sábado, novembro 12, 2005

Socratizando

Sentem-se confortáveis a viver neste país, sabendo que uma parte dos nossos concidadãos vivem na miséria?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis na vossa casa, sabendo que uma parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, não têm uma casa minimamente decente para viver ou não têm nenhuma?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis com a certeza de que a assistência médica não vos falta, quando parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, não têm direito a ela?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis quando conduzem o vosso automóvel, sabendo que uma parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, não têm dinheiro para comprar um bilhete dos transportes públicos?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis quando se banqueteiam opiparamente, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, nem pão muitas vezes têm para comer?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis vestindo boas roupas, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, nem dinheiro têm para comprar um par de alpercatas?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis durante as férias, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, nem sequer sabem o que isso é?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis quando se divertirem à noite, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, estão esperando por uma sopa?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis com os filhos à vossa volta, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, estão impossibilitados de os ter?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis quando compram presentes para os vossos filhos, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, não o podem fazer?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis ao verem os vossos filhos felizes pela vida que lhes proporcionam, sabendo que parte dos nossos cidadãos que vivem na miséria, só vêm nos seus a tristeza de nada terem?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis nas vossas oportunidades na vida, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, foram preteridos?
Já pensaram nisso?

Sentem-se confortáveis ao verificarem o que gastam no supérfluo, sabendo que parte dos nossos concidadãos que vivem na miséria, para eles esse supérfluo poderia ser o seu essencial?
Já pensaram nisso?

Já pensaram?
Uns pensaram e interessaram-se, mas não fizeram nada, outros pensaram mas não quiseram saber e outros ainda não pensaram, ignorando pura e simplesmente.
Restam os que se sentiram desconfortáveis, que sem alijarem as suas responsabilidades de solidariedade para terceiros, e de uma forma ou de outra, de alguma coisa prescindiram para minorar a pobreza dos nossos concidadãos. Bem hajam, estes são a esperança.
Para muitos a religião não é mais que um refúgio egoísta, onde só o seu eu conta, como se Deus fosse seu exclusivo.
Para outros a moral, a solidariedade e a fraternidade são palavras só com sentido na segunda pessoa.
Para outros a palavra cidadão desfavorecido não significa mais que um vizinho, estranho e incómodo.
Se vítimas do egoísmo, só o vosso conforto tem razão de ser, então que sociedade é esta em que vivemos?
Seremos uma sociedade vazia dos bens mais preciosos da humanidade, a fraternidade e solidariedade, onde só o egoísmo impera?
Seremos uma sociedade que só se insurge quando se sente afectada, esquecendo e marginalizando, os seus concidadãos que se encontram na miséria, como se estes não existissem?
Quem viu o apelo a uma manifestação, uma só, para exigir ao governo a concessão do mínimo indispensável, só do mínimo dos mínimos, para aqueles marginalizados socialmente pela sua condição de miseráveis? Eu não vi. Só vi manifestações do conforto a exigir mais conforto.
Isto não é o discurso de um qualquer monge mendicante, mas de um cidadão igual a vocês, que não se isenta da sua quota-parte culpa. Vejo com frequência na blogesfera apelos de solidariedade para esta ou aquela causa, o que aplaudo veementemente, mas o que proponho hoje não é um apelo à solidariedade, mas à obrigatoriedade que todos têm de reflectirem no que escrevi, o resultado dessa reflexão será o que a vossa consciência ditar.

Um país não é só dos favorecidos é de todos, e se oportunidades sorriram mais a uns que outros, os contemplados devem reconhecer humildemente a sua benesse, sem nunca esquecerem os que a não tiveram.
A sorte é muito volátil, de um dia para o outro pode tornar-se em infortúnio e aquilo que hoje não é desconfortável pode passar a sê-lo.
Já pensaram nisso?

24 Comments:

Blogger dulce said...

"Cada um de nós é culpado perante todos, por todos e por tudo"
Dostoievsky

Um bom fim de semana e um beijo por lembrares.

6:35 da tarde  
Blogger vero said...

Passei para lhe desejar um bom fim-de-semana!
Beijinhos***
:)

8:21 da tarde  
Blogger Zecatelhado said...

Aí Valente! É preciso avisar toda a gente...

Aquele @bração do
Zecatelhado

12:52 da manhã  
Blogger perola&granito said...

O nosso 4º leilao termina as 22h, queres ir la dar uma espreitadela? Beijinhos

8:36 da tarde  
Blogger contradicoes said...

A sorte é muito volátil, de um dia para o outro pode tornar-se em infortúnio e aquilo que hoje não é desconfortável pode passar a sê-lo.
Já pensaram nisso?
Reproduzi o final do post que encerra uma realidade com que os indiferentes à triste realidade vivida por aqueles que nada têm nem sequer um prato de sopa para comer, não se aperceberem que a qualquer momento pode ruir o castelo que construiram e serem também vítimas desse flagelo. Esta é uma oportuna
chamada de atenção sobretudo para os distraídos.

10:53 da tarde  
Blogger Noel Santa Rosa said...

Ai Augusto!!!
Eu sei bem como a vida muda de um dia para o outro e de que forma!!!
Mas nunca fui indiferente mesmo quando a vida me sorria, nunca virei o rosto para o lado, nunca deixei de estender a mão, mesmo sem saber a quem o fazia e nunca o fiz por amor a um deus ou a uma fé qualquer que não fosse a minha fé naquilo que o ser humano tem de melhor: a solidariedade e a fraternidade.
E mesmo quando todos os que se diziam meus amigos me viraram as costas porque a minha vida deu essa tal volta, se muitos mas viraram, o dobro de novos amigos tem vindo ao meu encontro e eu ao encontro deles, porque continuo a abrir os braços, a arregaçar as mangas e a acreditar que se hoje foi duro amanhã a sorte pode de novo virar na minha vida.

Nascendo todos os dias.
Um beijo muito especial para ti e para aquela que está junto de ti.
Tu sabes...
São sempre muito especiais os momentos que passamos juntos e esta noite foi mais uma :-)

1:29 da manhã  
Blogger HarryHaller said...

A pobreza mundial, ou no nosso Portugal, nunca será erradicada mediante a caridadezinha, mas, sim através da distribuição justa de todo o património que existe no planeta.
Enquanto essa distribuição não existir, a violência nunca terminará, pelo contrário aumentará, pois, há violência da pobreza imposta, respondem as suas vitimas com mais violência.
Ainda vai levar milhões de anos, para que a humanidade atinja um estado intelectual elevado, que veja a pobreza como algo de impossível e pertencente aos confins do tempo.
Obrigado Augusto por este texto

Lobo das Estepes

12:27 da tarde  
Blogger blackangel said...

o homem só olha o seu próprio umbigo, e com isto digo tudo...

obrigado pelas visitas.

7:57 da tarde  
Blogger Alexandre Narciso said...

Muito bem Augusto. Um verdadeiro post de alerta de sensibilização. Sim já pensei sobre isso e faço os possiveis para ajudar, mais que nao seja estando ao lado de quem precisa, escutando-os com a dignidade que merecem, divulgando como posso. Por vezes as pessoas deviam olhar para o "Mundo Lá Fora".
Abraço

9:50 da manhã  
Blogger Yardbird said...

Eu acho que todos nós pensamos nisso, Amigo. O pior é que não é assim que as coisas se resolvem
Um abraço

8:16 da tarde  
Blogger sal said...

Aprendi grandes coisas com meu avô...foi muito pobre, enrriqueceu...voltou a ficar "pobre" com uma nacionalização e quando uma vez na minha inocência lhe perguntei, respondeu: "Com a revolução cubana ganhamos mais FRATERNIDADE entre os homens" e a partir daquele momento comprendi que o infortunio só existe na ignorância do sombrio destino...O brilho do pensamento humano...o brilho duma estrela...

Um abraço daqueles

8:38 da tarde  
Blogger Sofocleto said...

A miséria é uma violência insuportável num mundo que, nunca como hoje, teve tantos meios tecnológicos para produzir e para prover a todos. A miséria é fruto da lógica absurda dos mercados. Não se vende, não se produz. Mas como vender se as pessoas não têm dinheiro?

O sentido é claro: cada vez mais gente do hemisfério rico irá engrossar as fileiras dos pobres. Até um dia.

8:44 da tarde  
Blogger Geosapiens said...

...ser...ou estar...dois modos de se existir...todos escolhem o seu...um abraço...

9:24 da tarde  
Blogger Peter said...

Não há dúvida que estamos a contribuir para deixar um "bom futuro" aos nossos filhos e, muito possivelmente, netos.
O raciocínio generalizado é:
- Nós vamo-nos safando e quem vier atrás que feche a porta.

10:58 da tarde  
Blogger hfm said...

Belo texto. Infelizmente, neste país, é difícil de passar das palavras à praxis.

5:55 da tarde  
Blogger messenger said...

não há pior que a indiferença generalizada a que vamos assistindo...
se estás mal, quero é que tu te lixes, e não venhas para cá com os teus problemas, os teus problemas incomodam-me.
vai-te queixar ao Totta.
não tens de comer? o que é que eu tenho a ver com isso, não tens emprego? arranja uma cunha. não tens cunhas? então, desculpa, mas és ninguém.
toda a gente neste país tem uma boa cunha para um bom emprego, se não tens é porque não vales nada.
não tens conhecimentos? és da chamada "probeza envergonhada"? aquela "coisa" que o estado dá para famílias á beira da miséria, não te chega? vive numa barraca.
não tenhas filhos, por que quem vive abaixo do nível, não deve ter filhos. como lhes compras os ténis de marca, a roupa de marca o relógio de marca xpt e por aí fora?
vais ao cinema? não, não tens dinheiro para ir?teatro, não? socialite, não?
então, pergunto: o que é que andas cá a fazer?
melhor é matares-te, não fazes cá falta nenhuma!
eu não te ajudo, eu não faço nada, eu nem quero ver, eu nem quero ouvir, eu não te respondo porque sou um deles, dos que não ligam aos que estão abaixo da minha condição social.
não vejo, não oiço, não me quero incomodar.

excelente o alerta, mas para ouvidos moucos...
abraço

6:48 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Amigo!
Eu ainda insisto em dizer que há jeito a dar ao mundo, às desigualdades, o maior problema é que nem todos estao dispostos a colaborar... mas cada um fazendo a sua parte, por pequena que seja, já produz alguma mudança...
Tuas reflexoes sao preciosas!
Nemaste! E muitos beijos!

9:53 da tarde  
Blogger Adryka said...

Meu querido amigo, este é um dos paises dos excessos uns tem tudo outros não tem nada, não me esquecendo eu porém que este é um pais sem recursos sem fonte de riqueza própria, é apenas um país que vive cada um a ver se trapassa o outro.
beijinhos amigo

9:53 da manhã  
Blogger Cecília said...

'Eles comem tudo
eles comem tudo
eles comem tudo
e não deixam nada...'

É assim, não é? E está para continuar. Os neocoms enquanto não rebentarem com tudo não descansam.
Augusto estou-te duplamente agradecida. Beijinhos.

10:49 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Tal como disse a Harry Haller “A pobreza mundial, ou no nosso Portugal, nunca será erradicada mediante a caridadezinha, mas, sim através da distribuição justa de todo o património que existe no planeta”.

Porque ser solidários não é resolver os problemas com um sentido imediatista, ou seja, dar uma moeda ou pagar um bolo ou uma refeição a quem tem fome, ou darmos peças de roupa para agasalhar quem delas necessita.

O que compete fazer àqueles que pensam e se preocupam, como nós, é tentar transmitir aos deserdados da Vida, os valores a que eles e todos têm direito. Incentiva-los a ir à luta, ao invés de se acomodarem às migalhas que vão recolhendo da Sociedade.

É evidente que me refiro a indivíduos com plenas capacidades físicas e psíquicas para tal. Quanto às pessoas debilitadas por doença, deficiências inatas ou adquiridas, físicas ou psicológicas, bem como pessoas no ocaso da Vida, compete ao Estado proporcionar-lhes uma qualidade de Vida condigna.

Dizer mais sobre este drama que afecta todo o Universo, seria estar a repetir conceitos que já tenho expresso noutros locais.

É muito importante que as pessoas que se preocupam com a Humanidade, levantem este tipo de questões, tal com tu muito inteligentemente fizeste.

Pelo que me diz respeito, continuarei a dar minha quota-parte por uma Sociedade mais justa e Fraterna, tendo como meta a Utopia.

Sonhos irrealizáveis. Sim, enquanto a maioria dos Seres Humanos o permitir.

Um Abraço,

2:01 da manhã  
Blogger Peter said...

Augusto, ando a visitar os blogs a que estamos linkados. Considero-o uma personalidade interessante, que aborda assuntos de carácter social. Outro dia, fiz-lhe uma pergunta: Mueda? Passou por lá?

4:11 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ola augusto.
grande manifesto augusto, digno de ser apresentado na assembleia e estende-lo ao pais inteiro.

mas olha... eu gosto do comboio. penso mesmo que e o mais confortavel.

abraço da leonoreta

8:50 da tarde  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,
Gostei de ler esta tua reflexão, e no essencial até concordo com ela.
Tocas num ponto muito importante e que parece que é uma caracteristica de nós humanos, é que com o mal dos outros podemos nós bem.
É verdade que uns mais do que outros vão lutando e contribuindo para que estes males sejam menores, no entanto também é verdade que o exemplo deveria vir de cima (governo), de quem tem responsabilidades politicas, e nós não vemos isso acontecer.
Assim sendo acabamos por nós proprios irmos desacreditando e desistindo por ficarmos com a sensação que a nossa insignificante contribuição não irá ser visivel.
Bom fds.
Abraço.

10:57 da tarde  
Blogger martelo said...

este é um dos meus problemas, pensar e algumas vezes fazer até com prejuízo próprio...
mas, não tenciono emendar-me naquilo em que sou coerente.

5:28 da tarde  

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