domingo, novembro 25, 2007

Falar de pobreza V

Falar da pobreza, parece estar na ordem do dia, ainda que poucas pessoas procurem conhecer afundo o fenómeno. A pobreza não é uma doença súbita, é uma patologia lenta que nos vai consumindo sem darmos por isso e, um dia, podemos acordamos doentes. Talvez pareça excessivo, mas vou procurar fazer uma análise da evolução portuguesa ao longo dos últimos 100 anos. Tenho 66 anos de idade, o que me coloca na qualidade de observador de, pelo menos, meio século. Convido todos os que me visitam a participarem, não como um debate, mas uma tribuna aberta a todas as opiniões. Vale a pena perder um bocadinho do nosso tempo a pensar no assunto, pois o que se mostra no horizonte, não é nenhum mar de rosas.
Para a elaboração dos meus textos, vou-me socorrer da obra Portugal Século XX de Joaquim Vieira de onde recolherei textos, dados estatísticos e fotografias.







Volta a viver-se nas furnas de Monsanto (Lisboa). Família aquem foi estruida a casa por uma intempérie (1947)

Década de 1940 a 1950

Os anos da guerra

Estatística referente a 1940
População 7.755.423 (homens 3.734.348 48,1% mulheres 4.021.074 51,9%) (menores de 20 anos 3.216.700 41,5% maiores de 60 anos 760.620 9,8%)
Mortalidade infantil (por mil partos) 126,09
Esperança média de vida homens 47,7 anos
Esperança média de vida mulheres 51,8 anos
População de Lisboa 694.389
População do Porto 258.548
Analfabetos 49%
Emigrantes oficiais (por mil habitantes) 1,7
Eleitores inscritos 813.558
Escolas primárias 7.768
Estudantes do ensino primário 587.747
Estudantes do ensino secundário 32.322
Estudantes universitários 8.692
Automóveis em circulação 39.146


«A guerra não podia deixar de ter tido, como efectivamente teve, um terrível efeito desorientador na incipiente organização corporativa»
Marcelo Caetano


Se no primeiro decénio da ditadura (1927 – 1936) cada português consumia uma média diária de 2524 calorias, no segundo (1937 -1947) o valor desceu para 2403, quebra amortecida pelo recurso ao vinho (195 calorias diárias no segundo período contra 154 no primeiro).

Apesar das limitações da guerra aos abastecimentos, há bens alimentares, mas não ao alcance de todos, gera-se riqueza, mas não distribuída pela maioria. Os géneros obtêm-se no mercado negro, por bom dinheiro ou influência e, as receitas dos negócios de guerra entram nos cofres do Estado, nas contas das empresas ou nos bolsos dos comerciantes.

Em 1942 o panorama é crítico, com as importações muito reduzidas. A fome atinge as famílias operárias das grandes concentrações industriais e sobretudo os assalariados rurais.

Quem não pode recorrer ao mercado negro, tem de enfrentar gigantescas bichas para a obtenção das senhas de racionamento. A lista dos produtos racionados é enorme: o açúcar, o arroz, o bacalhau, as massas, o sabão, a manteiga, o café, o cacau, o azeite, os óleos alimentares, o grão, os cereais e as farinhas, assim como o pão 8reduzido o branco para 180 gramas por dia e por pessoa ou, em alternativa, o escuro a 290 gramas). Também as batatas serão condicionadas a meio quilo por semana e por pessoa. Carne nem cheiro para pobre, aves só para ricos.

Os preços sobem e Salazar congela os salários, impedindo que acompanhem a inflação.
«seria um perigo, um erro, um crime contra o equilíbrio económico, a solidez financeira e a paz social abandonar a disciplina a que nos temos providencialmente sujeito» Salazar

No início da década o salário agrícola vale em média um quinto de há vinte anos. O Instituto Nacional de Estatística constata que toda a refeição se baseia em broa, «com umas três ou quatro sardinhas salgadas, mais ou menos batatas, duas tigelas de caldo com legumes secos e hortaliça.» O inquérito feito numa povoação alentejana, previne que «a classe dos jornaleiros temporários encontra-se em estado de subalimentação, com o regime insuficiente, tanto em quantidade como em qualidade». «Se o trabalho falta e o merceeiro não fia, apenas um dia ou outro mitigará a fome com um prato dado por caridade», conclui o inquérito.

A repressão não consegue impedir alguns aumentos salariais que rompem a política de contenção, acelerando a espiral inflacionária que acaba sempre por prejudicar quem depende do rendimento do trabalho (entre 1942 2 1946, os salários descerão em média um décimo do seu valor real em 1941).

A penúria continua no imediato pós-guerra, mantendo-se o racionamento e o Ministério do Interior lança o apelo do Socorro de Inverno, sob o lema «Todos os que podem a favor de todos os que precisam». O Estado mendiga, mas o alheamento é confrangedoramente generalizado.

Mas nem tudo é miséria, pelo menos para alguns. É a vaga dos novos-ricos desfazendo fortunas ao ritmo que as ganham. É a época do “ouro negro” o volfrâmio, que leva milhares de famílias camponesas, aldeias inteiras, a trocar a enxada pela picareta, o sol pelo buraco, onde como toupeiras, tentam superar a sua miséria. Também não têm mãos a medir os industriais que fornecem sobretudo os alemães, preferidos por pagarem com divisas ou ouro judeu e não a crédito como acontecia com os aliados.

A Mitra de Lisboa é a instituição onde são internadas as crianças pedintes de Lisboa, mata-lhes a fome, mas não elimina as causas da miséria. A miséria, sobretudo nas cidades, deve ter atingido o seu zénite nesta década. Mulheres, crianças e cães disputam a comida nas lixeiras, ou vasculha restos de carvão dos caminhos-de-ferro, para trocar por comida. A sociedade portuguesa mais desfavorecida vive momentos de grande desespero.


Crianças formadas para almoçar na Mitra de Lisboa, que mais parece um campo de concentração nazi.


Mas futilidade parece ser o nosso apanágio. Com a guerra são milhares os fugitivos que passam por Lisboa e com eles novas maneiras de estar na vida. Os homens passam o dia a desfilar pelos cafés de Lisboa, para verem as pernas das fugitivas, as mulheres a invejarem as meias de seda. As estrangeiras, desinibidas mostram-se em malho na praia, fumam, cruzam as pernas e mostram decotes generosos. Eles não usam chapéu e mostram o peito nu na praia. Enquanto uns choram a miséria, para outros, o swing passa a ser a grande moda nos bailes. Imitar passou a ser o paradigma desta Lisboa mesquinha.

Só em 1947 foi levantado o racionamento, quando o então o Ministro da Economia Daniel Barbosa, utilisou o ouro e as divisas acumuladas durante a guerra, para uma compra maciça de géneros alimentares.

12 Comments:

Blogger Leonor said...

excelente post augusto. simplesmente excelente.
assim vale a pena ler um blog.
beijinhos

6:33 da tarde  
Blogger Heloisa B.P said...

EXCELENTE DOCUMENTO, ESTE QUE TEM VINDO A DESENVOLVER!
*RACIONAMENTO*!_ RECORDA-ME BEM DE MEUS AVOS FALAREM BASTANTE SOBRE ISSO, ESPECIALMENTE, QUANDO EU FAZIA CARA FEIA AO ALMOCO OU AO JANTAR!...

E, faz-me pensar, um tanto "sadicamente", que, somos capazes de estar a precisar de outro similar "racionamento", mas, por razoes diferentes: "racionamento", que nos impeca de estragar tanto alimento com tantos e tantos opulentos banquetes (mesmo nas nossas casas, menos "opulentas"...), e enviar o produto recolhido pelo "Racionamento" para aqueles que realmente MORREM A MINGUA DE PAO E DE AGUA_Ja', para nao falar noutras "minguas", resultante das quais, morrem criancas, velhos e doentes_MAES SEM LEITE_!

_MAES DE MAOS VAZIAS E OLHOS VAGOS, POUSADOS NOS VENTRES INCHADOS DE SUAS CRIANCAS!!!

E... APROXIMA-SE, A PASSOS DE GIGANTE,MAIS UM NATAL: *RACIONAMENTOS PRECISAM-SE!_PRECISAM-SE, PARA QUE HAJA MAIS RACIONALIDADE NA DISTRIBUICAO DOS BENS ESSENCIAIS A VIDA_DE TODOS OS QUE HABITAM ESTE PLANETA AZUL_!!!!!!
...................

_*ONDE ESTIVESTE JESUS????????********

_ONDE ESTARAS JESUS EM CADA NATAL DOS "SEM NATAIS"!??????
................

CARISSIMO AMIGO*,
Perdoe-me se me alongo! Mas, esta epoca do ano, ainda "mexe mais comigo"!!!!!
*******************LI O SEU LIVRO******,
EM "DOIS FOLEGOS"!

Deixei-Lhe mensagem a respeito no SEU SITE no MULTIPLY!

_Tentei colocar la' a Foto da capa do LIVRO e nao consegui (tenho-A exposta em um de meus sites, mas nao consegui coloca'-la no SEU!; vim aqui procura'-LA mas nao a vejo!
vou procurar na LULU!
UM ABRACO!

_Perdoe o tamanhao da mensagem/comentario!
Heloisa B.P.
*****************

7:36 da tarde  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Augusto,
Como tem sido sempre ao longo da história, sempre que há guerra os ricos ficam cada vez mais ricos, e os pobres cada vez mais pobre. No meio destes ainda há aqueles que conseguem emergir, e fazer fortunas rápidas, mas infelizmente a maioria, que é o povo, é sempre quem sofre mais. Sempre foi assim, e sempre será.
Depois começou-se a ver, como agora se vê, a sociedade a viver de aparências. Tudo bonito por fora, e uma podridão por dentro.
Enfim, outras décadas, outras histórias, outros tempos, mas no essêncial é sempre a mesma coisa. A história repete-se.
Abraço.

10:16 da tarde  
Blogger Ashera said...

Querido amigo
Tens aqui um trabalho estupendo!
Muitos parabéns.
Obra digna de divulgação que irei fazer logo que me seja possível,,,,,
Muito obrigada por seres quem ÉS
E, acima de tudo por seres meu amigo.
Perdão por algumas ausências....mas, o frio de Leiria, invoca o espirito da lareira :-))))
Beijos com beijos

10:24 da tarde  
Blogger hora tardia said...

e de repente voltam os tempos



.


da pobreza.



:(


__________________


e nós a caminho do egocentrismo.

__________________


e Tu na senda da denúncia!



______________


bem Hajas!

6:38 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Amigo Augusto... cá estou de volta depois de quase um mes de ausencia...
Venho e encontro mais um dos teus tao preciosos textos, tao cheios de verdade e magnífica escrita...
Bom ver-te outra vez!
Beijos, flores e meus eternos sorrisos para ti, caríssimo amigo!

10:50 da tarde  
Blogger Peter said...

Uma dúvida:
"O Instituto Nacional de Estatística constata que toda a refeição se baseia em broa"
"Broa", alimento nacional?
No Alentejo, "pão de centeio".

São pormenores, não leves a mal.

Lembro-me das senhas de racionamento, que eram em várias cores. Assim como dos vidros das janelas pintados de azul e tiras de papel coladas em xadrez.

Memórias de gente velha ...

P.S - Obrigado pela visita.

12:12 da manhã  
Blogger JG said...

Lembro-me bem do racionamento. Não havia açúcar. Adoçava-se o café com rebuçados de Santo Onofre, uns rebuçados para a tosse que se vendiam nas mercearias, embrulhados em papel vegetal com uma estampa a azul, lembras-te?
Mas era só quem podia. Como eu que tinha uma avó merceeira e não deixava que nada faltasse em minha casa. Mas via o que se passava à minha volta. Tomar café já era um privilégio, quanto mais açucar!!!
Esta história do açucar é meramente exemplificativa. Havia-as muito mais dramáticas. Contudo, sempre que me lembro do racionamento, isso me vem à memória. Como se fosse uma marca indelével que marcou a miséria deste país durante décadas.

Estas tuas crónicas (chamemos-lhe assim) merecem publicação, Augusto.

Um abraço

12:26 da manhã  
Blogger Diogo said...

Mesmo assim tivemos a sorte de escapar à II Guerra. O resto da Europa não estava melhor. Muitos estavam até bastante pior.

Isto não é nenhum elogio a Salazar, entenda-se.

7:22 da tarde  
Blogger Kalinka said...

AMIGO AUGUSTO

É IMPERDOÁVEL a minha ausência do seu blog...
Não sei explicar o motivo, desânimo pela Vida, será? ando arredada dos blogs amigos...sem explicação plausível, peço desculpas.
Sei que se inicia em breve um mês que me deixa muito deprimida - Dezembro.
Não sei se leu as minhas desventuras pelo Egipto, tudo isto faz alhear-me do que é bom...acabo por ser eu quem mais perde, que fazer?

POR CÁ...cada dia que passa, as pessoas não têm tempo para NADA...no entanto, estamos a chegar a uma época do ano, a mais hipócrita do ano - parece que todos se vão lembrar de todos...rrssssssss, que raiva!!!

Eu nunca me esquecerei do País que me viu nascer:
"Cahora Bassa é nossa" foi a célebre frase que mais se ouviu ONTEM em Moçambique!!!

Beijitos.

9:15 da tarde  
Blogger Túlio Hostílio said...

belo post...a aminha avó fazia 12 km para se abastecer de bens essenciais à sobrevivência, voltando muitas vezes de mãos a abanar...é preciso recordar para não esquecermos...

No dia 24 de Novembro de 2007, foi publicada no semanário Expresso, uma entrevista do Inspector Geral da Administração Interna, Dr. António Clemente de Lima, anunciada na capa com o título “Há incompetência a mais na polícia”, a qual teve um efeito bombástico transversal, pondo o país em sobressalto.

10:17 da tarde  
Blogger martelo said...

quem viveu esses tempos conhece os sabores amargos...

11:12 da tarde  

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