quarta-feira, abril 13, 2005

A resposta que não dei



Inquirido há dias pela minha filha do que haveria para além da morte, na altura não lhe dei uma resposta imediata, por não ter encontrado uma formula que me parecesse muito convincente, mesmo para mim próprio. Não são respostas fáceis, sobretudo pela forma como eu encaro, digamos assim, o problema.
Depois de alguns anos de estudo das diversas religiões, em especial as mais espirituais, o estudo de alguns filósofos da Antiguidade, a abordagem científica da criação, e meditar muito sobre o assunto, acabei por formular a minha própria opinião, que agora, sim, passo a expor.

Nada pode deixar de existir que não tenha já existido, como nada existe que não tenha inexistido. Não podemos dizer que uma coisa tenha deixado de existir sem que a não tivesse-mos conhecido. Também uma coisa só passa a existir, partindo da não existência.
O existir e o inexistente, são indissociáveis, existem simultaneamente, justificando-se mutuamente. É nesta dualidade que reside a manifestação do conceito de vida, como a individualização do que é indivisível. A vida procura individualizar-se no nascimento e tornar-se indivisível com a morte.
A ideia de lâmpada pressupoe a ideia de luz e a falta dela. Ora se uma lâmpada estiver apagada no escuro, o escuro provocado pelo apagamento da lâmpada não é perceptível, mas existe, está somente fazendo parte da totalidade do escuro.
Se pensarmos que a luz da lâmpada existe por oposição ao escuro, concluímos que sem a existência dos dois estados não haveria lâmpada. Ela não é criada, não é mais do que uma manifestação de algo da inexistência.
O mesmo se passa com a vida e tudo o que existe, tudo é proveniente da dualidade entre a existência e a inexistência, ou seja, nada foi criado e se nada foi criado não existe criador, e sem criação não existe fim.
O que resulta da dualidade existência e inexistência, é o tempo, mas o tempo por ele próprio é intemporal, e ser intemporal é ser indefinido, então também não existe.
O nosso tempo é um tempo do tempo sem medida, o intemporal, logo somos intemporais também.
Já Platão no seu Mundo das Ideias afirma que todas as manifestações são ideias existentes incriadas.
O passado por ser passado não existe, o futuro por ser futuro ainda não existe também, ficando o presente reduzido a essa linha imaginária, que delimita o passado do futuro. É nessa linha imaginária que alguns reconhecem a ilusão do mundo.
O nosso tempo, a nossa "existência", não existe, não somos mais que uma parte do tempo intemporal. Não aparecemos com o nascimento, assim como não desaparecemos com a morte.
Nós não temos a consciência do todo a que pertencemos nem da nossa incriação, tal qual o escuro da lâmpada apagada não tem consciência do escuro por fazer parte indivisível dele.
Toda esta reflexão pode parecer um jogo de palavras, mas não o é se pensarmos bem, nós somos prisioneiros do mundo dos sentidos, o mundo da ilusão, para além dele
fica o todo existencial inexistente de que fazemos parte, mas de que não temos a percepção por fazermos parte dele mesmo, é como uma gota de água no oceano, ela existe mas não se reconhece na medida em que faz parte do todo oceano.
A morte, dita física para uns e o fim de tudo para outros, não é mais que mudar de tempo, deixar de existir o tempo e tornar-se intemporal. Não há fim porque não há princípio. Tudo existe em tudo, porque tudo faz parte de tudo.
Não há nada acima de nós, porque fazemos parte de um todo existente e o mesmo tempo inexistente.
A dificuldade desta reflexão, deve-se aos sentidos, que nos aprisionam no mundo do tempo, por conseguinte, da ilusão, bloqueando-nos inexoravelmente a abstracção do pensamento, dificultando-nos o expressar do nosso intuir.

Este texto é dedicado à minha filha Patrícia, mais conhecida por Trintapermanente.

19 Comments:

Blogger trintapermanente said...

ja li, masvou voltar muitas mais vezes para reler. beijiho

4:23 da tarde  
Blogger jorge said...

ó augusto!:
não há texto que não seja um jogo de palavras e um exercicio/salto (ou uma tentativa...), a questão é se as regras/rédeas são curtas ou se o impulso é para dentro do seu sentido, ambicioso e simples, objectivo e claro.
como este.
não poderia estar mais de acordo contigo. é na aceitação dessa realidade maior, (por oposição à construção de cenários idílicos e moralmente superiores que só contentam os descontentes profundos...), que moram soltas e sérias perspectivas.
o poder do momento.
a noção pressentida do maior.
o pouco tamanho que assim aumenta ao conhecer-se.

um grande abraço
e bons dias de primavera!

4:32 da tarde  
Blogger jorge said...

ps - a tua filha é uma pessoa com sorte!

4:33 da tarde  
Blogger hamy-pros-friends said...

por isso é muito bom estar vivo

10:07 da tarde  
Blogger Alexandre Narciso said...

E como é dificil falar assim de um tema tão duro e controverso como o é a morte... a vida é de facto um milagre.
Forte Abraço

11:53 da tarde  
Blogger Biranta said...

Ainda bem que percebi que a filha não é criança nem adolescente. Ao ler o texto temi pelo seu impacto numa cabeça menos amadurecida (embora, nessas matérias) os jovens e as crianças nos consigam surpreender muito frequentemente.
Mas eu vim aqui por outro motivo: as "nossas" discussões em "Na mesa do Costume". Acho que não há motivo para interiorizar, pela negativa, a "fraca participação". Estas coisas são assim mesmo. Falo por mim: nem sempre comento o que mais me agrada, exactamente porque me agrada. Aliás, tenho verificado que, neste mundo da blogoesfera, existe muita gente à procura de "se encontrar", por isso não me espanta a "fraca participação". Estas coisas são mesmo assim: começam pequeninas e, às vezes, levam tempo a crescer. às vezes, as pessoas vão atrás do "que está na moda", por comodismo (ou por uma questão de "conforto psicológico"). Seja como for, quer eu tenha razão, ou não, acho que não se deve inibir, amigo Augusto. Se fosse comum as pessoas fazerem o que é correcto e necessário, não estaríamos nesta situação deplorável, rodeados de tanta confusão...

12:57 da tarde  
Blogger Gustavo Almeida said...

Interessante e bem pensado exercício de lógica da nossa existência. Todos os pensamentos que aqui deixou vertidos sobre a existência, os sentidos, o passado, o presente e o futuro, ajudam-nos a meditar acerca dos mesmos.

Será que, no entanto, se chega a alguma conclusão?

A ver vamos.

Continue!

2:07 da tarde  
Blogger Paula said...

Realmente, é mesmo bom estar vivo...Bela dedicatória!!!!

Parabéns, e Bravo!!!

http://divinadecadencia.blogspot.com/

11:53 da tarde  
Blogger AnaP said...

Ai, Augusto... com esta é que eu fiquei sem palavras. Existimos ou não, afinal?... Olha, seja como for, e por causa das coisas, há que viver a vida enquanto a sentimos. Um beijinho!

1:34 da tarde  
Blogger Cecília said...

É-me muito difícil comentar este artigo. Se calhar é preguiça... não, acho que não, é mais não querer entrar por campos em que me movimento muito mal.
Ahh! mas há uma coisa que não quero deixar de dizer: Parabéns à filha!

6:29 da tarde  
Blogger Biranta said...

Sou mulher, amigo Augusto! Já o disse algums vezes; a maioria das pessoas não dá por isso, enquanto que para alguns(mas) é evidente. Eu não me importo, porque acho que o facto de as pessoas não me identificarem como mulher me permite, com mais àvontade, escrever "merda", quando se justifica, sem melindrar algumas sensibilidades. E como a gente não deve melindrar mais do que o necessário...

12:13 da tarde  
Blogger Leonoretta said...

aterrei aqui de pára quedas.
ideias interessantes acerca de um assunto completamente desconhecido para nós...
texto para ser lido e analisado parágrafo a pra´grafo pela sua grande dimensão mas...
ou li mal ou não concluiste.

2:45 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Gostei muito da tua resposta, caro Augusto, há muito do que eu também penso nestas tuas palavras!
Deixo-te um beijo amigo e o desejo de um fim de semana fantástico!

6:52 da tarde  
Blogger BlueShell said...

OLHa....a tintapermanente é tua filha??? hehehe..não sabia!

Há respostas..que não são fáceis...
É como a vida: não é fáci...

Deixo um beijo fresco com sabor a sol e a mar.
BShell

2:04 da manhã  
Blogger trintapermanente said...

resta saber então para quê os 5 sentidos. porque é que não existimos e/ ou somos apenas. em vez de termos varias formas/ estagios/ percepções...? se todos nós somos UNO porque é que nem todos têm consciencia da existencia universal?

2:50 da tarde  
Blogger Fernando B. said...


Não aparecemos com o nascimento, assim como não desaparecemos com a morte

"Na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Lavoisier estava/está certo. Tudo o que vemos ou que poderemos sentir, só acontece, enquanto, cada um de nós, minúsculo átomo do meio envolvente ou ínfima parte de um todo, permanecermos nesse estado, até sermos "reciclados" para outras tarefas.

Este teu ensaio filosófico merece uma profunda reflexão e como tal não é fácil comenta-lo.

Sem o Espírito seria possível a coexistência, dos quatro elementos?

Será o nosso EU, uma ínfima parte de uma Alma infinita? Atrevo-me a aceitar que sim.

Por hoje é tudo, já tenho a minha conta...

Um Abraço deste eterno Aprendiz,

6:38 da tarde  
Blogger Cecília said...

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

10:12 da tarde  
Blogger Cecília said...

Não Augusto, não há preguiça nenhuma... este é o resultado de muitas interrogações que, obviamente, não obtiveram resposta. Fixei-me num agnosticismo a que cheguei para admitir uma ínfima percentagem de probabilidade de a morte não se reduzir a fecharem-nos numa caixa escura, às 2 badaladas e um balde de cal. Mas muito sinceramente, tenho muitas dúvidas que possa ser algo diferente disto.

10:16 da tarde  
Blogger Raquel V. said...

"O nosso tempo, a nossa "existência", não existe, não somos mais que uma parte do tempo intemporal. Não aparecemos com o nascimento, assim como não desaparecemos com a morte."


É no que acredito... somos, estamos, viajamos, vivemos... seja qual for o verbo que possamos escolher. SOMOS!

9:06 da manhã  

Enviar um comentário

<< Home