sábado, fevereiro 03, 2007

Bramanismo
(segunda parte)


Com a decadência do Vedismo, emerge o Bramanismo que se estende até inícios da era cristã. O nome relaciona-se com Brahama e com a classe sacerdotal dos brâmanes, em torno da qual se constitui essa tradição.
Brahma a “alma universal”, o ser absoluto e incriado, mais um conceito da totalidade que envolve as coisas de que um deus. A verdadeira natureza da criação, presença eterna, origem e substância de tudo que quando permeia o corpo físico individual, é chamado Atman, Eu.

Atman é Brahman. Essa presença eterna, embora permeando o corpo, não age, mas é o agir do corpo; não vê, mas é o olhar do olho, não sente, mas é o sentir do corpo. Por Ele estar num corpo, a ignorância (avidya) produz a noção do Eu, Atma, limitado com as características e qualidades do corpo e o sentimento de ser agente da acção.
Da mesma forma, por causa do Eu estar em todos os corpos da criação, o véu da ignorância (Maya) faz parecer que há um Eu para cada corpo. Maya significa ilusão, artifício, encantamento. É aquele que produz aquilo que não existe. Como véu, Maya encobre a apreciação de nossa verdadeira natureza divina em relação ao Absoluto (Brahman), toda a criação é maya, é ilusória. Ela não se reconhece como sendo da mesma natureza do Absoluto e então confunde o mundo e o mundo parece real.

O cerimonial enriquece-se notavelmente sob a direcção dos brâmanes. Os cultos adquirem poder mágico. As ideias de Samsara e Karma, assim como as especulações filosóficas sobre a origem e destino do homem, nascem nesta altura.

O conceito de castas, herdado dos Vedas, converte-se na principal instituição da sociedade, sendo a casta mais elevada a dos Brâmanes.

A visão bramânica do mundo e tal aplicação à vida esta descrita no livro do Manusmrieti (Código de Manu), elaborado entre os anos 200 a.C e 200 da era cristã. Manu é o pai original da espécie humana. O livro trata inicialmente da criação do mundo e da ordem dos brâmanes; depois do governo e de seus deveres, das leis, das castas, dos actos de expiação e, finalmente, da reencarnação e da redenção. Segundo as leis de Manu, os brâmanes são senhores de tudo que existe no mundo.

Na época pós-védica, os Upanishads continuam a ter aceitação, mas os Brâmanas e os Sutras são considerados técnicas “escolásticas”. Nessa altura, os textos sânscritos que dão o tom são de dois géneros: os épicos (com as duas intermináveis epopeias do Ramaiana e o Maabarata, este último contendo o Bagavagita, ou “cântico ao bem-aventurado”, um dos mais comentados e os Puranas, ou «Antiguidades», compilações teológicas com pretensões históricas que florescerão até ao aos séculos XII e XIII da nossa era.
Ramaiana significa As Aventuras de Rama e relata em cerca de vinte e quatro mil estâncias, as façanhas do deus Vishnu, o Preservador, quando em sétima encarnação apareceu como o príncipe Rama, para salvar a humanidade.

Maabarata, ou A Grande História dos Irmãos, narra os acontecimentos de outra encarnação de Vishnu, como Críxena. São de difícil entendimento, expondo tanto a doutrina, quanto acontecimentos históricos do país. O Maabarata ficou famoso e até hoje é consultado, mesmo fora da Índia, devido ao relato do 18º dia de uma batalha, durante o qual o general Arjuna discute com seu cocheiro Críxena o significado da vida e da morte. Tal narrativa é conhecida como Bhagavad-Gita, ou Cântico do Bem Aventurado. Mahatma Gandhi dizia que quando as decepções o avassalavam e não conseguia vislumbrar nenhum raio de luz, recorria ao Bhagavad-Gita, único bálsamo para suas desesperanças.

Durante esta época, o sacrifício individual torna-se público, regulamentado pelo sistema de castas.

O antigo panteão não é abolido, mas transforma-se e esbate-se diante de Brahma. A religião acumula as especulações e tende evoluir em filosofia.

A noção de trindade, ou Trimurti, surge progressivamente. Brahma, o criador, Vixenu, o conservador e Shiva, o destruidor.
Brahma, o vermelho, cavalgando um flamingo, tornar-se-á cada vez mais abstracto.
Vixenu, desloca-se no seu pássaro mágico Garud, com cabeça humana, será cada vez mais popular, não só como conservador, mas também nas suas encarnações, quer como Krisna, o encantador deus flautista que seduz as pastoras, quer como Rama, o príncipe épico.
Shiva, montado no touro Nandi e cuja cabeleira deu origem ao Gamges, continua a ser o destruidor temível, senhor da morte e do erotismo, perito em magia e em Yoga.
Asceta ou gozador, é tão inquietante como algumas das suas mulheres (Kali, a sangrenta, será patrona dos Tugues estranguladores e exigirá sacrifícios de recém-nascidos). É ele quem, a cada aniquilamento, executa os passos de dança cósmicos que reconstroem os mundos. À parte desta Trindade, agita-se uma multidão fervilhante de deuses menores.

É dos textos védicos que procede o conceito fundamental do bramanismo: o de uma ordem universal, o Rita, que constitui a realidade, a verdadeira natureza das coisas, chamado Dharma, ao qual se opõem a desordem, Adharma.

O Rita é, pois, a lei natural que rege o universo e também todos os aspectos da vida do homem. Este deve agir sobre o universo através da invocação das divindades, mas sempre de acordo com o calendário que indica a correspondência entre os actos rituais e a vida cósmica.

O homem e a sua vida são encarados em analogia com o universo, sendo o seu corpo formado pelos mesmos elementos que a natureza: as suas partes sólidas correspondem à terra; os líquidos orgânicos à água; o calor corporal ao fogo; a respiração ao vento.

A doutrina específica dos Upanishads é a correspondência e relações entre as coisas. O Purusha, ou homem cósmico, é considerado em relação com a acção ritual (Yajna), e uma série de concordâncias são estabelecidas para reforçar essa noção de correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo.

A semente de Prajapati (senhor das criaturas) é constituída pelos deuses (força da natureza). O produto dos deuses é a chuva, que por sua vez produz plantas, que fornecem alimento.
O produto da criatura humana, que opera de maneira semelhante a Prajapati, é o coração, considerado sede das funções psíquicas. O coração é o espírito (Manas), que produz a palavra, originadora da acção (Karma). Essa acção faz com que o homem se descubra como sendo o próprio Brahman. Assim, a filosofia Upanishads ensina o homem a buscar o Absoluto dentro do seu próprio coração, e a compreender a identidade básica entre o Brahman e a sua alma individual (atman).

Os Vedas estabeleceram vititakarma, acções e actividades, direccionando os deveres que cabem em cada situação. O objectivo de vititkarma é fazer com que o homem cultive a atitude adequada através da vida, apreciando o Criador, a ordem e a harmonia da Criação, encarando o mundo objectivamente e compreendendo que ao homem cabe a acção, mas os resultados, os frutos da acção cabem ao Criador.

Devido à ignorância da sua verdadeira natureza e consequentemente à não aceitação da harmonia da Criação e suas leis, o homem age influenciado pelos seus gostos e aversões, preso aos resultados das suas acções, ficando assim envolvido no ciclo de nascimentos e mortes (samsara).

Existem três tipos de Karma: Agmi Karma, Sanchita Karma e Prarabdha Karma.
Agmi Karma são os resultados das nossas acções actuais e futuras. Corresponder às sementes que serão plantadas por nós.
Sanchita Karma são todas as acções feitas em vidas passadas, acumuladas em estado potencial e que ainda não germinaram.
Prarabdha Karma são as situações que estamos vivendo neste momento, as sementes já germinadas, as acções que já produziram suas consequências, é o destino que não podemos modificar e sim aceitar.
A acção ou Karma depende do espírito e da palavra e confere a cada indivíduo o seu destino, que, se não for realizado na existência presente, se realizará numa vida futura.
A dissolução do corpo não acarreta a dissolução do espírito que, marcado pelas acções praticadas durante a vida que findou, experimentará existências futuras, em que viverá as consequências boas ou más dessas acções.

Samsara é a prisão daquele que está ligado aos seus gostos e aversões, agindo apegado aos frutos das suas acções, ignorando a sua verdadeira natureza. Este homem viverá acumulando Karmas e necessitará nascer muitas vezes até alcançar a maturidade que o orientará no sentido da libertação e o livrará do ciclo de nascimentos e mortes.
Prosseguirá indefinidamente, a menos que a individualidade consiga a libertação (moksha) do domínio dos actos, tomando consciência da sua identidade original com o Absoluto. A origem desta doutrina de reencarnação é uma influência da Índia védica.

Eliminar o samsara é descobrir a nossa verdadeira natureza divina, Brahma.
A noção introduzida pelos Upanishads é o despertar (bodhi) ou tomada de consciência da verdadeira natureza de si mesmo, que é o conhecimento (jnana) por excelência. Ensinam-se técnicas psicológicas de meditação e contemplação para se chegar a esse conhecimento (Yoga), bem como a meditação sobre a sílaba sagrada om ou aum, símbolo do Absoluto.

Os “sons-sementes” formados por uma única sílaba e que terminam sempre por uma nasal, om ou aum, que podem ser acompanhados por um breve verso comportando algumas sílabas com sentido bem claro, chamam-se Mantras.

O Mantra age sobre o espírito, permitindo ao praticante compreender o seu significado profundo. A sua constante repetição, sobretudo quando combinada com os pranayamas (técnicas respiratórias), contribui para suscitar um estado de transe e provocar uma iluminação mística.
Muitas vezes o Absoluto é expresso de maneira negativa, para indicar a impossibilidade de defini-lo através do intelecto e da linguagem conceptual.
(continua)

15 Comments:

Blogger Leonoretta said...

ola augusto.
andava eu a ler ha dois dias o post anterior quando tu poes este que vai atrasar um pouco mais o meu comentario.
um bocadinho compridos, os textos,rsss, mas muito informativos, tornando-se por esse motivo uteis no acrescimo do nosso conhecimento.
quanto ao jantar,tenho pena de nao ter la estado.
mas vai dizendo como foi.
abraço da leonoreta

9:31 da tarde  
Blogger henrique said...

Caro Augusto, muito informativo este teu texto. Porém, rico em ensinamentos de como a humanidade tem vindo a lidar com o facto de ter uma mente que consegue ir muito além do que seria naturalmente de esperar. E por vezes sem qualquer causa aparente.
Abraços

9:27 da tarde  
Blogger Dad said...

Engraçado como os nascimentos, vindos de virgens e as trindades se repetem em quase todas as manifestões divinas!

Estou a achar que este tema é mesmo muito bom!

Beijinho,

11:09 da tarde  
Blogger legivel said...

Uma descrição muito agradável de seguir sobre o intricado?! (para outras culturas e fés) culto Brâmane.

Abraço.

11:48 da manhã  
Blogger JG said...

Sempre a aprender, amigo Augusto.
Consigo, sempre.

Abraço

5:25 da tarde  
Blogger hfm said...

Augusto

Uma primeira leitura fez-me ficar expectante quanto à continuação. Já imprimi são textos a ler com vagares.

4:39 da tarde  
Blogger Peter said...

Continuas com o Hinduismo. Prefiro o Cosmos.

Obrigado pela visita.

12:26 da manhã  
Blogger armando said...

Sempre completo e académico...

Diz-me uma coisa que nunca consegui dar resposta: achas que as várias doutrinas religiosa Indianas alguma vez poderão ser entendidas segundo o paradigma de um ocidental?
A mim parecem todas paradoxais e obedecendo a uma lógica circular.

Um abraço
Armando

2:38 da manhã  
Blogger Carmem L Vilanova said...

Esplendido, amigo!
Cada semana que aqui venho, enriqueço meus conhecimentos através de teus textos... Um primor, vez que sao escritos com simplicidade, clareza e sem imposiçao, o que é tao importante...
Beijos, flores e muitos sorrisos, querido amigo! E um lindo fim de semana que já se aproxima! :o)

5:43 da tarde  
Blogger Choninha said...

Bom dia Augusto. Finalmente arranjei um pouco de tempo para navegar, literalmente, no seu blog. Comecei por estes posts mais recentes, andei nas origens da vida e descobri nos arquivos, em Setembro de 2006, o Budismo. Bem haja pela partilha do seu saber, e como não ocupa espaço, vou continuar a passar por aqui, lendo e aprendendo consigo.

Ah, antes de ir, gostei muito de ler o post, no arquivo de Outubro, sobre classes sociais. Só não consigo inserir-me, com definição, numa só classe. Tenho características da classe média baixa, pobre remediado e pobre de menos recursos. Será dos tempos que correm, em que os ricos são cada vez mais ricos e a classe média quase desapareceu ou sobrevive agarrada a créditos bancários? Ou será porque sou benfiquista? :) Qualquer das maneiras deito-me tranquila e acordo serena, sem a cabeça a cogitar como pagar o cartão de crédito :)

Um abraço, voltarei brevemente, assim que possa, agora vou tomar uma aspirina e beber um sumo de laranja que a senhora dona gripe anda aqui a rondar-me.

8:50 da manhã  
Blogger isabel mendes ferreira said...

como a vida....
que passa e rompe.tudo.
como tudo o que é raro. este gostar. de ti. e dela.



beijos.


voltei...ainda que devagar.


(ver profile do Piano)


abraço.

11:10 da manhã  
Blogger Choninha said...

Vim responder ao seu comentário. Fui à procura do budismo, do qual conheço quase nada, depois de ler sobre o Bramanismo. E encontrei, tudo se encontra quando se quer. Quanto ao meu post, claro que era uma brincadeira, porque gosto tanto da palavra tença que não resisti. Se o Augusto me conhecesse melhor iria sorrir, sou a pessoa mais despojada que possa imaginar. Mas haveremos de conhecer-nos melhor, concerteza.
E agora vou seguir o rasto da minha doce Isabel, que já vi que aqui esteve. O Piano deixou de tocar, vou ver onde ela anda. Boa noite e um forte abraço.

10:48 da tarde  
Blogger contradicoes said...

Tal como outros já o disseram estamos sempre a aprender contigo. Mas eu venho sobretudo agradecer-te o cuidado sobre o meu estado de saúde. Ora bem por volta da época do Natal foi acometido duma forte crise de hemorroidal que me causou um enorme mal estar durante várias semanas obrigou a deslocar à urgência de Hospital São Francisco Xavier, onde o cirurgião que me observou requisitou uma consulta de proctologia para o mesmo Hospital o que face ao quadro existente só teria hipótese de a conseguir no próximo mês de Abril.Tratando-se dum caso urgente utilizei o recurso proporcionado pelo meu serviço através da Médis.
Uma primeira deslocação ao Hospital da Cuf e a recolha de opinião de um cirurgião geral. Mais uma consulta e um posterior exame (retrocospia)
para concluir algo cujo conclusão já havia chegado. Ou seja nem o SNS
nem os recursos médicos colocados à
nossa disposição através dos seguros funcionam capazmente. Ideia
posta de parte quanto à continuidade de utilização destes
recursos que só servem para empatar
Na próxima semana deslocar-me-ei a
um consultório particular dum especialista em proctologia onde espero ver o meu problema resolvido. Entretanto nestas andanças já lá vão quase 2 meses.
Como vês caro amigo assim como é que podemos experimentar melhoras.
Com um abraço do Raul

12:11 da manhã  
Blogger Paulo Sempre said...

Depois de ler este posto, perguntei-me: que hei-de eu dizer?
Abraço
Paulo

12:34 da manhã  
Blogger Ulysses said...

Interessantissimo! Derivará daqui o nome do célebre rio?
1 Abraço

7:50 da tarde  

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