sábado, dezembro 15, 2007

Falar de pobreza VIII

Falar da pobreza, parece estar na ordem do dia, ainda que poucas pessoas procurem conhecer afundo o fenómeno. A pobreza não é uma doença súbita, é uma patologia lenta que nos vai consumindo sem darmos por isso e, um dia, podemos acordamos doentes. Talvez pareça excessivo, mas vou procurar fazer uma análise da evolução portuguesa ao longo dos últimos 100 anos. Tenho 66 anos de idade, o que me coloca na qualidade de observador de, pelo menos, meio século. Convido todos os que me visitam a participarem, não como um debate, mas uma tribuna aberta a todas as opiniões. Vale a pena perder um bocadinho do nosso tempo a pensar no assunto, pois o que se mostra no horizonte, não é nenhum mar de rosas.
Para a elaboração dos meus textos, vou-me socorrer da obra Portugal Século XX de Joaquim Vieira de onde recolherei textos, dados estatísticos e fotografias.


Década de 1970 a 1980


A Revolução

Estatística referente a 1970
População 8.663.252 (homens 4.109.360 47,4% mulheres 4.553.892 52,6%) (menores de 20 anos 3.182.750 36,7% maiores de 60 anos 1.242.910 14,3%)
Mortalidade infantil (por mil partos) 63,54
Esperança média de vida homens 64,2 anos
Esperança média de vida mulheres 70,8 anos
População de Lisboa 769.044
População do Porto 301.655
Analfabetos 25,6%
Emigrantes oficiais (por mil habitantes) 20,00
Eleitores inscritos 1.800.000
Escolas primárias 17.892
Estudantes do ensino primário 989.676
Estudantes do ensino secundário 120.373
Estudantes universitários 49.461
Automóveis em circulação 558.738

No acontecer de uma revolução popular, admitem-se acções que evitem fazê-la perigar, por muito drásticas que elas tenham que ser. O seu sucesso será medido pelas melhorias sociais que ocorrerão na população.

Não é porem um partido da oposição ou uma camada social a tomar a iniciativa de mudar o estado de coisas, mas sim um grupo de oficiais intermédios do Exército, que não queriam que a guerra continua-se a ter como solução a continuação dos combates.

Sugue-se a mais vertiginosa fase da história portuguesa do século XX, o tempo dos excessos e das utopias. Enquanto se desmantelam as velhas estruturas, a maioria julga que o poder se conquista na rua, enquanto ao mesmo tempo desenrola-se nos bastidores (mas à vista de todos) a decisiva disputa pelo controlo do país, quase levando a uma guerra civil.

Factura desse período conhecido como o PREC, claro, que tem de ser paga. Depois da embriaguez vem a ressaca e, os desmandos desse período: greves arbitrárias, subidas descontroladas de salários, quebra de rentabilidade do trabalho, indisciplina nas Forças Armadas e nas empresas, ocupação de tudo o que havia para ocupar, nacionalizações a esmo, Portugal é um país sem rei nem roque, para o qual os jacobinos da demagogia barata, não têm nenhuma solução, nem tão pouco as comissões de trabalhadores que gerem as fábricas com as suas próprias leis.
Mas a balda é tão grande, que as universidades são forçadas a aprovar estudantes por via administrativa!

A falta de investimento, que facilmente se depreende, que tal situação acarreta, a crise petrolífera e o decréscimo acentuadíssimo da emigração, que diminui drasticamente as remessas dos emigrantes, são três factores de peso que vão concorrer para o fim da ilusão de que o mundo também é nosso, se outros têm, também nós, apesar de não termos condições para isso, temos direito de ter, que resulta num apertar do cinto. A desilusão só não é total, por nos fazerem crer que falar sem restrições, é o elemento fundamental da liberdade, não enche a barriga, mas pelo menos é de borla.

Com o fim da guerra e a redução da emigração, o desemprego até aí insignificante, passa a fazer parte do nosso quotidiano, mas curiosamente, já nem todos os empregos servem, para os considerados “desprestigiantes” como trolhas da construção civil, são importados imigrantes de Cabo Verde.

Também outro facto concorre para o agravamento, da já grave situação, a descolonização em passo de corrida, que trás para Portugal milhares e milhares de “retornados”, à procura de uma nova vida.

A prosperidade aparente e prometida pelo PREC, esfuma-se na realidade de um país à beira, mais uma vez, da pobreza e, pobreza incrementa a miséria.

Não é por nas cidades as mulheres mostrarem as pernas e eles deixarem crescer o cabelo, o bigode e barba, que a sociedade mudou, nem o tacho em casa fica mais cheio, nem tão pouco evita uma inflação galopante que vai tornando as pessoas cada vez mais pobres. Pela primeira vez, desde algumas décadas, a classe média sente-se atingida pela crise.

Sem soluções o MFA vê-se na necessidade de passar o poder político para os partidos, esses ilustres desconhecidos, que além do PC, praticamente ninguém conhecia. Com as eleições à vista, os partidos afirmam-se com a promessa. Prometem o que podem e não podem, juram a prosperidade imediata, oferecem a Lua. O povo sem qualquer formação cívico/política, frenético grita agitando o seu voto no ar. Quem dá mais, quem dá mais?

Os habitantes da Mitra de Lisboa, nas vésperas de Natal de 1978

A Liberdade chegou, mas a pobreza não arredou pé! E a prova disso é que em 1978 a Mitra de Lisboa, o símbolo maior da nossa miséria, ainda executa a sua função.







18 Comments:

Blogger contradicoes said...

Este tema não se esgota
com mais esta abordagem
várias Mitras pouco importa
a toda esta malandragem

Que dirige o País
com ou sem legitimidade
porque alguém assim o quis
votando com leviandade

Um abraço do Raul

10:30 da tarde  
Blogger Diogo said...

Caro Augusto,

A evolução tecnológica progride a ritmos exponenciais. Coloquemo-la a trabalhar para todos. Fujamos o mais depressa possível desta lógica suicida do lucro. Porque há cada vez menos gente para comprar.

6:06 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

num tempo de conveniências e ostentações consumistas

venho deixar-te o meu melhor beijo.





absolutamente Nu.

puro.



bom de tudo A.

11:48 da tarde  
Blogger Kalinka said...

Augusto
Reparo que continuas com o tema da «pobreza»...ela está cada dia mais evidente na Vida dos portugueses.

Venho desejar um óptimo 2008 ... enroladinho em coisas boas, cheio de alegria e boa disposição, força, amigos, amores, dinheiro, perspectivas, saúde, muita farra e ... dizer-te que foi um enorme prazer contar contigo no kalinka...

Que um mar de felicidade inunde a tua Vida no próximo ano !!!!

Venho deixar-te votos de Festas Felizes...e Natal terá que viver todos os dias nos nossos corações... Isso é muito mais importante que todas as luzes e todas as prendas!

Um abraço

4:21 da tarde  
Blogger H. Sousa said...

Viva, Augusto! Recebeste os livros? Depois escrevo-te, ando numa roda viva...
Este post não o posso perder, virei ler quando passar a crise.
Abraços.

11:19 da manhã  
Blogger HarryHaller said...

Amigo Augusto

Venho aqui agradecer os votos deixados lá e desejar votos idênticos.

Um abraço

Fernando

3:27 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Venho agora desejar
ao meu amigo Augusto
que tenho um feliz Natal
calmo e sem nenhum susto

Com um grande abraço do Raul

4:02 da tarde  
Blogger Peter said...

Augusto

Venho desejar-te um Bom Natal e que o Ministro da Economia não te ponha "prendas" no sapatinho.

Quanto ao 25/4/74, como interveniente directo, não me pronuncio.

6:58 da tarde  
Blogger Ana Luar said...

E o grande problema Augusto é que o números de pessoas pobres está a crescer numa proporção maior que a da população mundial sem que ninguém faça nada para minimizar estes numeros. O assunto que escolheste é um assunto que dará pano para mangas.
Uma coisa posso garantir-te não é só a pobreza fisica que me apavora... a que mais me mete medo é a probeza da alma... cada vez mais constante no ser humano.

Deixo-te um beijo e os votos de um Feliz Natal

12:39 da tarde  
Blogger Diogo said...

Ana Luar, permita-me discordar:

Embora a pobreza de alma, e vêmo-la em Sócrates, Barroso, Mário Lino, etc, seja um fenómeno que nos confrange, a pobreza física é mais dolorosa.

8:22 da tarde  
Blogger martelo said...

cheguei a espreitar essa tristeza...

bom natal.

12:02 da manhã  
Blogger H. Sousa said...

Vim ler, tal como prometera acima. Desta vez é irrefutável, todos vivemos o que aqui descreves. As visões sobre as razões podem não coincidir, mas as «bestas» têm o seu quinhão de culpa, muitas delas conseguiram virar «tios» à custa da garganta. E as «bestas» consumistas continuam a engordá-los, enquanto as «bestas» prole-otárias caem cada vez mais na miséria.
Viva o robotismo!

12:09 da tarde  
Blogger Dad said...

Que o Natal, o verdadeiro, não o dos Centros Comerciais, possa constituir um momento de introspecção que nos leve a ser melhores e a entender os nossos Irmãos caminhantes desta terra.
Que una as famílias e os amigos e ajude a perceber o propósito da nossa vida aqui, nesta
Terra que é de todos mas que, infelizmente, só alguns usufrem a seu belo prazer.

Um abraço,

2:49 da tarde  
Blogger Choninha said...

Olá Augusto. Vim apenas deixar um abraço e desejar-lhe tudo de bom para si e sua família.

5:02 da tarde  
Blogger isabel mendes ferreira said...

olá "rei mago"....




obrigada.



deixo estrelas....e saudade e uma flor.



beijoooooooooooooooooo.

6:40 da tarde  
Blogger Sophiamar said...

Ler esta sucessão de posts é muito interessante. Uma boa lição de História dada de uma forma muito leve que prende facilmente os leitores.
Gostei muito.
E a pobreza continua. Cada vez mais!
Beijinhos

7:49 da tarde  
Blogger Paulo Sempre said...

A pobreza é, de facto,"patologia lenta". O homem das nossas cidades, dos meios rurais e de todas as actividades eficientes da sociedade, tem no mais alto conceito a sua reputação e a sua personalidade, não nasceu títere, nem sente vocação para a palhaçada. Anseia por um constante melhoramento da sua condição social, esconde a pobreza, vive, de forma serena, na expectativa. Porém, os Governos da democracia, têm sempre pronta a legislação para esse trabalhador prudente, digno e idóneo pagar a crise provocada pelos devaneios da política com o agravante desta permitir a entrega sa soberania Nacional a outrém...em troca de interesses "escondidos". Uma pobreza material, espiritual e de identidade vai, paulatinamente, degradando a imagem de Portugal...
Abraço

11:18 da tarde  
Blogger Je Vois la Vie en Vert said...

Cheguei a Portugal um mês e meio antes da revolução de Abril.. Imagine quanto foi complicado para mim !
Sem saber nada sobre a dictatura, eu só pensava : "oh, não, agora que me vi livre das greves e manifestações do meu país e que pensava que ia ficar sossegadinha num sítio pacato, vai recomeçar tudo !!! :-)
Um feliz Natal para si e um ano 2008 cheio de vida, de paz, de amor e de inspirações para nos permitir visitar o seu blog com gosto !
Beijinhos verdinhos

Mais tarde, percebi esta necessidade de liberdade do povo português !

5:21 da tarde  

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