sexta-feira, maio 19, 2006

Filogenia dos ancestrais humanos
(continuação)

A descoberta em 1856 de uma parte superior de crânio e parte de um esqueleto, numa gruta na Alemanha, no vale do Rio Neander perto de Dusseldorf, foi o primeiro fóssil encontrado da espécie que em 1864, por consenso dos cientistas, se iria a chamar de Homo Neanderthalensis.
Os Neandertais habitaram a Europa e a Ásia Ocidental e Central durante o período compreendido entre 200.000 e 30.000 anos a.C., quando desapareceram do registo fóssil e foram substituídos na Europa por anatómicas modernas formas.
Os locais ocupados pelos Neandertais são hoje conhecidas desde a costa oeste de Portugal até ao Uzbekistão, não existindo vestígios em África.
Dominaram a Europa durante 170.000 anos.
Em grupos com mais ou menos 30 indivíduos espalharam-se por toda a Europa até ao nível da Inglaterra e pela Ásia Ocidental e Central.
Os países onde os registos fósseis são em maior quantidade são na França, Bélgica, Itália existindo também na Rússia. Habitaram todo o sul da Europa e Próximo Oriente, onde chegaram depois do Homo sapiens sapiens, o que prova que este não é descendente do Homo de Neandertal.
O clima nestas regiões era muito mais frio do que é hoje, duas glaciações aconteceram durante o tempo de ocupação dos Neandertais. Floresceram em ambos os períodos quentes inter glaciares e nas condições difíceis do avanço glacial. Foi o primeiro humano a viver nas condições difíceis da Idade do Gelo, sobrevivendo com a caça de grandes mamíferos.
Caçavam em grupo o que demonstra serem muito avançados. Para matarem mamíferos tão grandes, antes dos arcos e das flechas serem inventados, precisavam de um grupo e de uma estratégia.
Eles tinham de competir pela comida com outros predadores como grandes lobos, hienas e leões, no inóspito ambiente da Idade do Gelo.
Os Neandertais comparados com os modernos humanos, pareceriam primitivos e toscos.
Os ossos dos braços e das pernas eram aproximadamente duas vezes mais grossos que os nossos, o que sugere a sua enorme força, que lhe permitiria derrubar um bisonte ou um alce. Por outro lado, o seu corpo era surpreendentemente moderno.
O crânio era mais longo e com um tamanho médio superior ao homem moderno, o que contudo não implica mais inteligência. Capacidade craniana média era de 1.400 cm3.
O rosto não tem maçãs salientes e a bochecha descia da inflexão do olho ao canto dos lábios.
Na configuração da face, o nariz e as maxilares são proeminentes, daí resultar que os dentes estavam implantados muito mais para a frente do que no homem moderno, resultando daqui a sua ausência de queixo.
Os dentes tinham a mesma forma geral dos nossos mas eram mais grossos. Os caninos são do tamanho normal, proporcionados ao resto da dentição e não possuíam dentes incisivos. No Neandertal ocorreu uma diminuição muito sensível dos dentes em relação ao Homo erectus.

A face projectada para a frente e os membros musculados levam a pensar que se tratavam de adaptações para resistirem ao frio. O rosto em forma de “focinho” era para evitar as ulcerações pelo frio. Os corpos atarracados diminuíam a perda de calor. Entroncados a sua altura média oscilava entre 1,5 e 1,7 metros, e cerca de 80 Kg de peso.
Sabe-se que cresciam tão rapidamente que, aos 15 anos, já eram adultos e que a sua esperança de vida era de cerca de 30 anos.
É todo este conjunto de características que se tornam particulares do Neandertal e que permite distingui-lo quer do Homo erectus quer do Homo sapiens sapiens.
O crânio à esquerda da figura em baixo, datado de 53.000 a 35.000 anos, mostra-nos um distinto modelo do uso dos dentes, sugerindo que este indivíduo usou os dentes para mastigar couro, afim de o tornar suficientemente macio para confeccionar roupa. Se for o caso, isto poderá ser a mais antiga evidência do uso de vestuário. Provavelmente vestiam-se com couro descosido porque não foram encontradas ferramentas de costura.

As ferramentas, na figura em cima à direita são características da cultura Neandertal (Mustierense); eles tinham um efectivo mas claramente simples conjunto de ferramentas: pontas e raspadores talhados de um só lado e a persistência dos machado bifaces. Isto contrasta vivamente com o rápido avanço tecnológico feito pelo moderno humano.
Sabe-se que usavam o fogo para se aquecerem. Em algumas cavernas o chão era constituído por espessas camadas de cinzas comprimidas. As suas lareiras eram simples, parecendo-se mais com fogueiras forradas de pedras.
Descobriu-se um buraco de poste que comprova a construção de abrigos pelos Neandertais. Estes assemelhavam-se a tendas de índios; estruturas de madeira ou osso cobertas com peles de animais.
O Neandertal pelo facto de fabricar ferramentas bem como organizar caçadas, tratar dos doentes e dos fracos leva a crer que possuía a capacidade de comunicar e fazer passar os seus conhecimentos através de uma linguagem rudimentar.
No homem moderno as cordas vocais estão suspensas por um osso designado de hióide que se encontra atrás da língua. Em 1983 foi encontrado um hióide intacto de um Neandertal com 60.000 anos, pelo que se pode concluir que as cordas vocais dos Neandertais eram bastantes semelhantes às nossas e que poderiam emitir os mesmos sons.
Um estudo recente de um pesquisador da Universidade de Reading, defende que os Neandertais teriam desenvolvido um tipo de música e dança, algo que ritmicamente seria parecido com o rap de hoje.
Os lugares onde viveram os Neandertais revelam evidências de práticas sociais e culturais. Enterravam os seus mortos na posição fetal acompanhados com as ferramentas e comida. Espalhavam flores silvestres no solo à volta dos cadáveres.
Sendo os primeiros a enterra os seu mortos e da maneira como o faziam levam a crer que foi com eles o aparecimento pela primeira vez de uma consciência da existência, a vida e a morte, e com estas descoberta a criação de crenças para os proteger da morte.
O enterramento na posição fetal confere-lhes um pensamento de criação que não terminaria com a morte, mas sim um ciclo sem fim.
Apesar de serem os primeiros a enterrar os seus mortos, só o fizeram perto do fim da sua existência. A descoberta de restos fósseis de ossos danificados por doenças ou agressão em indivíduos com idade avançada, que não poderiam ter sobrevivido por si sós naqueles ambientes hostis, sugerem um vida social em que os outros membros do grupo teriam partilhado a comida e as tarefas fundamentais da vida com ele, o que de outro modo não teria sobrevivido.
Análises feitas a ossos descobriram finos cortes, e fracturas invulgares que sugeriram que os Neandertais praticavam o canibalismo, ou por fome ou por alguma espécie de culto da morte. Em Arcy-sur-Cure foi encontrado um esqueleto que em vez de ser enterrado pelos seus companheiros, provavelmente, foi objecto de um banquete de despedida, contudo, actualmente os cientistas preferem ver o canibalismo como uma variedade de formas de os Neandertais se manterem vivos, como um acto ocasional e desesperado de humanos esfomeados.
A extinção dos Neandertais ainda não está completamente explicada. Há várias teorias que se baseiam na coexistência com o Homo sapiens sapiens durante 1.000 anos, e que o confronto destas duas espécies não tenha sido pacífico. É possível que os modernos humanos tenham “esmagado” os Neandertais com as suas técnicas inovadoras, mas não há provas desta ocorrência.
Há outros cientistas que apoiam a fusão genética, ou seja, que se cruzaram e que os genes destes Neandertais ainda se encontram entre os europeus de hoje, mas esta teoria necessita de suporte científico, pois ainda não foram encontrados fósseis com características de ambos.
Outros autores crêem que eles se isolaram praticando uma forte endogamia, que levou ao enfraquecimento do grupo e consequentemente à degeneração da espécie.
Para outros os Nerandertais foram um acidente da evolução, mas acreditam que eles constituem um elemento indissociável das linhas evolutivas do homem. É neste contexto que surge a única teoria que contraria a extinção dos Neandertais. Terão os Neandertais se perpetuado nas populações primitivas da Sibéria?

10 Comments:

Blogger Estrela do mar said...

...Augusto...passei para deixar um beijinho e desejar um bfs...

12:49 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

impecável Augusto. uma grande lição como eu costumo dizer: com cabeça, tronco e membros.

abraço da leonoreta

8:58 da tarde  
Blogger Rosalina said...

que aula!

obrigada. tive saudades dos "bancos de escola".

venham mais.

bom dia.

12:26 da tarde  
Blogger Ulysses said...

Um post muito interessante. Gostei de ler.

2:35 da tarde  
Blogger Mendes Ferreira said...

querido Augusto somos o melhor dos acidentes evolucionais....presumo.

___________________cheguei agora mesmo. e acho que desabituada de tocar "apaguei"um comentário seu...ou pelo menos pareceu-me que me tinha escrito...mas no meio da confusão que era o meu mail..nem deu para ver....de repente ups...foi-se...digo isto porque a ser verdade não vá achar que o "moderei" a Si....:) beijos.
o seu post para quem vem do outro lado das areias e das múmias é "música"...medieaval? não. contemporânea....:) :) :) ----------até.

2:53 da tarde  
Blogger Seila said...

Caro Augusto, deixe que brinque com coisas sérias e, olhe que este seu post está bem no contexto. Então o amigo perdeu as suas maminhas na evolução dos tempos? ou será coisa de idade? Abraço.

3:24 da tarde  
Blogger Peter said...

Continuas com a tua "saga". Vamos ficando mais sábios.

10:28 da tarde  
Blogger A Sonhadora said...

Olá Augusto, boa nopite....
Andei por aqui a ler tudinho...como sempre mto bom!!!
quando puderes passa pela sonhadora...tens lá uma surpressa especial para tio...
Espero que gostes!!!
Uma beijoca da sonhadora

1:47 da manhã  
Blogger carnaxide said...

MORREU HOJE, EM CARNAXIDE, O NOSSO QUERIDO FERNANDO BIZARRO!
CHOREMOS!

(DIVULGUEM NA FRATERNIDADE BLOGUEIRA.)

Seria bom estarmos em contacto. O meu tlm é 966320936.

Firmino Mendes

4:44 da tarde  
Blogger martelo said...

temos que concordar caro Augusto que as mulheres de hoje evoluíram para muito melhor...
abç

10:51 da tarde  

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