não apenas de um monólogo”.

Quem me atribuiu o prémio foi a Maria Papoila - http://a-papoila.blogspot.com/

Sem menosprezar os restantes, optei por indicar para o referido prémio e escolhendo entre os n/links, como é natural, os seguintes blogues:
António - http://eusoulouco2.blogs.sapo.pt/
Augusto - http://klepsidra.blogspot.com/
Marta - http://amartaeeu.blogspot.com/
Belzebu - http://ocontrablog.blogspot.com/
Herético - http://relogiodependulo.blogspot.com/

Que ganhem os melhores. Entretanto julgo que poderão já ostentar o selo nos respectivos blogues e eu, como não o sei fazer, vou pedir à “bluegift” que se encarregue disso.

12:42 da manhã  
Blogger Clitie said...

Querido Augusto, há quanto tempo não vinha aqui.
As palavras continuam as mesmas, as do meu agrado.

Beijinhos
Clitie
www.sashacores.wordpress.com

12:31 da tarde  

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