sábado, março 04, 2006

Contabilizar o tempo

Segunda-feira, 6.30 da manhã de uma semana qualquer. Toca o despertador, com aquele som horrível, a lembrar-me que o tempo do sono acabou.
Levanto-me como impulsionado por uma mola, não vá a sonolência residual pregar alguma partida. Vou para a casa de banho, necessidades matinais, barba e banho, serviço completo. Visto-me rapidamente e vou para a cozinha preparar o pequeno almoço. Aqui abrando a velocidade, gosto de saborear a primeira refeição da manhã calmamente, enquanto oiço as notícias televisivas.
Saio, quinze minutos de marcha até à estação do comboio suburbano da linha de Sintra. Apanho o comboio, onde alguns dos viajantes ainda dão mostras de sonolência, aproveitando para gastar o último sono usurpado pelo despertador, outros de olhos abertos e com ar já cansado pela correria matinal, ostentam algumas remelas esquecidas pela pressa da lavagem, e outros ainda, os mais madrugadores aproveitam para lerem as notícias oferecidas gentilmente pela CP. A viagem, de pé, com movimentos acrobáticos para contrabalançar os solavancos do comboio, dura cerca de vinte minutos até chegar à estação de Entre Campos, (sem atrasos claro está).
Aqui, transbordo-me do comboio para o metro da linha Amarela. A primeira constatação de que estou num mudo civilizado, é a entrada para o metro. O povinho que aguarda a chegada da composição, finge hipocritamente uma aparente indiferença para disfarçar a sua determinação em apanhar o primeiro metro que apareça, custe o que custar, mesmo que tenha chegado em último lugar à gare, para em segundos, após a abertura das portas se comportarem como verdadeiras bestas, empurrando homens, mulheres, crianças, velhos, grávidas e aleijados, num turbilhão de violência onde emprega toda a sua animalidade. A viagem, pelo menos enquanto não passam as duas primeiras estações, é feita em apneia, não há espaço para respirar, de tão comprimidas as pessoas estão.
Transportado pelo metro da linha Amarela, chego à estação do Rato, cerca das 08.45, iniciando outra caminhada a pé de cerca também de quinze minutos até ao local de trabalho onde chego por volta das 09.00 horas. Entro às 09.30, a meia hora de antecipação é para prevenir qualquer possibilidade de atraso. A pontualidade sempre foi uma das minhas características.
Um dia no mínimo monótono e fastidioso, sempre as mesmas tarefas, os mesmos problemas, as mesmas soluções, repetir a véspera, ante véspera, a véspera da ante véspera e assim por diante, nada acontece de criativo que nos faça vibrar e gostar do que fazemos. A exasperação que alonga o tempo.
Às 18,30, abandono o trabalho e volto a andar quinze minutos até à estação do metro do Rato. Nova viagem para Entre Campos, sentado, pois entro na estação de origem do percurso.
Em Entre Campos, volto a transbordar-me para o comboio suburbano, como esta é a estação imediatamente a seguir à de origem do percurso, a viagem também é feita sentado. A sonolência da manhã é substituída pelo palrar dos telemóveis. Porque será que a esta hora as pessoas têm tanto para dizer? Pelo menos cerca de 10% dos passageiros transformam a carruagem numa gigantesca cabine telefónica.
Após vinte minutos de sinfonia telemóvel, chego à minha estação de destino e aí inicio outro percurso a pé de quinze minutos até casa, onde chego por volta 19.45.
Boa noite, beijinho, está tudo bem? Não há novidades? Vamos jantar enquanto vemos as notícias televisivas até às 21.00 horas.
Das 21.00 às 22.00 horas é tempo disponível para o convívio familiar, porque às 22.00 são horas de me deitar. Necessito de dormir cerca de oito horas, não é da idade, sempre fui assim. Noitadas não são comigo.
Assim foi o meu dia de segunda-feira, e será o de terça-feira, o de quarta-feira, o de quinta-feira e o de sexta-feira, em que não fiz mais nada do consumir o Tempo.
Chamam-lhe dias úteis, para mim foram inúteis. Dos sete dias da semana deitei fora cinco, restam dois, e como fiquei tão cansado a gastar o Tempo, dizemos que estes dois são os dias de descanso.
Ao fim de semana restam duas alternativas. Ou esqueço que a família existe, ou caso contrário na melhor das hipóteses tenho meio-dia para mim próprio, e mesmo para isso tenho de me levantar cedo.
Feitas as contas em dias, verifico que em 365 dias do ano só tive direito a 24 sem contar, claro, com os trinta dias de férias, que ficam dependentes das oportunidades.
Isto é a minha vida e julgo que a de muitos dos que me estão a ler, monótona, redutora, vazia, onde para sobreviver temos de nos renegar a nós próprios, esquecermos de que existimos, subalternizar os nossos anseios, as nossas dúvidas, a nossa aprendizagem, esquecer a necessidade do enriquecimento do espírito.
É este sindroma civilizacional que torna o homem num ser amorfo, limitado, não criativo mas procriado, circunscrito a ideias estabelecidas pelos outros, onde o seu pensamento é submetido à sociedade onde pertence. Um robot.
Valerá a pena para ser civilizado pagar tão elevado preço à sociedade?
Viver é uma passagem no tempo, em que cada um tem o seu, e se não o consegue utilizar ao invés de o consumir, de que serviu ter-lhe sido concedido esse tempo?

Este texto tem como fim servir de introdução a outro que ando a escrever sobre o tema o Tempo, ou melhor, a ausência Dele, que em breve aparecerá nesta banca.

19 Comments:

Blogger Mendes Ferreira said...

vou ausentar-me deste temporal para melhor mastigar o teu Tempo. Amigo.


( e se um dia o meu tempo já não for deste tempo hei - de lembrar aquele tempo em que me acolheste. simples. simplesmente. obrigado.


beijos. aos dois.

5:56 da tarde  
Blogger dulce said...

Essa viagem nos comboios da linha de Sintra trouxe-me recordações antigas. Até casar vivi nessa linha, e esse percurso q relatas era e continua a ser muito semelhante ao que recordo. Quanto à lufa-lufa do dia a dia de trabalho é verdade que sobra pouco tempo para a criatividade, para o tempo que deveríamos dedicar a nós próprios. O tempo para ler, o tempo para meditar, são tempos imensamente roubados ao outro tempo - aquele que nos devora os dias. Mas uma coisa é possível fazer. É conseguir sair de casa todas as manhãs com um sorriso. Apesar do trânsito, apesar das pessoas mal-encaradas, apesar do trabalho monótono, apesar das noites mal-dormidas, é sempre possível encontrar em cada dia um motivo - pelo menos um - para sorrirmos em cada manhã. Eu pelo menos, sempre consegui. Em cada dia há sempre alguma coisa que me faz ter vontade para viver mais um dia. E o sorriso nasce e ajuda a melhor viver a vida.
Beijos para ti e bom domingo

8:11 da tarde  
Blogger Daniela Mann said...

Não conhecia o blog, mas está muito bonito!
Bom fim-de-semana

11:26 da tarde  
Blogger Mitsou said...

Augusto, perfeita esta tua descrição de um dia de tantos nós. Demasiados dias e demasiados nós.
Costumo dizer que sou uma felizarda porque não tenho horários (mas tenho prazos!) nem patrão e adoro o que faço, mas não penses que por vezes não me invade, também, esse desalento pela falta de tempo...Esse Tempo de que fico à espera que nos fales :)

Beijinhos e uma boa semana.

8:53 da tarde  
Blogger lazuli said...

Augusto, embora de forma diferente, imagina a coincidência das escritas. Nem queria acreditar, e não é a primeira vez.
É caso para dizer "que las hay, las hay".
Adorei o teu texto...como não podia deixar de ser, por tantas razões. Um beijo. Fernanda.

3:42 da manhã  
Blogger HarryHaller said...

Um texto bastante elucidativo, pela descrição que faz da futilidade das nossas vidas. Enquanto a sociedade viver para e no trabalho, não haverá espaço para a criação. Pois como dizia o professor Agostinho da Silva "O Homem não nasceu para trabalhar, o Homem nasceu para criar"

Um abraço Augusto.

Lobo das Estepes

11:31 da manhã  
Blogger R/B Estação said...

É geral!
Vou ficar atento aos desenvolvimentos sobre este tema.
Uma boa semana.

2:19 da tarde  
Blogger perplexo said...

«a meia hora de antecipação é para prevenir qualquer possibilidade de atraso». Ay caramba!
Como te admiro, eu que sou um retardatário impenitente.
Abraço

10:00 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Querido amigO, estive meio ausente mas já estou voltando, pouco a pouco... E, para nao deixar totalmente o blog por estes dias, publiquei uma pequena publicidade, mas ja estou na ativa outra vez... Gostei de poder ler-te, como sempre!
Muitos beijos, flores e muitos sorrisos neste começo de nova semana!

10:59 da tarde  
Blogger Dad said...

O Chico Buarque lá dizia:

Todo o dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às 6H da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com boca de hortelã...

E a nossa lufa lufa do dia a dia é assim mesmo; os mesmos rituais da corrida contra o tempo até que um dia consigamos ter tempo para nós e não seja tarde de mais...
Beijinho,

12:52 da manhã  
Blogger A Rapariga said...

Muito bem descrito, embora me permita duvidar;)
Beijinhos

4:05 da tarde  
Blogger relampago said...

venho deixar um abraço. terno....

6:58 da tarde  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,
Este texto está mesmo muito bom.
Espelha bem as rotinas dos anos, dos meses, das semanas, dos dias, das horas.
Infelizmente a maioria das vezes é mesmo assim a vida de cada um de nós, cheia de rotinas, e vazia em conteudo.
Outros há, com mais sorte que devido à sua profissão conseguem quebrar esse tipo de vivência, ou melhor, sobrevivência.
Esses, por vezes nem se dão conta da felicidade em que vivem.
Abraço.

10:50 da tarde  
Blogger martelo said...

Apesar de tudo e do Tempo, vale a pena ler, quando se escreve bem a língua portuguesa e, só isso, merece o tempo...
um abraço

9:33 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Ainda hoje amigo Augusto, detesto o metro como transporte público. Utilizei-o muito poucas vezes e nas horas de ponta e já lá vão para aí mais de 20 anos sofri os efeitos da
boçalidade daqueles que atropelam tudo e todos para conseguirem entrar na primeira composição que surge na estação. Estou mesmo lembrado de que uma ou outra vez cheguei a ser separado da minha mulher porque ela sendo mais leve do que eu era empurrada pela avalanche de passageiros que a arrastavam para dentro da carruagem. Felizmente que de há catorze anos a esta parte trabalho a cerca de 7 minutos de casa e desloco-me em transporte privado, sem filas de transito ou qualquer outro tipo de incómodo. Direi mesmo detestei sempre os transportes publicos e tenho razões mais que suficientes para não os querer utilizar. Felicito-te por ainda conseguires dormir oito horas
coisa que já há muito me não lembro de conseguir fazer, apenas 4 a 5 horas e mal dormidas. Fico à espera do teu próximo conto. Com um abraço do Raul

11:07 da tarde  
Blogger susana said...

o augusto fez a seguinte questão: "Valerá a pena para ser civilizado pagar tão elevado preço à sociedade?"
eu reformulo:"Será que isto é ser civilizado?" O tempo é uma criação humana e parece-me que o feitiço virou-se contra o feiticeiro.

3:04 da tarde  
Blogger Zecatelhado said...

Pois!
É exactamente isso amigão, sem tirar nem pôr. Os DONOS do mundo transformaram-no nesta coisa sem sentido e arrastaram atrás de si todos os camelos que somos nós.
Eles sabem bem o que fazem; assim as pessoas estão transformadas em vacas autênticas, sem tempo para pensar, autênticos robots que se manobram à vontade dos senhores. Excelente relato.

Um @bração do
Zecatelhado

12:23 da manhã  
Blogger Cecília said...

quando me ponho a pensar nestas coisas vou sempre dar ao mesmo sítio - que sentido faz isto tudo? E será necessário que faça sentido? Como não encontro respostas, fico-me pelas interrogações...
Um grande abraço, Augusto.

7:23 da tarde  
Blogger Zecatelhado said...

Eu já tinha percebido quando o li pela 1ª vez: Este foi o melhor post que encontrei esta semana, por isso, e com a tua autorização, vai para o podium do Tadechuva.

Um @bração do
Zecatelhado

11:48 da tarde  

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