sábado, fevereiro 25, 2006

Filogenia dos ancestrais humanos
(continuação)

Homo habilis é o mais antigo espécie do género Homo. Existiu há aproximadamente ente 2,2 e 1,6 milhões de anos na África Oriental e foi contemporâneo dos Paranthropus boisei e rubustus.
As sua primeira evidências fósseis, um crânio, foram encontradas em 1972, em Koobi Fora nas margens do Lago Turkana, Kénia, com idade estimada de 1,8 milhões de anos.
O cérebro do Homo habilis apresenta uma capacidade craniana entre os 700 e 800 cm3, ou seja cerca de 30% maior do que o Australopitecos africanus.
O crânio apresenta um maior prognatismo (a amplitude da projecção da face para fora da caixa craniana), a proeminência da crista da nuca, e redução do tamanho das órbitas. Desaparecimento da crista sagital.
O dimorfismo sexual mais pequeno que no Australopitecos, ainda expressa uma significativa diferença de tamanho entre o macho e a fêmea. O macho habilis teria cerca de 1,30 metros e o peso de 37 Kg, e a fêmea 1,20 metros e 32 Kg.
O Homo habilis conhecido nos meios científicos como “handy man” (“faz tudo”) é qualificado como humano quase exclusivamente pela semelhança da anatomia do seu esqueleto com o nosso.
Muito pouco é conhecido do seu modo de vida ou capacidades mentais, ainda que tenha usado ferramentas de pedra conhecidas como Indústrias de Ferramentas Oldowan.
Fabricou toscos machados de mão e lascas de pedras para corte. A linha de fractura das pedras cria um plano de corte sobre a face capaz de retalhar completamente grandes animais.
A comida não estava facilmente disponível para o habilis que foi contemporâneo do boisei na África Oriental.
Não podia comer os mesmos vegetais que o boisei, dado em virtude da sua evolução as mandíbulas e dentes serem muito mais pequenos. Os grandes molares mastigadores, processadores de alimentos fibrosos rijos, reduzem de tamanho dando lugar ao desenvolvimento dos caninos e incisivos o que lhes passou a proporcionar uma dieta omnívora.

Como a carne é rica em calorias e nutrientes, perdeu a necessidade de ter um grande intestino como os primeiros hominídeos tinham, e esta energia passou a ser utilizada por outros órgãos, em particular o cérebro que devido a ela acelerou o seu desenvolvimento.
Devido aos seus dentes serem pequenos, o Homo habilis, quando comia auxiliava-se das mãos, especialmente se fosse carne.
O habilis tinha uma maior agilidade que os Australopitecos e para maior protecção contra os predadores moviam-se em grandes grupos.
A “Hipótese de Caça”. Segundo os antropólogos actividade da caça foi a pedra chave da evolução do humano primitivo, por lhe ter permitido seleccionar certos tipos de inteligência como, a coordenação, a agressividade e a imaginação.
Foi o Homo habilis um caçador de caça grossa e um competidor com sucesso contra os grandes predadores de África , leão, leopardo, hiena? Ou foi esta espécie uma oportunista caçadora de pequenos animais ou ainda um necrófago?
As presentes evidências não dão resposta à questão, mas o papel de necrófago parece ser o mais consentâneo.

Homo ergaster. Há cerca de 1,9 milhões de anos, outra linhagem do género Homo emergiu em África.
As evidências fósseis foram descobertas em Kobi Fora, Nariokotone (West Turkana) e Olduvai Gorge, datadas de 1,9 a 1,2 milhões de anos e foi-lhes atribuído o nome de Homo erectus.
Desde as primeiras descobertas do Homo erectus, foram detectadas diferenças entre as primeiras populações “Homo erectus” em África e as posteriores populações da Europa e da Ásia, o que levou muitos pesquisadores a separem em duas espécies distintas, Homo ergaster “Workman” para a primitiva africana, e Homo erectus para as posteriores populações da Europa e da Ásia.
Há dois milhões de anos, foi a Idade do gelo, que se espalhou pelos habitats da savana africana. Esta ocorrência teria proporcionado o aparecimento de muitos grupos Homo ergaster e viverem muito perto uns dos outros, para competirem entre eles pelos escassos recursos então existentes. Só havia duas escolhas, especializarem-se para criarem um novo nicho para eles ou imigrarem para qualquer parte para aliviar a pressão existente.
Uma parte do Homo ergaster escolheu emigrar tomando o nome de Homo erectus. Se cada ano se movesse em média 200 metros por ano, ao fim de 5.000 anos estariam fora de África no Médio Oriente. Assim ele poderia facilmente ter viajado à volta do mundo durante os 700.000 anos da sua existência.
Não há dimorfismo sexual entre os dois géneros do Homo ergaster, o que permite deduzir que ambos participam nas mesmas actividades, e o macho não tinha acesso fácil às fêmeas. Mais alto e musculado que os seus antecessores, a sua altura média era de 1,65 metros e o peso a rondar os 65 Kg.

A proporção entre os ossos dos braços e os das pernas eram como dos modernos humanos, opondo-se à proporção mais parecida com a dos macacos do Homo habilis.
Os quadris eram mais esbeltos e adaptados para andar e percorrer grandes distâncias.
Proeminência das sobrancelhas rugosas e a formação do pélvis idêntica à nossa.
O incremento do cérebro, com uma capacidade craniana entre 800 e 900 cm3, 74% do cérebro moderno, deu ao Homo ergaster uma inteligência maior que a dos seus antepassados, o que indubitavelmente o ajudou na adaptação nos novos habitats.
Os molares e pré molares são também de tamanho mais pequeno, o que caracteriza as criaturas omnívoras, cuja dieta inclui uma boa parte de carne.
É credível que as ferramentas de pedra não foram usadas principalmente para fins predadores, mas para cortar alimentos duros antes de serem ingeridos.
As ferramentas de pedra deste período são chamadas Kit de Ferramentas Acheulean, nome dado pelo lugar onde se instalou o Homo erectus chamado Acheu, em França.
Há cerca de 1,6 milhões de anos, um grande avanço tecnológico é alcançado na fabricação de ferramentas de pedra. São os bifaces, com os quais são construídos os famosos machados e cutelos. A construção destas ferramentas constitui uma enorme evolução da vida quotidiana desta espécie. Estava o caminho aberto para a feitura dos microlitos, a mais elevada tecnologia no fabrico de ferramentas de pedra.

15 Comments:

Blogger Zecatelhado said...

Mais uma excelente lição do nosso Augusto.

Um @bração do
Zecatelhado

5:23 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

augusto! vinte valores. post magnifico que já vem na continuação dos outros sobre o assunto.

abraço da leonoretta

6:14 da tarde  
Blogger lazuli said...

Ás vezes ponho-me para aqui a pensar que estes teus textos mereciam ser publicados num jornal, por ex.

Beijos

5:45 da manhã  
Blogger Leonoretta said...

augusto, o que me sugeriste ja está feito ha algum tempo. o pos improviso que sao as historias da ana e da leonor e as historias de quadro e giz que sao as historias da escola.

mas falta ainda linkar e tal... mas ja existem como blogs.

abraço da leonoreta

9:57 da manhã  
Blogger Marketeer said...

Conhece a cidade alentejana de Vendas Novas?

Temos a sua História e Património em exposição na Geração VN.

Passe por lá!

11:13 da manhã  
Blogger Å®t_Øf_£övë said...

Augusto,
Continuo a dizer-te que sempre que cá venho saio de cá mais rico porque aprendo sempre mais qualquer coisa.
És uma verdadeira enciclopédia.
Também te continuo a dizer que a "vida" tem muitos mistérios, e a mim parece-me que nunca deixaremos de descobrir sempre novos antepassados, é uma permanente descoberta.
Bom Carnaval.
Abraço.

11:26 da tarde  
Blogger polittikus said...

Uma excelente lição de história. Neste momento tenho a sensação, que estamos a desvoluir...

9:32 da tarde  
Blogger blackangel said...

cinco estrelas este post. combina na perfeição texto e imagens.
tudo muito bem arrumado, tal como na tua cabeça...

parabéns, nada mais a acrescentar.
bom carnaval;)

10:58 da tarde  
Blogger Bulbucus Íbis said...

Tenho estado distante mas distante estmos nós. Passei por aqui e como sempre aprendi mais algo,

11:53 da tarde  
Blogger Bulbucus Íbis said...

É sempre bom saber mais algo. Aqui aprende-se.

11:59 da tarde  
Blogger perplexo said...

Surpreendentes os pequenos tamanho e peso do Habilis, mas mais surpreendente ainda a ausência de dimorfismo sexual do Ergaster. É para mim uma revelação plena de potencialidades.
Só um pedido: se pudesses usar, tanto quanto possível, as denominações portuguesas como Vale ou Desfiladeiro Olduvai e Acheulense.
Abraço!

12:31 da manhã  
Blogger H. Sousa said...

Bom serviço à cultura.
Amigo Augusto, são mesmo nossos antepassados? Parecem tão semelhantes aos vindouros... (brincadeira!). Obrigado pelas suas palavras de compreensão lá no meu estaleiro.
Abraços

1:39 da tarde  
Blogger Passaro Azul said...

Quanto valor!
Como o admiro!
E como se aprende tanto ao voar por este espaço!
Parabéns Amigo. Continue a dar-nos as suas lições que eu estarei na 1ª fila atenta a tudo o que disser.
Um abraço com a maior admiração, respeito e amizade :)

10:31 da tarde  
Blogger lazuli said...

Augusto, aqui encontro sempre um sítio agradável e amigo, onde gosto de vir diariamente.
Hoje a gripezinha fez-me ficar em casa, e aproveito para reler-te e enviar um beijo de muita (muita mesmo) amizade e admiração. Fernanda

5:12 da tarde  
Blogger Fernando B. said...

Finalmente arranjei fôlego para estudar mais esta lição de Antropologia.

Muito grato, estimado Professor Augusto.

Um grande Abraço,

12:48 da manhã  

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