terça-feira, janeiro 18, 2005

Lembranças VII

Na altura que entrei para o exército, vivia com a minha família, pais, três irmãos e avó, no bairro social do Restelo, não confundir com o bairro aristocrático do Restelo.
Neste bairro, mandado construir por Salazar para pessoas com rendimentos não muito elevados, a classe média baixa, como se chamava na altura, só foi permitida a ocupação das casas por famílias com um mínimo de três filhos.
A dimensão do bairro, como ainda hoje é visível é muito grande, cerca de 600 vivendas geminadas, o que multiplicadas pelo número médio de 3,5 filhos por casa dava um população aproximada de 2.100 jovens.
O bairro era atravessado por três artérias principais as quais se cruzavam com outra de igual largura, central, que dividia o bairro em dois, de um lado os números pares do outro os ímpares. Era nesta artéria central que ficava a parte social do bairro, comércio e cafés etc., sempre muito movimentada durante todo o dia. Da parte da manhã, com o pretexto das compras todas as matriarcas iam ao centro, como era conhecida a artéria, aproveitando o ensejo para porem a conversa em dia umas com as outras em plena rua ou nos cafés, pelo menos até às onze horas, pois havia que fazer o almoço. Na parte da tarde o movimento amainava, para recrudescer depois do jantar. A televisão, ainda só acessível a uma classe mais endinheirada, não monopolizava, como hoje, as atenções.
Era o horário nobre. Famílias inteiras, depois do jantar, deslocavam-se então para os cafés, formando grupos conforme as amizades, passando horas em animada conversa, recolhendo a casa entre as 10,30 e as 11 horas, pois o dia seguinte era de trabalho. Ao sábado a saída nocturna, prolongava-se um pouco mais.
No verão, com as noites mais convidativas, aquela convivência nocturna, comparada com o que se vê hoje, garanto que era edílica. Nas esplanadas dos cafés pairava uma atmosfera de conversas delicadas e cordiais, até com uma certa cerimónia nas relações, interrompidas aqui e ali por alguma gargalhada incontida. É preciso esclarecer que os patriarcas, apesar de não terem grandes ordenados, o que era habitual na altura, eram de uma maneira geral pessoas muito educadas e alguns deles com boa formação intelectual, devido ao facto de muitos serem professores. Havia até um certo cuidado no vestir, especialmente por parte das matriarcas.
A juventude, essa convivia em cafés separados, pois quer o seu ruído ou a sua expressão mais informal, assim o exigia. Também alguns namoricos ficavam mais facilitados.
De manhã era a debandada geral, correria dos mais atrasados para apanhar o comboio que ficava a cerca de dez minutos de distância, para o emprego ou para a escola. Noventa porcento dos patriarcas não tinham automóvel, os filhos nem aspiração. Como já referi os ordenados não eram grandes e havia muitas bocas para alimentar e muitos estudos a pagar, embora esse custo não fosse tão elevado como é hoje. À tarde era o regresso, mais calmo sem correrias.
Aos sábados, as boites de hoje, eram substituídas pelos bailes que organizávamos nas poucas garagens existentes ou nas próprias casas, onde os rapazes levavam as bebidas e as raparigas a comida, e ao som do Elvis, Billy Holiday, Johnny Halliday, Pat Boon……….., passávamos as noites, competindo a ver quem melhor executava os passes de dança da moda, estávamos no auge do Rock and Roll. Nós de fato e gravata, elas de vestido curto e rodado, emprestávamos ao baile um cenário digno de um filme musical holliwoodesco.
Eram outros tempos, melhores ou piores não discuto, mas numa coisa levámos vantagem, não havia drogas nem muitas das coisas horríveis de hoje. A convivência era o que marcava o compasso do quotidiano.
Foi neste ambiente que cresci, e de que tenho muito boas recordações e ao qual voltarei mais tarde, que a partir de um certo sábado da minha memória o centro se transformou completamente. Os jovens alegres e despreocupados de uma sexta feira que já pertencia ao passado e que não voltaria mais, começaram a dar lugar aos militares. Infantes, marinheiros, aviadores, uns soldados outros sargentos ou oficiais, conforme as habilitações, todos com as suas fardas passaram, às dezenas, a decorar os cafés do centro. Porque era ao sábado que todos tinham folga no quartel para vir a casa. Tinha rebentado a guerra em África. O recrutamento da juventude estava em marcha, era só aguardar te a idade regulamentar para ser chamado. Iria inverter-se o ciclo natural da vida, os filhos morrerem primeiro que os pais.


8 Comments:

Blogger AnaP said...

Depois de um texto tão colorido (ainda que nostálgico), esta frase final deixa assim um sabor amargo. Mas é a verdade, não é? Beijinhos, Augusto!

11:32 da manhã  
Blogger oasis dossonhos said...

Gosto muito dos textos bem escritos (como é o caso) sobre os bairros, as pessoas e as suas histórias de vida.
Continua a ser uma felicidade descobrir as tuas palavras, meu bom amigo, agora num outro blog. Bem Hajas! E quando puderes aparece no
http://aguasdosul.blogspot.com
há muita coisa nova: Tunísia, Granada, fotos e poesia. Hálito de vida, a vertigem da viagem, a ternura.
Volta sempre!És muito benvindo, assim como os teus amigos-leitores!
Partilhar é uma das melhores coisas deste mundo.
Saravá!Abraço
Luís

1:49 da manhã  
Blogger Alexandre Narciso said...

Muito bem escrito este texto Augusto. Era bom que a ordem da vida n fosse invertida, mas infelizmente continua a ser em muitos pontos do globo.
Abraço

2:09 da tarde  
Blogger R/B Estação said...

Ninguém conta com isso mas...

Adorei recordar contigo aqui no teu cantinho.
Um abraço.

10:33 da tarde  
Blogger paopbocca said...

a tua estória está demaais. os meus avós viviam nesse bairro social do Restelo. todos os domingos ia lá almoçar com os meus pais. não psso fazer um comentário maior por falta de tempo.
continua

3:14 da tarde  
Blogger Águas de Março said...

Augusto, cá estou, depois de me enganar e ir parar ao outro Clepsidra, que também é novo. Grande burra, razão tinhas tu em dizer "agora não te enganes"...
Parabéns portanto pela nova casa, e vida longa para ela!Beijo amigo
Ana
Ps. Se tiveres pachorra e nada que fazer, não queres escrever um pouco sobre a Lilith? (no post antigo, para não misturar as coisas) É que não sei quase nada sobre ela, nem encontro, e calculo que tu saibas...
Beijinho.

8:54 da tarde  
Blogger Águas de Março said...

Bom, segundo o que eu sei, a Lilith foi a primeira mulher de Adão, criada como ele do barro ou argila, portanto sua igual, coisa que ela depressa fez reivindicar, ao ponto de ignorar Adão, e preferir Deus.
Este viu que tinha feito asneira, correu com ela do éden, e criou então Eva.
Salvo erro apenas os judeus lhe fazem uma pequena referencia, classificando-a como um demónio nocturno que rouba, ou mata criancas adormecidas. Súccubos, ou algo no género.Uma figura muito silenciada entre a igreja - ninguém lhes arranca uma explicacão. Mas que ela existiu como a primeira mulher, parece ser a teoria de quem avanca algum comentário. Aí tens!
Estou no pc do hospital, isto não tem cedilhas, paciência..
Beijos,
Ana Maria

11:57 da tarde  
Blogger augustoM said...

Olá Anap
Infelizmente foi a realidade.
Um beijo. Augusto

Olá Luís
Já visitei o teu blog e comentei. Parece que és muito dado a viagens, o que é óptimo. Vou aparecendo, só que o meu tempo não é muito.
Um abraço. Augusto

Olá Alexandre Narciso
A ordem da vida foi estabelecida pela Natureza, o homem é que a distorce.
Um abraço. Augusto

Olá João da Cal
Bem vindo ao blog. Todos pensamos que só acontece aos outros.
Um abraço. Augusto

Olá Paopbocca
É um bairro muito giro, se bem que não o tenhas conhecido no tempo em que os teus avós foram para lá morar.
Um abraço. Augusto

Olá Ana Maria
Eureka, já encontrei a Lilith na literatura judaica. Ou vou responder directamente no teu blog ou publicar um post, ainda não sei.
Um abraço. Augusto

12:42 da tarde  

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