sexta-feira, junho 09, 2006

JANTAR DE HOMENAGEM A FERNANDO BIZARRO
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Os guardiões

Num lento movimento de rotação, a nave em forma de pião, gravitava em volta do planeta, deslizando num plano imaginário provocado pela ausência da gravidade.
Quando se encontrava em oposição à estrela que iluminava o planeta, a penumbra que este projectava tornava-a imperceptível, no todo da escuridão
Quando se encontrava em conjunção a luz estrelar transformava-a num objecto tão transparente que a sua imagem se diluía no firmamento.
Seja qual fosse a sua posição não podia ser avistada a olho nu do planeta, e a sua massa totalmente desconhecida, tornava-a completamente indetectável por qualquer aparelho.
Suspensa no seu tempo, era imensurável em outro qualquer, razão pela qual a duração da sua permanência não podia ser quantificada.
Quem a tripulava, tão inimaginável mesmo pela mente mais ousada, era como se não existisse, sendo a sua presença só sentida no éter da consciência.
A aproximação de uma segunda nave, igualmente em forma de pião, trocou a pacatez do quotidiano pela azafama da manobra de acoplagem, unindo-se as duas naves pela parte mais estreita, como se um pião fosse o reflexo do outro no plano da translação.
Diversos tripulantes da nave recém chegada passaram para a primeira. Eram os seres aos quais caberiam as decisões que iriam tomadas na nave. Seres para quem o tempo fora do seu não tinha significado, deslocavam-se num fluxo sem descontinuidade, formando com os tripulantes que os esperavam um todo indivisível, uma só mente, onde o gesto e a fala, grosseiras formas de comunicação eram substituídas, pelo fluir do pensamento.
Na comunicação que utiliza só o pensamento, não existem nem perguntas nem respostas, mas só constatações e são essas constatações que vão ser apreciadas por eles.
A unidade do pensamento leva a que este seja igual para todos os intervenientes, o conhecimento individual passa a ser colectivo, sem que para isso houve necessidade de transmissão.
Um pensamento ordenou: Comecem o relatório, e o pensamento colectivo funcionou como um único ecrã onde as imagens começaram a desfilar.

Um planeta escuro avermelhado, recém-formado, onde são visíveis os efeitos das convulsões geológicas e vulcânicas. A aridez é completa e total inexistência de condições de "vida".
O planeta envolvido em densas nuvens formadas por vapor de água proveniente da evaporação provocada pela sua alta temperatura.
O planeta que já arrefeceu deu origem à formação de lagos, mares e oceanos.
O planeta recebe uma chuva de poeiras espaciais portadoras de microrganismos que se vão depositar na água, e esta por sua vez, torna-se no caldo primordial da existência.
Os microrganismos desenvolvem-se em aminoácidos e estes em proteínas, estas em protobiontes e estes evoluem para células.
Seres unicelulares evoluem para pluricelulares, e estes dão origem a seres marinhos.
A escassez de caldo primordial obriga a parte dos seres a saírem do meio aquoso para o terrestre.
As plantas começam a desenvolver-se e gigantescas florestas cobrem o planeta.
A fotossíntese transforma a atmosfera de redutora em oxidante propiciando a respiração aeróbica.
Aparecimento dos primeiros seres aeróbicos
Os primeiros animais terrestres, répteis e depois os mamíferos.
Dos mamíferos evoluem os primatas e estes dão origem aos hominídeos.
Os hominídeos desenvolvem-se até serem humanos.
Os humanos começam a desenvolver técnicas.
As técnicas quanto mais evoluídas mais alimentam o lado MAU dos humanos.
O lado MAU vai ganhando terreno ao lado BOM até o egoísmo dominar por completo os humanos.
Os humanos, completamente dominados pelo egoísmo, começam a destruírem-se uns aos outros, e a destruir o próprio planeta.
A sua não extinção depende somente do grau de evolução da técnica.
A técnica aponta como única saída para evitar a extinção, a fuga para o espaço.

Por momentos o pensamento ficou vazio e as imagens desapareceram. O grupo dissociou-se em dois, um composto pelos tripulantes da nave e outro pelos visitantes.
Podem sair, queremos ficar sós. Foi o pensamento ordenador dos visitantes aos tripulantes da nave.
Após a saída dos tripulantes, o grupo foi trespassado pelo pensamento colectivo de que tinham encontrado o que procuravam. O MAL. Tinha-se libertado na Galáxia, mas não sabiam onde ele se encontrava. Agora tinham a certeza de que ele se instalara neste planeta quando da chuva de poeiras espaciais, usando os microrganismos, as sementes da vida do planeta, como seu hospedeiro.
Após nova pausa no pensamento, possivelmente o mais importante dos visitantes, fez trespassar para o grupo o pensamento de que se estes seres emigrassem e se disseminassem na galáxia, transportariam o MAL com eles, seria o fim do BEM e a destruição anunciada da própria galáxia. Um pensamento de concordância foi comum a todo o grupo.
Nova pausa, esta mais demorada. Depois num pensamento simultâneo, a decisão foi tomada. E as imagens da destruição do planeta, transformado em poeira cósmica, foram perceptíveis por todos.
Mas como se um curto-circuito tivesse ocorrido, as imagens coma mesma rapidez que apareceram, assim desapareceram, para darem lugar a uma imagem de criação cósmica que enquanto perdurava, um pensamento apelava para sua condição de Guardiões do BEM, que como tal não podiam destruir, só preservar o BEM.
Diversos pensamentos se inter chocaram, na ânsia da sua manifestação, acabando por prevalecer as imagens dos humanos, no futuro, a destruírem progressivamente a galáxia para satisfazerem o seu egoísmo.
Um pensamento mais ousado, talvez do mais jovem, sobrepôs-se às imagens de destruição da galáxia, questionando que se o BEM só praticar o BEM, será irremediavelmente destruído pelo MAL. Alguma coisa teria de ser alterada.
A ausência de resposta esvaziou por momentos o pensamento, até que a solução o repovoou de novo. Se Arquimedes fizesse parte do grupo, o pensamento seria Eureka, assim ele limitou-se a trespassar sem emoção o grupo com a solução achada. Que fiquem prisioneiros daquilo que fizerem, que se destruam uns aos outros, que destruam o seu meio de vida e o próprio planeta, que o seu egoísmo acabe por os varrer da superfície da Terra, que nós trataremos de os impedir de abandonar o planeta, para que o MAL nunca possa sair daqui e desapareça com eles para sempre.

14 Comments:

Blogger Carlos Barros said...

Augusto:
O MAL está em nós, como nós estamos no BEM, ou vice-versa.
Mas gravitar por ai...onde redescobrimos as nossas proprias imagens espelhadas onde teimamos em não nos reconhecer.

abraço

7:04 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ola augusto.
o texto hoje está um pouco longo mas quem sou eu para reclamar quando só escrevo relambórios? rsss
estou a brincar. está óptimo. sabes que durante uns dez anos só lia ficção cientifica? ficaram muitos livros na minha memoria. um deles em que usava o pensamento como forma de comunicaçao como referes tambem chamava-se "o labirinto". um livro fantastico.

abraço da leonoretta

8:26 da tarde  
Blogger Rosalina said...

alô.

uma visão muito apocalíptica.

eu acredito no BEM.

e acredito nestas palavras:

"Na comunicação que utiliza só o pensamento, não existem nem perguntas nem respostas, mas só constatações e são essas constatações que vão ser apreciadas por eles."

um bom domingo.

5:33 da tarde  
Blogger Thiago Forrest Gump said...

A história é tocante.

Ou o homem enxerga que precisa cuidar do planeta ou então só Deus sabe.



Boa semana

12:30 da manhã  
Blogger A Rapariga said...

Disse em voz alta: - A terra é o bastante, não quero as constelações mais perto, sei que estão muito bem onde estão, sei que bastam àqueles que lhes pertencem.
E continuou a avançar através das ervas altas em direcção às montanhas

Michael Cunningham - Dias Exemplares

Este livro tem uma mística que me transcende, e está a espalhar-se pela net, como guardião do mal.

8:41 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Passo sem nada dizer. Deixo apenas uma dessas lágrimas que abrem sulcos na alma.
BShell

11:46 da manhã  
Blogger Alma de Poeta said...

É a primeira vez que te visito. Li o teu muito bem elaborado texto e dou-te os parabéns. Vi também que eras amigo do Fernando, e dou-te os meus sentimentos pela ausência que ele nos deixa no coração. Ele era do bem. Conheci-o o ano passado e confesso que a presença fisica dele era bastante reconfortante, transmitia muita paz e nos olhos amizade.
Deixo um beijo

10:12 da tarde  
Blogger Mendes Ferreira said...

e o Arquimedes não tinha Net....:)


magnifico Augusto.


metaforico e inspirado.

beijo. bom.

9:11 da manhã  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,

Muito bom este texto com base em ficção "cientifica", quer passada quer futura.
Eu diria que qualquer semelhança com a realidade é pura coincindência.
Espero que assim seja, ainda vamos a tempo...
Bom feriado.
Abraço.

11:39 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Não foi pressa ...foi tristeza....
Ando assim...estou assim....
Beijo, BShell

10:18 da tarde  
Blogger A Sonhadora said...

Olá Augusto, bom dia...
espero que passes um bom fim de semana, mas nos encontraremos no sábado, até lá uma beijoca da sonhadora

10:21 da manhã  
Blogger legivel said...

Bem gostaria de poder "saber notícias" do comportamento humano num futuro próximo*. Mas não me atrevo a futurar realidades que a espécie cada vez me dá menos garantias de equilíbrio. Se bem recentemente se punha a questão de aparecer um maluco que carregasse no botão e fizesse o planeta ir para o maneta, hoje, o número de malucos profissionais e candidatos ao lugar, são mais que as mães...
... e no caso de tal acontecer, nem haverá tempo de apanhar um transporte colectivo para Júpiter ou Saturno...

* duzentos anos, digamos...

Abraço.

2:01 da manhã  
Blogger Thiago Forrest Gump said...

Obrigado pela visita.



Um abraço

8:30 da tarde  
Blogger jorge said...

caro augusto,
ele há fases complicadas que se complicam e esforços maiores que desgastam. se não tenho aparecido nos jantares é porque anda rara a disposição e complicado o tempo. deixo-te para já um abraço na certeza de um dia um encontro e com o agradecimento pelo(s) convite(s).

9:55 da tarde  

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