domingo, janeiro 07, 2007

Jantar de Inverno
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A VIDA
(segunda parte)


Se nos debruçarmos sobre o que os ocidentais dizem, retirando o misticismo religioso, verificamos que são consentâneos em que a Vida é um estágio para atingir outro, que por sua vez se teria originado noutro, num contínuo fluxo, infinito. O próprio conceito de alma corrobora esta ideia. Para eles a definição de Vida já é mais abrangente, pois inclui nela a própria morte.

Há culturas que tentam dar um significado à Vida a partir da morte, ou seja, a morte é uma passagem de uma vida para outra, o que é o mesmo que dizer que a Vida não finda com ela. A Vida que vem de trás, é presente, e continuará no futuro, a sua única diferença é forma de se manifestar.

Diz-nos Aristóteles no seu Ser enquanto Ser.
… o ser divino, a realidade primeira e suprema da qual todo o resto procura aproximar-se, limitando a sua perfeição imutável. As coisas se transformam porque desejam encontrar a sua essência total e perfeita. Imutável como a essência divina.
Tal desejo explica por que há o devir e porque o devir é eterno, pois as coisas naturais nunca poderão alcançar o que desejam, isto é, a perfeição imutável.

Se pensarmos bem, verificamos que a nossa vida alicerça-se no desejo, seja ele qual for,
Incluindo o desejo de não morrer. Sublimado o desejo, a vida perderá a razão da sua existência. (Siddharta Gautama)
A cultura ocidental, onde o material se sobrepõe ao espiritual, alimenta o desejo como um fim em si da própria vida, onde a insatisfação do desejo se traduz em dor, passando esta a ser o paradigma da sua manifestação.

A vida manifesta-se sempre na dor, salvo algum momento fugaz onde a ilusão da satisfação do desejo se traduz em efémera felicidade.

Entendo Platão quando afirma que o Mundo está entre o ser (ideia) e o não ser (matéria), e é o devir ordenado, como o adequado conhecimento sensível está entre o saber e o não saber, mas já não posso entender a existência de um Demiurgo, desempenhando o papel de mediador entre as ideias e a matéria, à qual comunica o movimento e a vida, a ordem e a harmonia. Estaríamos em presença de uma acto de criação, pelo menos intermédio, ficando por explicar a origem do criador.

Aristóteles, que em desacordo com Platão, não julga o mundo das coisas sensíveis, um mundo aparente e ilusório, não deixa de apresentar o seu Primeiro Motor, o ser Divino, que é o princípio que move a realidade. Também o criador ficou por explicar.

Mas não especulemos a criação e limitemo-nos à Vida.

O que constato é que a Vida se manifesta pelo sensitivo não como o Tudo, mas como uma das suas particularidades, que na sua totalidade formam o absoluto.

No dizer de Aristóteles, o mundo universal não subsiste por si próprio, mas por indução do particular para o universal, onde todos os particulares se fundem.

Erradamente parte-se do conhecimento empírico, sensível, para tentar chegar ao conhecimento intelectual, que tem por sua característica a universalidade, conceptual, imutabilidade, o absoluto do conceito, devido o conhecimento humano ser confrontado com elementos que não se podem explicar mediante a sensação.

É o sensitivo que materializa a Vida, sem ele não tínhamos consciência dela, e sem essa consciência ela não existiria. O sensitivo origina o desejo e este por sua vez o egoísmo, que consubstanciado na individualidade, personalidade, vaidade, orgulho e arrogância, nos leva a não admitir que estamos inseridos num Tudo, mas só admitirmos o que o nosso egocentrismo consente. (Possivelmente um desejo de eternidade)

A subordinação ao sensitivo, condiciona-nos ao que vimos, ao que ouvimos, ao que cheiramos, ao que apalpamos e ao que saboreamos, do que resulta a ilusão indutiva de uma realidade que por ser a única que somos capazes de percepcionar, a julgamos como a verdade primeira, subjugando o Tudo a ela em vez de a aceitarmos como uma emanação dele, sem dele se separar.

Não compreendendo a morte, tomamo-la como fim dessa nossa realidade, não aceitando que ela possa ser o acordar do sonho.
Tanto a manifestação da Vida como da Morte, são o espaço intermédio entre o Tudo e o Nada, onde estes se não opõem mas se sobrepõem.


11 Comments:

Blogger Ulysses said...

É muito agradável ver a vida assim "partida" e desfrutar esta bela leitura!
Abraços

2:24 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

ola augusto.
claro que apesar das muitas explicaçoes que aristoteles e o seu mestre, platão, pudessem arranjar o criador ficaria sempre por explicar pois é no perido helenistico que começa a surgir a ideia do deus uno na grécia.
mas o artigo está uma maravilha.
nunca me arrependo de vir aqui.
abraço da leonoreta

8:38 da tarde  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,
Para mim a vida é o momento, por isso procuro-a viver o mais intensamente possível. A vida para mim é isso, e apenas isso, porque eu só acredito no que vejo, em alguma coisa do que ouço, no que cheiro, no que é palpável, e no que consigo saborear. Quanto à morte, e à vida para além dela, vou esperar para ver...
Abraço.

10:41 da tarde  
Blogger blugaridades said...

A vida é uma passagem para a outra margem, parafraseando um cantor cujo nome agora não me lembro. E nisto tudo há um elemento muito importante chamado desejo.Será eléctrico? O desejo de não partir para parte incerta levou e leva muitos pensadores a investigar, a pensar, a dissertar sobre o assunto. Cá por mim, que não sei de onde vim e muito menos para onde vou, resta-me viver cada dia como se fosse o último desta passagem por cá sem deixar adiar o coração Este tem prioridade.
Posso não ter dito nada mas palavras, que não contei, disse muitas.
Já agora, onde é esse jantarinho?
Beijinhos

7:45 da tarde  
Blogger Peter said...

Tomei conhecimento do jantar de Inverno. Não me é possível assumir compromissos com muita antecedência, pois normalmente as contas saiem furadas.
Vamos ver, ainda falta muito tempo.
De qualquer modo, obrigado pelo convite.

10:05 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Mais uma excelente abordagem dentro do que já nos habituas-te. E tendo exactamente a ver com a minha vida meu caro amigo Augusto, temo se continuar assim a não poder também partilhar com os vários participantes que certamente se irão inscrever no próximo jantar agendado para o dia 27 deste mês se até lá não melhorar. Trata-se dum problema de saúde cuja solução segundo opinião duma familiar médica, poderá ter de passar por uma intervenção cirúrgica. Por mim a dificuldade está apenas em não poder ser já amanhã ou nos próximos dias uma vez o mal estar que me causa não me permitir outra permanência para além daquela a que sou obrigado em termos profissionais. Espero entretanto conseguir melhorar. Se tal acontecer
até lá, farei sem hesitação a minha inscrição. Um abraço e continuação de um excelente 2007
Raul

10:55 da tarde  
Blogger Kalinka said...

Augusto
Ora bem...se eu for, será a minha 1ª vez numa jantarada dessas - no entanto, não coloco qualquer duvida em como nesse jantar se poderá ler poemas de Cesário.
No meu ponto de vista é tão digno como outro qualquer.

É isso mesmo:
Aguardemos a minha inscrição.
Não me é possível assumir compromissos com muita antecedência, devido a problemas de saúde, mas...penso que em cima do dia 24 direi algo.

Muito obrigado pela visita.
Beijokas.

11:13 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Há dois dias que tento mas não consigo comentar. Só para lhe dizer que continuo, como sempre, atenta leitora. Desta vez servida por belas citações.

12:25 da tarde  
Blogger blackangel said...

"a Vida é um estágio para atingir outro, que por sua vez se teria originado noutro, num contínuo fluxo, infinito..."

olá Augusto
Abraço ;)

1:53 da tarde  
Blogger Y. said...

claro que sim querido Augusto. de novo.


saí. regressei.



estou aqui.


de novo.


:)))))


a saborear esta "Vida".


antiga e renovada. pela tua mão.


obrigada.



sempre.


abraçossssssssssssss.

11:45 da tarde  
Blogger legivel said...

"Nada pode ser mais assombroso que a vida. Salvo a escrita."

Ibn Zerhani


Citação respigada do livro "Os Jardins da Memória" de Orhan Pamuk.

Óptimo fim-de-semana!

abraço.

1:00 da tarde  

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