segunda-feira, setembro 05, 2005

Nem tudo o que luze é ouro



Nunca um adágio popular esteve tão certo, como quando assistirmos ao desastre provocado pelo furacão Katrina nos Estados Unidos. A Mãe Natureza que até aqui parecia querer descriminar os que flagelava, ficando-se pelos pobres, como se os ricos estivessem imunes aos seus estragos, resolveu rever a sua actuação e mostrar que tanto os pobres como os ricos, especialmente estes por serem quem mais a agride, estariam todos à sua mercê.
Quando, na devastação provocada nas zonas pobres atingidas pela fúria dos elementos, verificamos o estado deplorável em que as populações ficam e escassez de ajuda a que ficam sujeitas, acabando muitas delas por sucumbirem pela falta de assistência, rotulamos o local como terceiro mundista, onde os valores humanos não contam.
Tudo isto admitimos com naturalidade, quando vimos as tragédias das cheias na América do Sul ou em África, e até não nos impressiona muito se a comunicação social não fizer disso romance.

Mas nos Estados Unidos, na nação mais rica e poderosa do mundo, a nação da democracia, dos valores humanos, da respeitabilidade pelo cidadão, do altruísmo, enfim, tudo o que eles apregoam que são, ocorrer em face de uma tempestade, devidamente motorizada, completamente previsível até ao mais pequeno detalhe, só falhando o prognóstico da intensidade que foi inferior ao previsto, uma tragédia humana igual às que ocorrem no terceiro mundo, era impensável.
O mundo nem ficaria chocado com actuação propriamente da Natureza, pois já vai sendo hábito ocorrências dessas, mas dispondo de todos os recursos materiais possíveis e abandonar os sinistrados à sua sorte durante dias, sem fazer o mínimo esforço para dar o mínimo necessário para sobreviver, como água, repito a água, que não custa nada, enquanto o seu presidente continuava de férias, ficamos todos de boca aberta.
Fechámos a boca ao vir-nos à ideia que os Estados do Sul já poderiam não fazer parte da confederação, realizando um antigo sonho e que os Ianques voltavam a repetir as acções como da primeira tentativa. Mas pelos noticiários verificámos que não, tudo continuava na mesma, quem sabe uns mais americanos do que outros, mas isso é problema deles.
Mas se os factos só por si nos pareciam um pesadelo difícil de aceitar, ao assistirmos ao apelo que América fez à Europa, pela Sky News, pedindo toda a ajuda possível, cobertores, comida etc. como é hábito se fazer para os países mais pobres de África, como a Etiópia, isto era inimaginável.
Mas afinal quem são os Americanos? Tudo não passa de uma fachada, encenada por Hollywood? Tanta força militar, tantos biliões ao serviço da guerra e dos interesses, tanta arrogância, e a final não passarão de uns pobretanas?
O Katrina foi um mal que veio por bem, possibilitou-nos ver o americano que desconhecíamos, foi uma espécie de descobrir a careca.
Nunca foi imaginável ver os americanos estenderem a mão à caridade, será que até vão aceitar o auxílio oferecido pelos Chavez e pelos Castros? Penso que não, não passando tudo isto de uma manifestação da sua desorganização interna.
Esta prova de desorganização manifestada, vem por em causa toda a sua logística civil, ficando-se só pela segurança dos canhões e das bombas. E se em vez de uma tempestade o desastre humanitário tivesse sido provocado por uma bomba inimiga?
Os americanos nunca tiveram a guerra em casa, fizeram-na sempre na casa dos outros, são mesmo capazes de não estar preparados para essa eventualidade. Na segunda Grande Guerra Mundial enquanto os soldados americanos combatiam e morriam na Europa e na Ásia, na América o compasso do dia a dia era marcado pelo swing, enquanto os senhores enchiam os bolsos com o negócio da guerra. A guerra o que é isso?.
Mas voltemos ao presente, e no presente aconteceu o inimaginável, a América mostrou a sua vulnerabilidade. No futuro próximo, este deslize vai-lhe custar caro.

este texto é publicado simultaneamente no Da Mão para a Boca

Fotos Reuters

10 Comments:

Blogger sal said...

Terá sido uma consequência Karmica?
Mesmo assim nenhuma nação está imune à furia dos elementos.
è triste ver o sufrimento humano, :(
Na nação mais poderosa do mundo, é onde existe mais pobreza...

1:02 da manhã  
Blogger Paula Raposo said...

Subscrevo inteiramente as considerações que fazes neste artigo. Beijinhos

9:43 da manhã  
Blogger paopbocca said...

é de lamentar que na nação que se diz a maior potência no mundo, com todos os recursos humanos,dinheiro e mais as balelas todas que nos impingem, os sinistrados continuem a morrer todos os dias, ou à fome, ou à sede , ou de doença. só um cenário comparável em países do terceiro mundo.
por vezes, ao ver as imagens que passam na televisão, julgo estar em qualquer país de Africa.
impressionante.

4:43 da tarde  
Blogger Leonnoretta said...

a questão, augusto, é que o planeta autoregula-se (eu acredito na teoria de geia. o ar, as rochas e os oceanos estão em unisono e qualquer especie que ameaça o ecossistema levará pela medida grossa. tivemos no principio do ano o tsunami. penso que contra a natureza nenhuma potencia mundial faz frente.
abraço da leonor

4:54 da tarde  
Blogger rajodoas said...

Não lhe vou dar novidade nenhuma mas a natureza ou melhor os elementos que a compõem normalmente criam as suas auto-defesas contra algumas adversidades. Estou-me a lembrar por exemplo de alguns arbustos e outras plantas que são habitualmente dizimadas pelos erbivoros, os quais criam defesas para preservar a espécie como por exemplo desenvolverem espinhos ou substancias químicas venenosas para combaterem os seus predadores. Eu sei que a comparação é no mínimo caricata mas vou avançar com ela.
Os EUA são os principais agressores
da atmosfera pela qual é assegurada a sobrevivência dos seres
vivos, através dos poluentes que nela são lançados.
E são eles normalmente quem são mais fustigados por estas catástrofes naturais. Pode ser que um dia o poder político se lembre disso e modifique o seu procedimento aceitando cumprir as regras definidas pelo protocolo de Kioto ou outro mais rigoroso que venha mais tarde a ser aprovado. As minhas desculpas pela extensão do comentário. Com um abraço do Raul

5:25 da tarde  
Blogger Cecília said...

O quadro já está visível. Quando quiseres podes ir ver. Fico à espera de saber a data do teu aniversário.
Muito interessante este teu post. Sobre a América li, hoje, um texto excelente que não resisto em copiá-lo para aqui:

A América tal como ela é

Aqueles que dos EUA conhecem um bocadinho mais do que Manhattan já sabiam há muito que aquilo a que impropriamente chamamos Terceiro Mundo é parte integrante da paisagem americana.

A profundidade e extensão da miséria que presenciei em Filadélfia e Baltimore, por exemplo, já não existe de todo nos países europeus mais desenvolvidos - nem sequer, aliás, em Portugal.

A América não gosta dos pobres - nem dos deles nem dos dos outros - porque presume que eles têm o que merecem: se são pobres, alguma coisa terão feito (ou deixado de fazer) que o justifica. Para o fundamentalismo evangelista, a pobreza é filha do pecado.

Outra coisa que deveria ser sabida, mesmo dos que apenas estiveram em Nova Iorque, é a má qualidade genérica das infra-estruturas e dos equipamentos públicos, fruto do desleixo a que foram votados na gloriosa era das presidências Reagan e Bush pai.

Valha a verdade que, desde então, houve uma notória inversão de atitudes, e que George W. Bush deu, nesse aspecto, continuidade às politicas de Clinton, a tal ponto que o crivo a que são actualmente submetidos os investimentos públicos federais é, genericamente, muito menos apertado do que na Europa.

Ainda assim, o facto é que os diques que protegiam a cidade de Nova Orleães ruíram, e que o líder dos Republicanos na Câmara dos Representantes sustentou que a reconstrução da cidade não é uma responsabilidade do Governo federal.

// posted by João @ 10:49 PM'

in 'Blogo Existo'

Um abraço.

8:33 da tarde  
Blogger armando said...

Excelente texto. Dá que pensar. Mesmo assim, suspeito que se fosse aqui as coisas seriam ainda pior.

8:24 da tarde  
Blogger lazuli said...

É o país dos contrastes. Nova Orleans, principalmente, maioritariamente habitada por negros, teria alguma vez as mesmas hipóteses de ajuda imediata e eficaz, se o desastre tivesse ocorrido em Hollywood?
Um texto muito bom, Augusto.

1:11 da manhã  
Blogger Adryka said...

Meu amigo , há um ditado que diz no bom pano cai a nódoa, quem n/ falha não é humano.
Beijo e Bfs

10:06 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Augusto amigo, tambem gostei do teu texto... nao tenho ideia exata do que foi propagado afora dos Estados Unidos no que se refere ao Furacao Katrina, mas sei o que se passou aqui... mesmo aqui ficamos todos impressionados de ver a "mendicancia" daqueles seres humanos, tao americanos quanto os outros, tao "superiores" como todos os outros, ou pelo menos tao superiores como creem que sao... a mim me pareceu algo inacreditavel, ver pessoas estendendo a mao, como dissestes, pedindo auxilio como em nossos paises, como em meu Brasil... nao imaginei jamais em minha vida, poder ver uma cidade americana submersa sob mais de 20 pes de agua suja e impropria para o consumo... a explicacao? tantos metros abaixo do nivel do mar, mas como eu disse em meu texto, foi um desastre previsto com dias de antecipacao (com a gravidade exata), e mesmo, com mais de um ano de antecipacao, sem, logicamente a dimensao do ocorrido, mas de todas formas, previsto... Horrorizou-me a conduta ja pouco confiavel do Presidente Bush, para ele tudo esteve "dentro da normalidade", e elogios inclusive foram feitos de que os responsaveis por solucionar os problemas causados pela catastrofe estiveram trabalhando "24/7" como se diz aqui, 24 horas, 7 dias da semana... mas... sera? sera que se de fato estivessem trabalhando tantas vidas haviam sido "roubadas" por um desastre natural previsto? A arrogancia dos cidadaos deste pais eh algo fora do comum... sabe quem convive diariamente com eles... educados dentro das normas formais de educacao, mas educacao eh mais que isso... nao eh assim? No Brasil ha um dito que diz "atire a primeira pedra que nao tiver pecado"... ousei a atirar a minha pedra, porque o "pecado" da falta de amor ao ser humano, ao irmao, este eu nao levo dentro de mim, e posso sim, identifica-lo facilmente quando o vejo... e nao o aceito, porque sob o meu ponto de vista, somos todos iguais, nao somente perante a Lei e a Constituicao, como se fala tanto por aqui, mas perante o Amor d'Aquele que criou o homem com sentimentos e capacidade de dicernir o bem do mal...
Parabens tambem pelo teu texto!
Deixo-te um beijo amigo e todo o meu respeito!

11:01 da tarde  

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