quinta-feira, abril 07, 2005

Catulo e Lésbia



Gayo Valério Catulo (87-54 a.C.) era natural de Verona, na Gália Transalpina. Pertencia a uma família abastada e influente. Seu pai era amigo de César, o que manifestamente lhe desagradava.
Estudou em Roma, onde passou grandes temporadas até que se estabeleceu definitivamente em 62 a.C., introduzindo-se rapidamente nos ambientes da nobreza mais refinada e nos ciclos literários, principalmente dos seus amigos neotéricos. (Grupo de escritores que seguindo os modelos helenísticos, combinaram a perfeição formal com a erudição que exploraram novas formas métricas e linguísticas para tratar temas amorosos e eróticos).
Catulo foi o pioneiro da poesia onde o "eu" do poeta quebra os laços da severa disciplina cívica e familiar tão querida dos Romanos, comprovando também o desaparecimento das antigas virtudes romanas.
Em Roma com a idade de 20 anos, entregou-se a essa caça dos prazeres que homens como Catilina tinham posto em moda. Viveu inúmeras aventuras com cortesãs ou mulheres casadas e encheu-se de dívidas. Foi neste meio debochado que encontrou o grande amor, paixão devoradora que fez dele um inspirado poeta. Lésbia.
Lésbia foi o nome que deu a uma senhora romana de boa linhagem, cujo o seu verdadeiro nome era Clódia. Era irmã do tribuno do povo Publio Clódio, o herói da populaça romana, e a sua reputação não era de modo algum melhor do que a de seu irmão. Um dia Cícero defendendo um dos seus numerosos amantes, aproveitou a oportunidade para lhe dirigir algumas palavras ferozes: «Eu não sou, evidentemente, inimigo das mulheres, e menos ainda de uma mulher que é a amiga de todos os homens.»
Todos admiravam a beleza de Clódia. Era casada, mas, para os corrompidos costumes da época, o facto não era um obstáculo às inúmeras ligações, tanto mais que o marido era um velho aborrecido e pouco simpático. Roma tornara-se a mansão dos libertinos e das mulheres adúlteras. A «castidade é uma prova de fealdade», dizia-se então.
O jovem poeta tornou-se vítima daquela perigosa mulher:
«Tu prometes, minha vida, que este nosso amor há-de ser delicioso e perpétuo entre nós. Ó grandes deuses, fazei que a sua promessa seja verdadeira e que, do coração, sinceramente, tenha dito estas palavras.»
Clódia era dez anos mais velha do que Catulo. O que, para o jovem, se tornou uma paixão devoradora não deve ter passado, para esta mulher madura e cheia de experiência, de um episódio rapidamente esquecido.
Ao fim de pouco tempo adivinha-se um certo sentimento de suspeita abrir caminho através da embriaguez sensual do jovem poeta:
«Dizias outrora que só amavas o teu Catulo e que, de preferência a mim, não querias enlaçar o próprio Júpiter. Mas agora sei quem tu és: e, por isso, ainda que o meu desejo seja mais ardente do que nunca, és para mim, no entanto, mais desprezível e ordinária.»
Passado algum tempo, as suspeitas de Catulo confirmavam-se. Ao visitar o velho pai, soube que Clódia tinha um novo amante. Louco de angústia, o poeta volta para Roma, para aí adquirir a certeza de que Lésbia já não lhe pertence. Rufo, embora amigo de Catulo, aproveitara a sua ausência para o substituir no coração da formosa mulher.
Catulo sucumbiu às suas paixões. Morreu em 54 a.C., apenas com a idade de 30 anos.
Foi o principal representante da corrente literária dos poetae novi o neoteroi, denominação depreciativa dada por Cícero, quando se referia a estes poetas, influenciados pelos alexandrinos gregos.
Os poemas de Catulo podem-se classificar em três grupos de acordo com os motivos que os inspiraram.
1. Poemas mitológicos eruditos de clara influência alexandrina.
2. Poemas satíricos e epigramáticos, os que são mordazes com os seus inimigos e crítica da sociedade da sua época, incluindo os políticos.
3. Poemas líricos e elegíacos, que tratam com expressão sincera dos seus sentimentos, da amizade e do amor.
Salvo as composições do primeiro grupo, todas as outras têm um carácter autobiográfico, destacando as que relatam a sua infeliz relação com a amada Lésbia e arremetem contra os seus rivais. Catulo revela-se como um verdadeiro mestre tanto na expressão do mais íntimo, como no impropério mais grosseiro.
Curiosidade. A música coral "Fortuna Imperatrix Mundi que abre e encerra o oratório secular Carmina Burana, garantiu a popularização da obra de Carl Orff. Ela deu início a uma trilogia chamada “Trionfi”, que se vai completar com duas cantatas cénicas chamadas “Catulli Carmina” – Canções de Catulo- e “Trionfi de Afrodite”.
Orff desenvolveu o enredo da sua cantata utilizando doze poemas de Catulo. O Prólogo de Catulli Carmina” é interpretado por um coro de jovens, homens e mulheres, que exaltam seus anseios sexuais.
Versos de Catulo
V
Gozemos a vida, Lésbia, fazendo amor,
desprezando o falatório dos velhos puritanos.
A luz do sol pode morrer e renascer
mas a nós, quando de vez se nos apaga a breve luz da vida,
resta-nos dormir toda uma noite sem fim.
XXV
Talo, ó paneleiro, mais mole que pêlo de coelho,
que medula de ganso, que lóbulo de orelha,
que a porra flácida dum velho e que uma teia de aranha;
ó tu, que és ao mesmo tempo mais rapinante que a túrbida procela,
quando a lua os putanheiros bocejantes alumia,
restitui o manto que me roubaste
e o lenço de Sétabis e os bordados da Bitínia,
que tens o hábito de ostentar, imbecil, como bens de família.
Desgruda-mos já das tuas unhas e devolve-os,
para que chicotadas queimantes te não marquem de indignidade
o branco flancozinho e as delicadas mãozinhas,
e não estues insólito como frágil barquito
por um vento raivoso em mar apanhado.

9 Comments:

Blogger Águas de Março said...

Augusto,mais um óptimo texto que li com imenso prazer. E ainda me estou a rir com a eloquência do Catulo (traduccão tua?), que não tinha papas na língua, o mocinho!
Em relacão às Carmina Burana,(não as do Orff) se estiveres interessado nos textos e melodias originais(laboriosamente reconstruídos) diz, que eu tenho.
Um abraco,
Ana

10:11 da tarde  
Blogger susana said...

Cada dia gosto mais de ler este blog. Parabéns.

9:43 da manhã  
Blogger vanrose said...

Já leste os livros "O primeiro Homem de Roma" da Colleen McCullough? São geniais!

11:21 da manhã  
Blogger Alexandre Narciso said...

Devorei o texto Augusto e estamos em sintonia. Eu a fazer a crónica de Roma e tu com "Catulo e Lésbia". Nem de proposito :)
Abraço e obrigado pelas dicas

2:28 da tarde  
Blogger stillforty said...

Paneleiro? Mas iso diz-se? Num blog tão erudito dizer paneleiro é feio.
Catulo e Lésbia, pois...
Por esta passa.eheheheh

2:39 da tarde  
Blogger Cecília said...

Gostei muito ler este texto sobre Catulo e Lésbia. A propósito, Lésbia não era também o nome da ilha onde viveu Safo?
Pois caro Augusto, H. V. Karajan como homem devia ser de fugir. Dizem as más línguas que, para além do mais, tinha um feitio horrível nem permitia que houvesse mulheres na Filarmónica de Berlim enquanto ele a dirigiu. Agora como director de orquestra era genial. Creio que este é o único com quem consigo condescender, até porque não teve um papel muito activo, ao cotrário da Lennie Riefenstahl.
Um resto de bom fim de semana.
Um abraço

9:36 da tarde  
Blogger BlueShell said...

Sempre que aqui passo...é uma surpresa...nunca sei o que vou encontrar e...aprender. Parabéns Augusto. E eu...fotografia? Estou a dar os primeiro passos...nada sei do assunto...só sei que GOSTO!!! geghehehehh
Jinho, BShell

11:43 da tarde  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Gosto muito!
Beijinhos!

6:11 da tarde  
Blogger Carolina said...

passando pelo google, à procura de informações sobre Catulo, encontrei seu blog.
obrigada pelo esclarecimento. =)

5:27 da manhã  

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